terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sangue, Alcool, Lutas e Despudores

Na presente situação em que estou, sempre que posso e desejo sair, frequento bares. A noite é um reduto para mim e um átrio de observação das mais estranhas criaturas que a habitam. Fico feliz em sair com amigos de longa data, me inebriar um pouco, dividir experiências, conversar sobre tudo, enfim, socializar-me. Numa destas noites, a qual eu estava particularmente amargo, resolvi encontrar meus distintos para jogar conversa fora, e num bar destes escolhidos ao acaso, ficamos bebericando e contando nossas amenidades.

A sensação de estar em um lugar, com pessoas queridas, não pode ser melhor, mas eu clamo por observar as pessoas ao meu redor. Algumas imagens, de cara, já me bombardeiam as pupilas e se dispõem a serem comentadas com o máximo de cuidado. Ao chegar ao local, me deparo com uma mesa imensa e repleta de adolescentes, entre 15 e 19 anos, aproximadamente. Até aí, tudo bem, eu sempre acho legal estar perto de gente jovem. O frescor das idéias, a beleza das moças, ainda na mais tenra idade, o furor dos rapazes ao quererem pra si toda a atenção, quase que num surto de infantilidade sadia, bradando e agindo como os tais. Eu me divirto com eles, e gosto de tê-los por perto. Mas algo me incomodava. A juventude é o laboratório da nossa personalidade, e ali estavam os pequenos camundongos desta grande experiência que é a vida. Seus copos enchiam mais que seus espiritos inflavam. Estranhamente, algumas moças estavam bebendo como se nada mais fosse importante naquela reunião gaudia. Bebiam, sem controle, deseperadamente, como se fosse o último drinque de suas vidas.

Fato é que, o estabelecimento, já estava incorrendo no maior dos erros, ao vender bebida pra tanta gente menor de idade naquela mesa. Apesar das curvas das moças, não preciso ver os documentos delas para adivinhar que as mesmas ainda não romperam os dezoito anos. Eu nunca fui santo, e sei que exagerei na minha adolescencia. Mas também sei que os estabelecimentos sempre negaram veementemente me vender bebida na minha época. Era frustrante, mas me livrou de muitas babaquices. Hoje, no entanto, percebo que os bares já nem tentam proibir. Liberam mesmo sem pedir identificação. Uma pena.

Uma moça em particular bebeu muito além da conta. Ela era um pouco obesa, mas bonita, jovem, e acompanhada de uma rapaz mais velho. Ela entornava caipirinhas em seu sistema digestivo como se aquelas fossem sua água num deserto. Não demorou muito, e ela perdeu o controle de suas ações, derrubando copos, cadeiras e empurrando pessoas, dado o seu tamanho. O salto imenso que a mesma vestia, também não ajudava. Por fim, após alguns minutos, o vomito foi inevitável, e uma noite que tinha tudo pra ser ótima se transformará num pesadelo, ao passo que seu acompanhante, num elan de odio e compaixão, a retira com tudo do recinto e a leva não sei pra onde. Como pai, aquilo me atingiu.

A noite estava indo bem, nós conversávamos bastante, as palavras fluiam e nossa cervejinha molhava nossos paladares, já responsáveis pelos anos de aprendizado com os maleficios da bebida, especialmente fora de casa. O grupo na mesa ao lado ainda persistia, apesar do alto teor alcolico de todos e do barulho, que aumentava a medida que eles iam tomando mais alcool. Chegaram doses de tequila, cervejas, energéticos, vodkas etc...Era um coquetel de deixar até o mais profissional bebado dos bebados com vergonha. Chega um bolo fumegante, vejo que é aniversário de alguém na mesa. A aniversariante é uma moça, bem mignon, loira, com não mais que 16 anos. Ela têm tatuagens nas pernas, o vestido é bem pequeno, tem piercing no nariz. Deveras, um fruto de um casal de pais bem liberal, ou não. Eles dão os parabéns a ela, entoam a famosa música e distribuem o bolo. A moça, já tropega, começa a distribuir beijinhos entre os convidados daquela mesa. Ela chega na parte de suas amigas e começa a beija-las na boca, e os rapazes fotografam com seus celulares brilhantes. A coisa começa a ficar mais estranha ainda, e ela parece ter curtido a brincadeira, pedindo fotos a cada beijo que dava em suas amigas, também embriagadas. O recato, naquele momento, que toda a moça deveria ter, já havia sumido.

Nós, que estavamos na mesa ao lado, interrompemos nosso papo com aquela visão, afinal de contas, somos homens. Naquele momento, eles se sentiram poderosos, e acharam ótimo nos ter calado com tal show gratuito. Havia um misto de reprovação e curiosidade nos nossos olhares, ja empertigados pelos recentes trinta anos de vida. Aquilo virou assunto em nossa pequena mesa, e nos questionávamos a motivação da moça para proporcionar tal atitude de exibicionismo assim, sem sentido. Aquele projeto de Paris Hilton, lascivamente agindo como uma socialite bebada, nos prendeu a atenção e nos travou o assunto.

De repente, todos começaram a gritar, como num estádio de futebol. O bar inteiro olhava para o televisor. Eu, que estava de costas, de inicio, não dei muita atenção. Ainda tentava digerir aquelas coisas que houvera visto, mas fui logo alertado pelos amigos. É o UFC! Sim, UFC, agora no Brasil! Não vou bancar o idiota e dizer que não sei do que estas letras se tratam, e o que elas representam numa nação como a nossa. Um homem espancando outro até que um dos dois caia inconsciente, num ringue em forma de octógono, com grades, um juíz (pasmem, para quê?), e um publico sendento por sangue. Comecei a pensar que, na Roma Antiga, o negócio das lutas que iam até a morte era lucrativo. Envolvia escravos, homens páreas, e girava um mercado de riquezas inimagináveis para todos os envolvidos. Os politicos usavam estas lutas para entreter um publico enfastiado, louco por violencia insana que fizesse sua adrenalina fluir. Azar dos lutadores, que se não lutassem, morriam da mesma forma. Isto foi a mais de 2000 anos atrás. Olhei o UFC na televisão, o sangue no chão do octógono, o público gritando enfurecido clamando pela destruição do adversário, olhei os patrocinadores do evento, os tais lutadores. Achei aquilo bem a cara do brasileiro, que convive tanto com a violencia no dia a dia. Ali ele extravasa o desejo de ver alguém ser espancado. Não é tão diferente das noites e noites deste país, onde jovens saem para se divertir e acabam espancados, estuprados ou mortos. Há claramente uma identificação master deles com a luta sem ética, a luta ensanguentada, a beberreira desregrada, o homossexualismo exibicionista e o desejo de chocar. É um retrato claro de uma juventude criada sem limites: Uma luta sem limites, uma farra sem limites, uma morte sem limites. Assim Roma ruiu. Assim, nos caminhamos para a ruína.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

As 24 Horas Ácidas e Reais.

Sábado, 00:00hs, aproximadamente. A mente acelerava com pensamentos furtivos sobre o que fazer num momento destes, onde nada faz sentido e tudo abruptamente aparece como opção ao tédio. Uma visão estonteante atinge os olhos, ocasionando um brilho flamejante aos mesmos: uma garrafa do mais puro e etilico Bourbon já fabricado. Ali, jogado num canto, como a atrair a mais atroz alma imbuída do espirito de autodestruição, que somente os mais loucos entendem. Sorvido o liquido, a noite estava por iniciar.

Sábado, 02:00hs. O nivel de embriaguez ficava severo. O alcool é perverso, eleva seu escravo a um patamar de idiotices serenas, onde tudo fica estupidamente claro demais para ser verdade. Nada parece ser um impedimento, pensa-se claramente e fala-se atabalhoadamente. Depois de um certo momento, algumas funções motoras são perdidas, pode-se, inclusive, perder-se as contenções das necessidades fisiologicas. E tudo isso pode parecer no minimo prazeiroso no momento. Num raro e momentaneo lapso de racionalidade mira-se ao espelho e se percebe tropego, disfuncional. Não era pra tanto, a medida do prazer e do sofrimento reside exatamente na dose do entorpecente, seja ele qual for. Onde estaria o prazer daquele momento? Certamente a medida já houvera ultrapassado o tolerável. Onanisticamente falando, restaura-se forçosamente o prazer na Era digital, abusando do manual. Mais claro que isso, impossível. É como uma autopunição mascarada de prazer.

Sábado, 05:00 hs e minutos incontáveis. Onde estará a realidade? Que jogo depravado se está jogando por aqui? Seria aquele pão com manteiga envelhecido por mais de 24hs um retrato fidedigno de uma realidade palpavel? Ninguém é mais real, são todos hologramas. Todos agora são projeções do que querem ser. Aqui dentro só há uma realidade, e não é tangível. É uma realidade morta, é perigosa, sem padrões definidos. Só pode ser loucura. Que aspectos perversos da solidão ainda haverão de açoitar a alma? E este barulho desgraçado de motos e caminhões? É tempo de relaxar. Onde estarão os sedativos? Surtado ou não, ser paranóico não ajuda nesta Trip infernal, estando preso num mesmo substrato. Querem realidade? A realidade está nos beijos negados, nas chances tolhidas, nos desejos abafados, nas decisões indefiniveis, na falta do básico, no encardido da roupa, no fundo da porra do copo, ainda melado pelo mais fino Bourbon. Realidade é saber que nada é definitivo e que a morte é uma saída.

Sábado, 09:00hs. Que maldição, as portas rangem sem uma força maior que as mova. Neste momento a realidade já foi para as picas, o efeito alcolico sumiu e o ranger das portas nada mais é que o vento uivante de uma manhã fétida e insossa, cuja alvorada passou batida. A mente volta ao seu estado mais irreal possivel, o surrealismo das formas que dizemos ser reais tomam seu lugar naturalmente neste mundo em que nada mais faz sentido. A solidão é uma opção importante para, ao menos, flertar com a realidade. Farsa é viver junto com alguém que te vende sonhos, mas não te possibilita reconhecer-se, deveras, como realmente é. O isolado se reconhece pois nada lhe é mascarado. A ele só lhe resta sorver dos néctares mais amargos como o mais puro fel. Quiçá a solidão seja um instrumento de definição de importancia da existencia de alguém para o mundo, e da necessidade da sua perduração num quadro social. É um instrumento, sim, da verdade mais importante: a verdade para si.

Sábado, meio dia. Seria necessária uma total higiene mental para que as sequelas de um descompromisso com o que é racional desaparecessem, e que pudesse voltar a ser um agente da realidade para os irreais. Nesta hora algumas necessidades do corpo afloram, e a vontade é de suprimi-las o quanto for possivel. Todos os porcos que vivem neste mundo saem de seus chiqueiros eventualmente, não? Por que não pastorea-los de volta a seus covis, com seus sorrisos asquerosos e personalidades audazes, de forma a ensina-los um pouco de realidade nua e crua. Um pouco de agitação não seria ruim, e ver alguns porcos guinchando de sofrimento pela total falta de comprometimento com a vida em sociedade não seria de todo ruim. Onde estarão estes suínos? Não precisa ir muito longe, há milhões deles.

Sábado, 16:00hs. O corpo sofre pela falta de tudo, e pelo excesso do nada. O tabagismo é uma opção, e dele pode-se arrancar mais algumas tiras do prazer ininterrupto, pelo puro meio de se enganar o cerebro com cerotonina narcotica. Algumas baforadas e as idéias de justiça somem com a fumaça, dando lugar a uma necessidade, quase que espasmódica, de inspiração. Sim, conseguir uma veia inspiradora qualquer que faça ebulir o sangue e dar um sentido a tanto nonsense disfarçado de desencanto. O prazer veio de novo e estava querendo guiar o cerebro como um cego ao volante de um carro. Alheio aos obstaculos, a realidade naquele momento era uma decepção, mas não tão somente isso. Era uma esperança de que o dia de amanhã será sempre mais que hoje, repetindo o clichê. Em mais um espasmo de inspiração vem a necessidade de revolucionar. A revolução é a saída dos tolos para os seus mais profundos desejos. Todo canalha quer mudar algo, de forma a mascarar suas desventuras. Que tal mudar?

Sábado, 21:00hs. Alimentado de idéias revolucionarias a mente acelera de novo, em busca de algo que sacuda o mundo dos suinos audazes. Os porcos são criaturas egoístas, chafurdam em seus próprios egos de bosta, quando são, na verdade, criaturas amestradas por uma midia manipuladora. Os porcos comem, fodem, bebem, defecam e, não satisfeitos, defecam uns nos outros. Há porcos psicopatas, porcos justiceiros, porcos déspotas e até mesmo porcos revolucionarios. O que move a lealdade dum porco? A grana. Como tornar um porco num ser humano? Prive-o da grana. Uma bela criatura se forma da privação dos seus desejos realizados pelo capital. O afloramento do bom humano se dá no momento da falta. Ali, ele é domado. Seu espirito suino fica pra trás pela pura falta de poder atribuido pelo dinheiro. A revolução tem um caminho traçado.

Domingo, 00:00hs. Foram 24hs da formação do carater de um homem, do auto conhecimento. O entorpecente, a privação, a reclusão e o divorcio com a realidade imposta por todos foram elementos de entendimento do que é estar só num mundo que não lhe quer. É uma luta injusta com o establishment, que força as mentes alternativas a se desligarem, por um momento, da realidade imposta para, enfim, encontrar a realidade que mais lhe apetece. O que é real é aquilo que se constroi, mesmo que em pensamentos. Ninguém te impõe a realidade, como se ela fosse um produto pronto para ser tomado, bastando agitar antes do consumo. O paralelismo da realidade de um é a loucura nos olhos de outros. O corpo esmorece, reconhecendo a perda da batalha revolucionaria para os suinos da segunda-feira. A privação foi grande demais, e o reino dos suinos maltrata demais seus desertores.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Minha Nota Do Subsolo

Dostoievski descrevia o subsolo como um estado da alma onde nossos pensamentos mais sombrios se revelam. Seres introvertidos e observadores vivem no seu subsolo até que alguém os resgatem para a vida entre os comuns. Muitos não saem de lá nunca. O subsolo me atrai, lá recupero a segurança em muitos aspectos da vida, observo meus semelhantes e constituo uma forma de ver a vida muito mais abrangente do que somente as aparencias querem me dizer.

Estado da alma, não? É verdade. Por vezes o subsolo me atinge como se houvesse sido abduzido, puxado como que forçosamente para os cantos mais abissais da minha consciencia. O que fazemos lá? Expulsamos as superficialidades, absorvemos o auto conhecimento, olhamos o outro e pensamos se o mesmo nos salvará deste poço. Não, ninguém aqui está deprimido no subsolo, ninguém vai morrer por estar lá. É mais que um simples desprazer psicológico. É um momento onde as palavras simplesmente são substituidas por pensamentos, fala-se menos e reflete-se mais. O subsolo é algo notavelmente confortável e nos permite grandes conclusões.

Aqui do subsolo vos escrevo, estou chafurdando nas minhas próprias idéias fixas sobre a sociedade, e delas espero abstrair o máximo de entendimento sobre a mesma, reconhecendo também o meu papel neste interim. Vejam só aquele cidadão, num carro estilo offroad, ou aventureiro, como queiram. Eu acredito que o carro, com o passar dos anos, virou um meio de expressar quem somos, e este cidadão quer expressar algo...o que o subsolo me ajuda a concluir? Ele mora numa cidade asfaltada, sem estradas de terra. O carro está limpo e sem traços de lama. O máximo que viu de sujeira foi a poeira do ar. Ele está vestido socialmente, talvez seja bancário e sua pele é branca como cera, denotando passar grandes períodos sem tomar sol, ou fazer as ditas aventuras propostas pelo veículo, que o permitiriam ter um bronzeado muito melhor. Pelo adesivo na traseira, ele tem apenas um filho e uma esposa, não necessitando do vasto espaço do automovel. Aliás, por que o adesivo na traseira? O que mais ele quer passar ao mundo exterior? Que é um homem de família? Que é melhor do que eu por isso? Ou talvez seja só um exibicionista, assim como uma larga parte da sociedade de hoje, assolada por informações excessivas em redes sociais? Deve ser de tudo um pouco, mas voltemos ao propósito do carro, para quê este cidadão precisa de um veiculo offroad? O subsolo me diz que este homem quer mesmo é mostrar algo, por meio do bem de consumo, que ele não é. Provavelmente, o individuo que realmente precise deste meio de transporte não tenha a capacidade financeira para te-lo, talvez por passar muito tempo em suas aventuras, ou trabalhos braçais. Logo, o nosso amigo "bancário" quer praticar o bom e velho escapismo: - Se não sou, ao menos vou expor à sociedade que pareço ser. Sempre sonhei em ser durão, hardcore, radical, mas no fim, não passo de um pai de família com mania de grandeza. Faz sentido.

O subsolo é assim mesmo, nos dá a verdade por meio da ironia. Esclarece escarniando. No entanto me sinto feliz por estar aqui, muito embora seja algo muito solitário. Outra coisa me vem a mente, e penso: - E aquela moça sufocantemente bela que acaba de adentrar meu campo de visão? Cabelos alisados à perfeição, óculos escuros importados que cobrem quase a totalidade de seu rosto, mas não escondem um belo nariz, fabricado pelo mais conceituado cirurgião. Pele alva, mas coberta por uma maquiagem bem feita, até um tanto forte. Cheiro marcante, amadeirado, com notas de pinho. Corpo esguio, alto, ornado por belas roupas, talvez de alta costura, pernas de fora proporcionalissimas, clarinhas. Mãos e pés bem cuidados, um traço marcante de ter evitado trabalho manual e pesado durante sua curta vida. O que ela quer transmitir com isso? Obviamente o subsolo é imprescindivel na qualificação daqueles que não pertencem a ele. É obvio, também, que esta moça jamais vai observar as coisas daqui, pois ela é notavelmente um ser da superficie. É superficial, não? Ao menos parece ser. Algo me diz que ela tem posses, ou ao menos quer parecer ter. Se for a segunda opção deve estar endividada até o pescoço. Entretanto, se for mesmo rica, deve ser bastante dificil e hostil. Olhem o esforço que ela faz para não olhar os seres ao seu redor. Parece uma contradição, mas ela não quer olhar os outros, mas quer que os outros a olhem. Se não fosse desta forma, porque se vestiria tão bem, e cuidaria tão bem de sua aparencia? Sim, ela deve ser dificil, no minimo arrogante. Deve estar num estágio de consciencia em que se não for notada, cairá em frangalhos. Precisa disso, se alimenta disso! Não parece nada sexual, mas no fim, é somente por isso que pode se fazer ser notada. Às mulheres, no entanto, ela que causar inveja, quer diminui-las. Definitivamente ela é um belo exemplar, mas não se enganem. Por dentro existe um ser humano, sim, existe uma criatura insegura, louca pra se destacar de alguma forma. O exibicionismo exagerado a impulsiona e os olhares de quem quer que seja são seu combustivel. Deve ser fragil, facil de desmontar, como um castelo de cartas. Deve ser sensual, mas não sexual. Trava-se facil para o sexo, por criar uma barreira imaginaria à frente dela, expondo tanta imagem para tão pouco conteudo. Eu imagino a dificuldade que deve ser viver dentro dela, esperando o reconhecimento a cada olhar, em cada esquina. Que ser humano superficial! Por isso gosto do subsolo.

Aqui as estórias fluem como rios venenosos a verter para o imaginário sem fim, pois no subsolo somos livres pra pensar da forma que desejarmos. Não interessa quem o ou quê, sempre há espaço para, inclusive, ir mais além. A zona de conforto que o subsolo provê só não é tão boa quando o mesmo se vira contra você. Daqui de dentro passei a me conhecer melhor e a tirar conclusões que jamais tiraria estando na superficie, vivendo com os outros "seres de atitude". Aqui abaixamos a bola, popularmente falando, nos policiamos e vemos que somos falíveis, detestaveis e deploraveis em alguns aspectos. Olhe só aquele exemplar, belos filhos, boa vida, mas com grave problema: ele não se gosta. Sim, já ouviram falar daquele homem/mulher que pode ter tudo na vida, mas não tem aquilo que ele mais deseja: um retrato perfeito de si próprio? É aí que o subsolo fica perigoso, exatamente quando criticamos os superficiais e pensamos quanto a nós mesmo. Ora, eu mesmo disse que o subsolo nos serve de observatório, para que possamos nos tornar melhores, sem jamais ir para superficie sem razão. É isto mesmo, mas a autocritica é o limite disso. Pois bem, segue a vida daquele homem, preso no subsolo, mas incauto à realidade. Ele não tem autorespeito e se odeia mais a cada dia que passa. Ele cobra muito de si, exige muito pouco dos outros, e se ve preso numa miseria sem fim. Ele tem todos os instrumentos para deslanchar numa perfeição de vida, mas se atrasa em seus pensamentos mais indignos. Muitos pensam dele ser um canalha, um arrogante, um párea. Mas ele é um homem com tanto a dividir com o mundo, alguém que as pessoas podem confiar, um cara de principios. Infelizmente ele não consegue, ou não pode demonstrar isso ao mundo, e o mesmo se esconde no subsolo, onde o isolamento da consciencia o consola. Aqui, no subsolo, jaz um sem rumo, um homem com alma subterranea, habitando um porão sombrio, mas com ganas de flertar com a superficialidade. Neste subsolo em particular tem um maldito espelho, e por ele acabo por ficar preso, aqui, distante. É, o subsolo é perigoso demais quando passamos a esmiuçar nossa própria e profana personalidade. Voltemos aos outros.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Diz a Ela Que...

O que mais um tolo necessita do que uma forma de difundir suas tolices? Um poema com interlocução.


Diz a ela que me enojei,
diga que me enganei,
fui afoito e intempestivo,
que me dei por vencido.

Diz a ela que tentei,
que me expus, me magoei,
diga que estou ótimo,
mas que não haverá um próximo.

Diz a ela "foi só uma aventura",
que foram rompidos os laços de ternura,
diga que clamo por distância,
para me afastar de sua arrogância.

Diz a ela que prefiro romper,
uma ilusão não há de crescer,
diga-a que é promíscua,
diga-a que é oca, inócua.

Diz a ela o que é sentimento,
que nem tudo é momento,
que ninguém é descartável,
que a sua indole é desagradável.

Diz a ela que a desprezo,
que não mais a tenho apreço,
que sua embalagem pode ser atraente,
mas seu interior abriga uma alma doente.

Diz a ela que a vida a ensinará,
que seu sexo não mais a servirá,
os anos de ouro não são eternos,
só nós sobram os amores ternos.

Diz a ela que o tolo morreu,
que ninguém assim venceu,
fica somente o ensinamento,
para um idiota que ficou atento.

Diz a ela que não há rancor,
apenas um leve torpor,
causado pelo golpe furtivo,
quando dado de supresa é mais doído.

Diz a ela que outros virão,
que sua "bela carcaça" os atrairão,
diga que serás um mero brinquedo,
que por ela não guardarão segredo.

Diz a ela que é fadada a solidão,
ao agir como uma medusa sem coração,
diga que o futuro para ela é nefasto,
satisfeito assim me afasto.

Diz a ela que há muitas assim,
que se locupletam, usam e fim,
mas as coisas são ciclicas,
amanhã tudo se complica.

Diz a ela que a mim resta só o lamento,
mas que estou mais atento,
que amanhã pode ser ela,
a vida recompensa a quem espera.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma Descrição Pessoal, Segundo Eu.

Já que não agradei ao descrever quem considerava especial, resolvi me auto descrever. Sem lirismo ou enrolações, somente uma descrição pura e simples e em poucas linhas. Antes eu do que qualquer um...(a)

Ao acordar, gosto de me higienizar, ao dormir prefiro assistir algo desinteressante para que o sono venha galopante. Nas refeições sou ritualista, para mim cada momento em frente a um prato de comida é como uma devoção à mais sagrada das benesses: ter o que comer. Já disse, sou filho de Baco e como tal elevo a comida e a bebida a um altar dos prazeres divinos. Nada monástico, eu admito. Mas desde quando falei que tinha veia religiosa ou coisa que o valha? Sou um mero mortal, um pecador perdido nesta humanidade suja. Um camundongo no subterraneo cercado por outros camundongos, se alimentando dos restos uns dos outros. Ninguém é especial. Está vendo como me autocritico? Sim, sou o meu maior critico. Me cobro porque sei que falho. Sou falível, acreditam? É, eu falho...

Sou filho de Baco, eu repito. Meu corpo não tolera o vinho e eu brigo com ele, enfiando este néctar goela abaixo. Não há nada comparavel ao desejo por um bom vinho. A cada garrafa aberta, é como uma descoberta. Nada mais é que uva fermentada e envelhecida em tonéis, mas cada um tem um tom, um cheiro, um sabor. Ah, eu jurei que não ia falar de mulheres neste texto, e nem mesmo fazer metáforas entre mulheres e bebidas. Isto é tão cliche! Digamos assim, quando quero beber, bebo mesmo. Já me encontro em certa falencia hepatica. Eu sei, eu sei, eu conheço os sinais. Problemas na digestão, inchaço abdominal...é, o figado pede socorro e eu peço mais uma garrafa. Meu sangue é muito grosso para tomar vinho nesta terra cabralesca tropical, citando Hunter Thompson. A cada taça meu corpo sua em bicas, desesperado pelo clima úmido/caliente destas terras que dizem serem abençoadas. Nascedouros de mosquitos e doenças, eu digo!

Meu físico é nababesco. É uma mistura horrenda de musculos errados e gordura inaceitavel. Se eu fosse uma pintura surreal de Dalí, seria um muso perfeito, todo desregrado, com ombros grandes e pernas inchadas, além de abdomem proeminente, pescoço fino, nariz grosso e cabelos ralos...uma bagunça surrealista, só que uma merda em termos práticos. Sou pesado demais, mesmo quando mais magro, minha estrutura ossea é muito pesada, suo em excesso, preciso sempre me refrigerar, mas não tenho odor ruim. Deve ser uma das unicas coisas boas que herdei deste meu podre sangue ítalolusitano. Ainda assim, dou minhas corridas, nadadas e até que não sou fraquinho.

Sempre leio quando estou só. É muito bom estar sozinho e em companhia de um livro. Não dispenso a boa musica também. Sou daqueles radicais que acha que a evolução do cenario musical congelou em 1979, e daí em diante foi uma queda vertiginosa. Nada muda este meu pensamento, e por isto fico com os classicos. Não gosto de ir ao cinema, há muitos filmes idiotas atualmente. Vou raramente à praia, pois não gosto de me ridicularizar, pondo meu torax grande demais à mostra. Não gosto de sol em excesso, também não gosto de muita chuva. Sou um entusiasta do inverno, como pode-se deduzir pelo texto. Voltando à cultura, adoro teatro, acho espontaneo demais para se tentar enganar o espectador. Tenho raiva de televisão, mas é uma ótima cura pra insonia. Adoro exercicios fisicos, talvez por ser fisicamente desproporcional, sei lá, só sei que gosto. Sou um investidor agressivo, e desejo grandes rendimentos. Gosto de carros antigos e novos, e tudo que envolve o mundo automobilistico. Sou um cozinheiro meia boca, mas acho cozinhar algo extremamente relaxante...desde que alguém lave a louça.

Já disse que não vou falar de mulheres! Já bati muito e já apanhei. Adoro banheiros limpos e bem cuidados, gosto de roupas casuais, sem muita frescura e confortaveis...mais uma vez, fisico desproporcional! Torço pro São Paulo F.C, graças a Deus, e escovo os dentes duas vezes por dia. Como algumas frutas, mas como vegetais por querer ter saúde, tão somente. Adoro carnes, de qualquer animal, mas me encantei pelo cordeiro. Odeio doces e massas, não me dou bem com açucares.

Pra concluir, acredito que levo jeito pra sociopata, pois odeio concentração de pessoas, o que me mantem afastado de shows em geral, jogos de futebol, shopping centers e boates apertadas. E também não entendo tanta gente fingindo ser feliz no mundo real e virtual. Acho um porre as pessoas, ainda mais aquelas que se autoproclamam poços de alegria forçada. Engodo! Somos todos criaturas miseraveis, com conforto demais e ideologias de menos. Sou isso aí, mais autentico, impossível. Viram, não falei de mulheres, apesar de adora-las. Mas tem umas que...só Deus salva.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Tua Descrição, Segundo Eu.

Texto Sublimado. O Autor se reserva ao direito de somente homenagear a quem merece.

atenciosamente,

Luciano.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ensaios Sobre o Arrebatador Amor De Uma Só Transa (parte2) - Revisitado

Sem muitas esperanças, Paul retorna a sua casa e tem planos imediatos de mudança em sua vida, seu momento é revolucionário, sua vida urge por novas experiências, novas razões para seguir em frente, mesmo que seja sem sua fiel companheira de muitos anos. A pressão para que pudesse dizer algo determinante para isso deixava-lhe suando em bicas, e sua mente estava borbulhante com as lembranças daquela tarde com Anna. As dúvidas persistiam: "E se esta moça me fizer sofrer? Da minha companheira tenho a fidelidade, o respeito, o carinho e o mais importante: os filhos. O que posso esperar desta moça?" Sua cabeça estava a mil, ele precisava reve-la, se certificar que aquilo não houvera sido somente um momento de fraqueza, ou somente uma arrebatadora transa.

Em seu carro, Paul rumina os pedaços de frases e palavras ditas por Anna, e tenta de alguma forma se esperançar de ter aquele amor correspondido. Seria uma tragédia ser negado por aquela beldade, num inverno tão rigoroso, num momento tão célebre, onde o coração clama por palavras que o façam transbordar a cada batida por minuto. -Maldita paixão, pensa ele, já está me tomando a alma! Já não consegue trabalhar, concatenar idéias, atitudes, Paul está dopado, sedado pela simples sensação de querer, ao mesmo tempo que sente tenso, suspenso numa intensa preocupação de ser negado. No Rádio daquele Lincoln Zephyr 1946 o locutor anuncia uma suave melodia de Charlie Parker, o Bird. Era tudo que Paul precisava, e ele rumou até a republica onde Anna morava, precisava ter certeza do quê houvera sido aquela tarde.

A temperatura estava congelante naquele inverno de Chigaco, -20°c com ventos cortantes e uivantes, mas Paul seguira em frente e bate à porta de Anna. Quem atende é seu noivo, surpreso por ver aquele homem tomado de neve em sua cabeça e corpo, ele clama por sua identidade:

- O que deseja, senhor?

Paul, sem saber quem era aquele rapaz, mas sagazmente imaginado quem o mesmo era, rebate:

- Nada, acho que bati na casa errada. Perdão!

- Sem problemas, Senhor!

Ele se demora a fechar a porta tempo o suficiente para que Paul aviste Anna ao fundo, lendo um livro, sem notar muito a movimentação na porta. Por fim, o rapaz fecha a porta e Paul lá continua, aguardando que a mesma lhe dirigisse um olhar que fosse. Ao menos ela precisava saber que ele estava ali, que ele queria ve-la, mas que a interrupção de seu noivo tivera sido providencial para que Paul voltasse para seu carro ainda mais cheio de duvidas sobre o que fazer. Era preciso por os pensamentos em ordem, redescobrir o Norte, e ser frio aos acontecimentos que viriam a seguir.

Ao voltar pra casa, Paul decide presentear sua esposa. Era uma compensação por ter sido tolo ao ponto de acreditar que uma moça tão jovem iria se enamorar por ele. Não foi possivel, sua esposa estava sofrendo mais um de seus surtos psicóticos e podia jurar que Paul estava acompanhado de outra mulher. Ele já estava acostumado com isso, só que desta vez ela poderia ter razão. Em pensamento, ele realmente estava. Usou de toda sua conversa para acalma-la, deu seus remédios, e a mesma voltou a si, aceitando seu pequeno mimo: um relógio de cômoda com caixa de música embutida. Ela ficara fascinada com o presente, e os dois decidiram jantar fora, deixando as crianças com os vizinhos. Aquele homem que começara sua epopéia extraconjugal pulando de bar em bar, indo a inferninhos de jazz durante a noite em busca de algo intangível, estava, de novo, rebuscando o amor de sua antiga paixão. Mas era tudo um xiste de sua imaginação, ele ainda tinha Anna em sua mente, e não havia nada que ele pudesse fazer.

Paul deixa sua esposa em casa e segue para o primeiro bar ainda aberto às 10 horas da noite. Era o Midnight Boom Boom, um jazz club frequentado por homens e mulheres negros. Naquele tempo, o norte dos E.U.A não era segregado, mas os negros procuravam manter suas origens em lugares próprios. Paul adentra mesmo assim, ele precisava de um jazz fervilhante, algo que lhe fizesse espantar alguns fantasmas de sua mente, e mesmo com o olhares atravessados dos frequentadores, ele pediu seu usual bourbon com gelo. Assim fora o restante da noite, e Paul bebia vada vez mais. Seus cabelos, antes bem penteados, já se desgrenhavam com o exagerado calor do local, e com o ritmo desenfreado daqueles jazistas no palco. É quando ele decide ir ao banheiro, e é abordado por três rapazes do bar.

- O senhor não percebeu que seu tipo não é bem vindo aqui? Diz um dos rapazes.

- Que tipo? Tipo melancólico? Sorri Paul no alto de sua ironia etilica.

- Gente branca não se mistura conosco, e nós não queremos nos misturar com eles.

- Paul contemporiza: Relaxa gente, somos todos iguais. Esta babaquice é coisa de sulista. Querem um cigarro...?

Paul não tem tempo de se defender, e os rapazes o agridem severamente, deixando-o desfalecido sobre o urinol. Seus olhos estão inchados, assim como seus lábios. Alguns dentes tiveram-se perdido e o sangue fluia de sua boca. Os empregados do bar, pressentindo a confusão que aquilo iria dar com as autoridades, jogam Paul no beco atrás da espelunca, e chamam uma ambulância anonimamente. No dia seguinte, Paul está de volta à sua casa, onde sua esposa chora copiosamente por ter dormido só naquela noite, e ainda mais por ver Paul daquela forma. Ele não diz nada e se arruma para ir ao trabalho. Não era momento de dizer nada, era somente hora de digerir a vergonha, suprimir a dignidade, deixar que seus trinta e tantos anos caiam sobre sua cabeça, e se alinhar com sua idade e maturidade. É hora de crescer.

Passaram-se semanas até que tudo se acalmasse na casa de Paul e ele estivera ainda mais concentrado na administração da mesma, dando mais atenção aos filhos, cuidando da manutenção do bem estar de todos da família, papel de qualquer homem numa relação. Anna ainda é um pensamento constante em sua mente, e ele sempre o conduz à dimuição de seu desejo, ao lembrar da cena do noivo na casa dela. Aquilo tivera sido preponderante para tentar esquece-la. No entanto, Paul precisa dizer algumas coisas a ela. Não seria justo deixa-la sem saber que a ama e que estivera lá aquele dia em que seu noivo o antendera. No dia em que se reviram, Anna contou que trabalhava num restaurante/café para sustentar seus estudos e Paul lembrou do nome do local. -Seria certo aparecer por lá, clamando por explicações, podendo prejudicar a moça em seu local de trabalho? Ponderou ele. Ainda assim ele foi, mas seria um cliente no local, e assim poderia, vez por outra, falar algo que pudesse ser importante a ela, com mais discrição.

Ao chegar no Bingo Restaurant and Cafe, Paul já avista Anna no balcão e lhe dá um aceno ainda na entrada. Anna o vê, e dá um sorriso discreto, mas se apressa em pegar sua comanda para lhe tirar o pedido. Paul observa o cardápio e logo chega Anna, dizendo sarcasticamente:

-Olá Senhor, o que deseja?

Paul não resiste, e perde a linha:

-Anna, vim aqui por você!

-Por que não me procurou antes? Já fazem meses que você não deu sinal de vida, diz Anna.

-Eu tentei, mas você sabe, sou casado, tenho filhos, estive com muita coisa na cabeça ultimamente...aquele dia foi demais pra mim.

-Eu compreendo, mas prefiro que você não me procure mais.

Paul muda seu semblante, e perde ainda mais a linha:

Ora, por que? O que te fiz?

-Não faça cena, eu trabalho aqui! Se quiser conversar, venha aqui às quatro da tarde. É minha hora de ir embora, e aí poderemos esclarecer algumas coisas.

Paul balançou positivamente a cabeça e pediu um café com um saduíche de atum, no que foi prontamente servido e dali se foi, aguardando ansiosamente pelo vespertino período para que pudesse expor sua face mais terna. Enfim, declarar-se.

continua...