quinta-feira, 13 de abril de 2017

Massa Covarde

Em muitos momentos da história, quando a população se deparava com um sistema político totalmente em ruínas, sem capacidade de recuperação ou renovação, ela aplicava a justiça capital. Muitos exemplos, como a Revolução Francesa, a queda de Mussolini, Muhamad Al Khadafi e tantos outros foram punidos por uma população cansada de ser solapada e enganada, tendo seus direitos destruídos por um Estado curruptocrata e inútil. Não quero aqui incentivar nada, mas incentivando, não ficaria nem um pouco triste se a população brasileira se revoltasse, como em 2012, mas desta vez com consequencias mais profundas. Se colocássemos algumas forcas em frente ao congresso, ao senado e no palácio do planalto e promovessemos alguns enforcamentos públicos, teria alguns desejos saciados, com certeza. Alguns nomes estão ai nos noticiários. E não me venham dizer que eles são meros suspeitos, pois tanto os executivos da escrota Oderbrecht, quanto os políticos envolvidos nestas propinas e apoios políticos são culpados e ponto final. Claramente seus nomes são citados,não à toa, com pseudônimos ridículos que beiram a ofensa à inteligência alheia. Proponho a revolta popular com pena capital pois claramente grande parte dos envolvidos se apoiam num sistema nojento de proteção a parlamentares e membros do executivo, que os tornam impermeáveis ao poder judiciário. Eduardo Cunha foi uma exceção. O momento da história do Brasil é irremediável e pela primeira vez vejo que simplesmente não há solução. Para mim, em 2018, um dos maiores simbolos de toda essa asquerosidade e candidato-mor a um dos enforcamentos, deverá se candidatar e possivelmente se tornar novamente presidente do país e tudo isso só será possível porque tudo que disse acima não passa de um devaneio. Tolice a minha crer que a população brasileira, tão viciada no afago constante do Estado, mas cega ao apunhalamento que o mesmo faz as suas costas, tomaria uma decisão que faria seu brio e denodo ser reconhecido nos livros de historia no futuro. Prefiro sonhar em ver pendurado pelo pescoço muitos destes animais saqueadores, pilhadores e inimigos do povo, do que crer que o brasileiro tem poder para mudar algo na política vigente. Deixemos para as nações que sabem reconhecer seus erros, democráticos ou não, porém que puseram seus nomes na história como símbolos ímpares da revolução, da mudança.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Factóide Erótico

Por quê somos amaldiçoados com o fantasma da timidez?

Lana estudava artes cênicas, de dia, e de noite trabalhava como cortesã, num inferninho qualquer desta cidade vasta e despida de vida. Mal sabia eu que um dia minha alma seria destruída pela sua figura imaculada e tórrida...

Eram seis horas da tarde, e eu estava voltando para a minha imatura solidão quando encontro Geneci. Aquele merda...me devia uns dois mil reais por um empréstimo que sabia que seria a fundo perdido. Mas a solidão custava caro, e um mero empréstimo não iria pagar o auspício de ir para casa sem ao menos tomar um trago com uma alma conhecida. Convidei aquele filho da puta para irmos ao boteco mais próximo, tomar um limão com cana e algumas cervejas. Fazia cu doce, o caloteiro, mas quando disse que eu pagaria topou no ato. Quantas merdas fazemos só para não enfrentarmos a solidão, não? Olhando para este cara, 1,75 metros e 100 kgs de puro esterco empilhado, de careca brilhante em forma de ferradura, sovaqueira crônica, olhos vidrados e com veias vermelhas e bigode cheio de nicotina de cigarros de outrora, sinto um desejo imenso de mata-lo. Pensei comigo mesmo: "por quê simplesmente não levanto desta mesa, e cravo uma faca em seu olho esquerdo. Nada me impediria." Mas a razão é mais forte, e mais uma enxurrada de ladainhas continuam a sair daquela boca de vala enquanto mal seguro um rosto de pouco interesse.

Lá pelas 11 da noite despeço-me de Geneci e uma ideia constante me bate no ziper da calça, e não é vontade de urinar. Sofro de timidez crônica, e toda a vez que presencio a aparição de uma bela mulher, eu travo como a estar diante de um monstro a me devorar. Gaguejo, tremo, olho para o lado....qualquer subterfúgio é saída para aquela situação. Quase sempre abrevio a conversa, inventando um compromisso mentiroso, de forma a me afastar daquilo. Evito sempre olhar, encarar, tenho pensamentos suicidas para me punir, que duram tanto quanto um piscar de olhos. Miro nelas, e vejo seus lábios se mexendo, respiro profundamente para sentir seus odores e me calo diante da mítica beleza feminina. Por isso vivo só, e evito qualquer contato com mulher alguma. Infelizmente, o desejo fala mais alto e dirigindo pela cidade, olho pela janela do carro a cada semaforo e encaro com o canto dos olhos alguma femea da especie a desfilar pelas calçadas. Normalmente me contento somente em olhar, e vou pra casa me satisfazer sozinho.

Entretanto, algo naquela noite me arrastou. Não sei se foi o neon vermelho e azul ou o aspecto secreto da porta, mas encostei e fui até aquele pulgueiro. Na entrada, sentado a minha frente, um homem negro, 2,10 metros, e cara de quem não come há uma semana, me encarou e me deu boas vindas, com um sorriso de escárnio. Senti que essa rara e quente recepção era a premissa de que sairia de lá duro e fodido. Nunca fui bem-vindo a lugar algum, nem na casa de parentes. Não só não vou foder ninguém, como vou me foder ao entrar. Às vezes me pergunto o porquê de um bovino entrar passivamente no matadouro. Será que o animal não tem nem a minima ideia que vai se dar mal, ao percorrer aqueles corredores mórbidos e asquerosos? Será que não sente o cheiro dos seus mortos? Matadouros fedem a morte velha, um putrido odor ferroso de sangue velho com carcaças apodrecidas. O bovino e o humano não são tão diferentes assim, pois afinal de contas, senti-me como um deles ao percorrer aquele corredor longo e acarpetado, com cheiro de mofo. Fui adiante. Afinal, somos mamiferos e isso já é parentesco o suficiente.

Ao adentrar o salão principal, uma música me invadiu os ouvidos, era o atual caipira show business, com aquelas duplas que capricham nos gritos, como se ainda trabalhassem na lavoura. Caipiras filhos de uma puta, agora inundam os ouvidos metropolitanos com suas notas e suas calças agarradas....enfim, sentei numa mesinha apertada, de canto, o canto mais escuro, e esperei o garçom mais próximo. Ele me olhou na cara, à distância, e de forma sarcástica já foi me avisando que não aceitam cartão de crédito e nem vale-refeição. Desgraçado trabalha como garçom de zona e ainda quer me tirar de pobre, por isso pedi ao imbecil que me servisse algo que porra de casa noturna nenhuma tem: um brandy, só pra mostrar pra este merda que eu tenho estilo.Disse ainda com sotaque britânico, para tornar a coisa ainda mais depreciativa.

"Olha moço, não sei se tem, vou checar no bar. Percebi que o Sr sabe o que é bom, por isso vou te dar uma dica: tem uma menina que trabalha aqui que é uma loucura. Se chama Lana. Se quiser, posso traze-la aqui na sua mesa"

Olhei fixamente em seus olhos negros e em pensamento mandei-o tomar no cu. No entanto, como sou eu, como eu sou...disse que tudo bem.

"Moço, não tem breidi não. O sr vai ter que pedir outra coisa, quer o cardápio?"

Deixei ele por aquela merda na mesa e fui pelo caminho mais fácil: "Me dá um Whisky. Mas importado, falou?" Mentira, só pedi o whisky. Sabia que era batizado, mesmo eu pedindo importado, iria tomar mijo mesmo. Tomei umas duas doses, depois pedi uma cerveja. Daquele ponto em diante, o sertanejo já era passado, e eles estavam colocando algo como funk carioca. Neste momento, ocorre um anúncio:

"Senhores, com vocês, direto dos bailes, a sensação da casa, Srta Lana di Capri, a musa varonil, direto dos pampas gaúchos, com sua dança dos bondes cariocas!"

O local entrou num fervor unico. Engravatados, porteiros, office-boys e motoboys entram numa sincope de gritos, assobios e urros, enquanto a fumaça falsa inunda o palco central. Cinico, pensei num Moulin Rouge decadente, de prostituas fétidas e sifilíticas, em algum ponto da história, sendo repetido aqui.Qual puta caquética haverá de surgir dali.Vislumbrei a entrada dela, vibrante e notoria. Não pude crer no que meus olhos viam. Era Michelangelo, Da Vinci e Botero. Curvas do caralho, cabelos loucos, longos e claros, olhos desenhados, olhos de um verde musgo vibrante e os lábios eram delicados, mas ainda ávidos, protuberantes. Entrei em curto circuito, enquanto ela dançava freneticamente ao som daquele abominável ritmo, que só serve de lubrificante para atos sexuais. Não é que o viado estava certo? Que mulher...

Meu instinto patriarcal pensou em protege-la, salva-la e lhe dar abrigo. Já o instinto sexual pedia para que eu a possuisse, que lhe tomasse as carnes, lhe sorvesse seus fluidos, lhe penetrasse incessantemente e me afogasse em seus seios. Meu instinto de sobrevivencia olhava para a carteira e se assentava na dura realidade de um trabalhador. Sempre fiz isso, sempre achei que era um reles merda, e que não merecia mulher alguma. Mas ela...ela me dava uma sensação de paz, de fluidez moral e de que o mundo produz coisas boas. O coração acelerou e entrei numa ansiedade sudorenta. Chamei o merda do garçom.

"Oh amizade, essa é a tal Lana? Quanto morre ali, em reais?"

"Não sei, tem caras aqui que dariam o rabo por uma noite com ela, mas pra você não deve sair por menos de mil"

Instintos a parte, mil reais é dinheiro pra caralho. Nada comparado aos dois mil que aquele bosta do Geneci me filou, mas ainda é bastante dinheiro. E se ela me engrupir? E se for tudo uma armação desta casa pra tirar  mais dinheiro de otários miseráveis como eu? Fiquei pensando se iria travar com ela, ou melhor, brochar mesmo. Instintos a parte, olhei calado pra cara daquele cafetão servente de chopp e pedi que a trouxesse após o show. Certamente este dejeto iria extorquir a moça pela indicação, mas ela que se vire com ele.

Meia hora depois de rebolados, musica ruim e muitos gritos masculinos e ela veio, sentou-se em minha mesa, cruzou as pernas e ficou me olhando. Após alguns desconfortáveis segundos, ela quebra o gelo e me pergunta se queria ve-la. Eu fui tácito, firmei a fala, pigarreei e disse:

"Quer alguma coisa? Cerveja?"

"Eu que te pergunto, ele me disse que você estava interessado. Não bebo, e estou aqui pra gente discutir o programa, meu amor" disse ela.

Aquilo foi um chute no peito. Perdi o ar, e comecei a olhar pro lado, uma característica de quando sei que vou travar, gaguejar e colocar meu rabo entre as pernas. Pedi a ela que me desse os detalhes do programa, valores etc. Assim saberia que ela iria falar bastante, me deixando respirar um pouco.

"Então, aqui em cima tem uns quartos, o periodo é de 45 minutos, mil reais, camisinha sempre, luz fraca e celular desligado. Se eu ver você tirando fotos ou filmando chamo o negão lá embaixo pra te dar um jeito. Você vai gostar, meu amor"

Naquele momento, todo aquele frisson se transformou em desprezo. Eu desprezava aquela mulher, sua fala ríspida, o ato de me chamar de "meu amor". Tudo me enojava, mas eu estava com muito tesão, e concordei com o proposto por ela, desde que pudéssemos ir a um motel. Ela discordou totalmente, e disse que isto estava fora de questão, uma vez que ela não deixaria a proteção da casa. Eu me calei, mas ela surpreendentemente acabou concordando, dizendo me considerar inofensivo.Aquilo foi duro, mas concordei, naturalmente. Ela me disse para que esperasse ela, as duas da manhã, na esquina, que ela viria até mim. Concordei e paguei a conta, indo direto para o meu carro, encostando na esquina mais próxima. Faltavam somente uns 40 minutos pras duas, e fiquei pensando naquele "inofensivo". O que ela quis dizer com aquilo? Seria um deboche, uma forma de me diminuir? Estaria ela rindo da minha timidez? Eu devia tratar esta merda, só me causa inconvenientes. Me disseram que os médicos tem uma droga nova...sei lá. Minhas mãos suavam, a hora não passava.

Eis que pela esquina, ouço o cloc cloc de saltos andando em velocidade. Abro os vidros, e a chamo. Ela me vê e entra no carro, já mal-humorada.

"Nem sei porque concordei com isso. Acho que não quero voltar pra casa, sei lá. Aonde vamos?"

"Não sei, acho que tem um motel a algumas quadras"

"Olha só, meu amor, eu cobro antecipadamente. Se você não tiver o dinheiro, me deixa ali naquele ponto, porque não confio em homem."

"Sei, mil reais né?"

"Não, mil reais é o preço da casa. Eles ficam com 70%. Eu cobro 300. Mas são adiantados".

"Tudo bem, eu tenho aqui na carteira".

Paguei, ela embolsou o dinheiro, e eu, liso, me dirigi ao motel. Entramos e ela disse que precisava de um banho. Meu coração não parava, uma mulher daquelas, num quarto de motel comigo, como faço? Tasco-lhe um beijo? Ela é grossa, talvez vá me tratar mal, não sei se posso lidar com essa rejeição. Ela fica me chamando de "meu amor"já estou de saco cheio disso, me sinto um idiota. E ainda paguei para isso! O banho é longo, e eis que surge aquele monumento, nua em pelo, com os cabelos semi-umidos, longe daquele semblante de dançarina hiper maquiada, ela estava ao natural, no auge da sua origem européia, pedigree dessa gente do sul. Ela me pediu que me despisse, e fosse tomar um banho. Eu fui, mas vestido.

Alguns minutos depois saio do banho e lá está ela, deitada de lado, passando os dedinhos pelo seu smartphone de ultima geração, bocejando solenemente, entediada e louca pra que aquilo acabasse logo. Deitei ao seu lado, tirei a toalha rapidamente e num rompante, respirei fundo, passando as mãos levemente em seus seios. Ela gemeu. Veja só, a puta de concreto sente algo! Ela veio para cima e me abocanhou o orgão, mas não sei porque, não tinha reação. Aonde estava meu tesão? O que ocorre? Quanto mais eu me questiono, mais meu coração dispara, mais eu me retraio e mais eu não esboço reação. Surpresa, ela quer saber o porquê daquilo, e eu simplesmente não sei explicar.

"O que foi, não tá gostando?"

"Não sei, hoje foi um dia duro, e ainda tomei todos aqueles drinks...sabe como é?"

"Não, não sei. Olha, meu amor, o tempo tá correndo, se não quiser é só falar, ponho minha roupa e você me deixa num ponto de taxi qualquer."

Me senti despedaçado, humilhado, rebaixado e fiquei calado, inerte, deitado olhando para o teto de espelhos. Observava com o canto dos olhos ela já se movimentando para por a roupa, murmurando pequenos insultos em gauchês. Olhei para o meu cinto, pendurado na cadeira e enquanto ela continuava a insultar, falou:

"To pronta, meu amor. Deste mato não sai coelho, e eu tenho que ir. Uma pena que você já pagou, porque não aceito devoluções", e riu solenemente.

Ao ve-la virar de costas, vim por trás e passei meu cinto ao redor de sua garganta. Ela deu um grito abafado. Levantei-a do chão, fechei a fivela, e apertei mais. Aquele ultimo "meu amor" me descontrolou. Com sua garganta apertada por aquela tira de couro, seus gritos eram silenciosos. Ela se debateu bastante, me arranhou os braços e tentou chutar meu saco. Foi em vão. Ouvi o estalo da traqueia, quando ela desfaleceu no chão, seu rosto antes alvo e imaculado, agora era roxo e com veias saltadas. Seus olhos estavam vidrados, meio abertos, e aparentemente ela houvera se urinado toda. Sua lingua estava saltada da boca. Aos poucos minha respiração foi ficando mais lenta e percebi o que fiz. Senti um misto de realização e raiva do que estava por vir. Sabia que iria me foder novamente.

Ao me vestir, tirei o cinto do seu pescoço e deixei-a sobre a cama, em posição digna, cobrindo-a com um cobertor. Paguei o motel, disse ao caixa que ela sairia depois e me mandei dali. Balela, olhei para o banco do passageiro e a vi, calada, pensativa e apontando para onde queria que a deixasse. Eu não a matei, minha timidez não deixou. A fantasia de te-la matado me fez sentir mais homem, mais seguro do que aquela brochada queria me fazer crer. Ao deixa-la no ponto de taxi, ela me disse que não faria aquilo pra sempre, que era estudante de artes cênicas e que sonhava em atuar. Por um momento eu a perdoei por ser tão estúpida e percebi que aquele belo rosto era só um semblante repleto de sonhos, que procurou o mais fácil para buscar o mais difícil. Por um momento, somente por um momento, eu admirei-a, e fui empático à sua luta.

"Tchau, meu amor. A gente se vê", ela disse.

Será que o Geneci vai estar ocupado amanhã?




terça-feira, 22 de março de 2016

O Brasil e A Síndrome de Travis Bickle

Travis Bickle, magistralmente interpretado por Robert de Niro no filme "Taxi Driver", de 1976, dirigido por Martin Scorcese, é o clássico inconformado. Quem viu o filme (para mim, a maior obra de arte que o cinema já produziu), pode muito bem assimilar a faceta moralista, mas falsa heroica, de Travis, que nos remete ao nosso lado mais profundo e insano: nosso lado justiceiro.

Profundo e insano porque clamamos ao justiceiro quando a justiça nos falta. Queremos resolver com as próprias mãos quando as autoridades nos falham proteger. Justificamos os meios com atos heroicos, esquecendo nossas próprias falhas e refletindo-as no próximo, sentindo-nos absolvidos. Travis sofria deste mal. Como ex-fuzileiro naval americano, locado no Vietnã, Travis volta com sérios problemas psicológicos, submergindo numa maré de ódio e amor pela sociedade, buscando meios de evitar enfrentar os males da sociedade moderna, com o cinismo latente que enfrentamos normalmente. Não, para Travis nada passava em branco. Desde um cafetão de adolescentes monstruoso, a um político clichê, fanfarrão e populista, nada era cinicamente ignorado por sua espada de justiça própria.

Seus conceitos tortos de retidão moral o afligiam, e de certa forma, coordenavam seus atos impensados. Não saberia dizer ao certo em qual ponto do filme ele perde os sentidos do certo e errado, mas creio que ao comprar armas ilegais, de calibre absurdo, o mesmo assina seu tratado de loucura. Ao assistir Taxi Driver pela "nonagésima" vez, me vejo fazendo um paralelo estranho. Estaria o brasileiro moderno encarnando seu Travis Bickle moral?

Desde a disseminação de programas policiais, apresentados pelos mesmos arautos da moralidade de sempre, até os políticos que clamam às famílias como salvação da perdição humana, passando pelos evangélicos bitolados que proferem sempre as mesmas palavras de ordem, o cenário brasileiro é caótico e faminto por autoritarismo. Creio que o descaso governamental com as questões sociais mais latentes do país nestes ultimos quarenta anos criou uma infestação de banditismo crônico na sociedade. Vivemos tempos complicados, dignos de guerra civil, com mortes decorrentes da violência em crimes cada dia mais graves, violência policial, doméstica etc... . Pessoas inocentes morrem diariamente de forma cruel, crianças são violentadas e mortas, pessoas surtam no trânsito, mulheres sofrem estupros e violência sexual...o país é um poço de estatísticas repletas de sangue.

Não bastasse a violência, estamos cercados de imoralidade. A babilônia brasileira tem safadeza para todos os gostos. Somos sexualmente criteriosos, os brasileiros, mas adoramos expor sensualidade nos meios de comunicação populares, nas expressões artisticas e nas esquinas da vida. O brasileiro é um ávido consumidor do tesão in the box, até como um meio de se livrar de suas amarras cristãs, fruto do paradigma católico latino americano, repleto de hipocrisias de castidade falsa. Há mais imoralidade nas relações institucionais, politicas ou não, com uma corruptocracia da qual o pais não consegue se livrar. Nada mais natural, num país onde o jeitinho sempre foi a forma inerente do brasileiro agir nas situações de maior dificuldade. Conhecimento e educação nunca foram a forma propagada de crescimento desta sociedade. Gerson sempre venceu, e ainda vencerá por muito tempo.

Por fim, num cenário carnavalesco como este, temos a justiça brasileira, que vive assoberbada de processos, com leis estapafúrdias, dúbias, que tornam qualquer questão jurídica uma caminhada tortuosa, com ações, e mais ações, impugnações, instrumentos legais diversos, perfeitos para que um contraventor e criminoso consigam se livrar da punição, se tiver um bom advogado.

O momento atual da nação é delicado. Palavras de ordem são cantadas, e vejo o brasileiro comum querendo a cabeça de alguém, só não sabe de quem, para saciar suas falhas mais tangíveis. A sindrome de Travis Bickle assombra esta maioria esmagadora do país, que deseja sangue de políticos, de bandidos, do padeiro da esquina que vende pão caro, da agencia de turismo que aumentou as passagens, do babaca que nos fechou no transito ou do motoboy que nos deu o dedo médio. Quem viu o filme, sabe como isto termina. O justiceiro quase sempre comete a injustiça. A paz de sua mente é dispor dos conceitos de justiça para benefício próprio, no que ele entende ser de todos. Queremos tudo, neste momento. Não sabemos bem o quê. É impeachment, prisões, delações, mortes etc...estamos cegos de ódio.

Não sejamos Travis. Sabemos que a justiça será rápida para os atuais anseios da nação, especialmente os políticos. Não é possível pedir justiça sem antes olharmos para nós mesmos, e percebemos que eles são um reflexo nosso. Somos errados em essência, somos parte de um país de pessoas pobres, parcamente educadas, que vivem para o dia seguinte, tão somente. O justicialismo só deflagra o ódio, e dele vemos que a humanidade está repleta. No fim, todos querem ver Travis Bickle como um herói, um homem comum, que ousou se impor, como ele mesmo disse. Não se esqueçam que , no filme, ele também diz: "Todos os animais saem a noite: prostituas, vadias, viados, transsexuais, drogados, alcoólatras, cafetões,traficantes. Um dia virá uma chuva, e varrerá toda esta escória do mundo!". Intolerância e delírios de limpeza social...pensemos bem antes de deflagrarmos o Travis Bickle interno. Pensem que antes de qualquer julgamento, resta o nosso próprio. Sociopatia não é querer o bem do país. É doença, e toda a sociedade brasileira está doente.




sexta-feira, 4 de março de 2016

Corta Pra Esquerda, Corta Pra Direita e....

Espanta-me a evolução da extrema direita pelo mundo afora. Por que tal movimento político tem tido tanta influencia no imaginário popular de tantas nações mundiais? Muita coisa explica tal fato, mas a razão principal é o fracasso da esquerda, como um todo, no mundo.

No início dos anos 2000, vivemos uma onda esquerdista que varreu o mundo, com novas idéias trabalhistas, um preocupação profunda com o social e com a acensão das ondas imigratórias, um posicionamento mais político para esta agenda tão complicada, alocando tais imigrantes e inserindo-os num cenário menos marginal. A coisa toda se iniciou na Europa, na França especialmente, Espanha, Inglaterra, Portugal...enfim, os partidos socialistas acenderam ao poder com grande sucesso neste período. Na época, a Europa passava por uma crise de desemprego profundo, com as instituições desacreditadas e o continente inteiro passando por uma reflexão profunda nas relações de trabalho, adequando-se horas de serviço e reduzindo salários, para a alocação do máximo de empregados possíveis.  Em termos gerais, tais políticas de readequação trabalhista foi muito bem sucedida, e isso combinado a uma seguridade social forte, fez com que o continente tivesse índices de crescimento muito bons no período.

Mas a contrapartida foi a explosão das previdências sociais dos países. O implemento do welfare system, e suas benesses alargadas à uma população mais envelhecida, que não se renova com tanta velocidade, logo é pouco economicamente ativa, levou os Estados a uma gastança com pouca arrecadação, consequentemente à beira do caos econômico.

Nesta segunda decada do século, a coisa mudou 180°, com uma nova ameaça à estabilidade européia: a imigração incontrolável. Com os conflitos no Oriente Médio, a Europa se viu assolada por milhões de imigrantes advindos das mais diversas regiões da Asia menor e do norte da África, nas ex colonias. Qual foi a resposta da população da CE? A adoção da retorica fascista, que busca retomar o nacionalismo nos países que temem a perda da identidade, e pior, da segurança nacional com a crescente ameaça terrorista do ISIS. No fim, a Europa, berço da esquerda moderna, se volta para a direita, com seu discurso protecionista, entrando numa espiral que pode ter consequencias catastróficas, aumentando o medo da população, incentivando a ascensão de pensamentos perigosos.

Na América Latina a esquerda agoniza por outras razões. Nós não temos delirios xenofóbicos como nossos primos distantes da Europa, pois não somos, por assim dizer, uma rota imigratoria de países em guerra. O calcanhar de Aquiles da nossa esquerda foi o flerte com a longevidade no poder, o egocentrismo e a ganância dos nossos representantes, desde a Venezuela, que tentou criar uma nova Cuba, até a Argentina, onde a presidente de tão desastrosa recebeu uma carinhosa alcunha de sobrenome denominada Kirchnerismo. No Brasil, a esquerda tombou pela corrupção, pela prevaricação e pela promiscuidade com empresas privadas, loucas para prover favores aos gestores governamentais em troca de ganhos em ilícitas licitações, especialmente para construção, por meio das empreiteiras. Antes disso, o sagaz ex presidente Lula já havia se envolvido num absurdo escandalo de corrupção o qual jamais conseguiram provar sua  ativa participação: o Mensalão.

Todas estas manobras dentro do continente partiam do pressuposto da total cegueira popular diante da catastofre economica que nos esperava, mediante a troca de benefícios populares, com programas sociais de largo espectro, beneficiando milhões de familias com maciças ajudas governamentais. Assim como na Europa, o welfare system sulamericano não se sustentou e ruiu, relegando à esquerda mais uma prova de seu fracasso frente a gestão economica de seus países.

A contrapartida foi a insurgência de governos de direita, como o de Mauricio Macri, na Argentina, resultante da larga insatisfação popular da esquerda claudicante. No Brasil surgem vozes de ultra direita, uber nacionalistas como Jair Bolsonaro, que prega um discurso falso moralista homofóbico, radical e perigosíssimo num país como o nosso, onde o índice educacional é pífio, beirando o inexistente. A que ponto a esquerda conseguiu ser incompetente, preocupada em criar uma "quimera" socialista, sem se preocupar com questões mais urgentes, como a inflação galopante. Não cuidaram da infraestrutura do país, já sucateada pelo partido antecessor, com parque energético falido, educação e saúde ainda em estado lastimável. Não mudaram o discurso do partido anterior, pior, aumentaram os defeitos dos mesmos, prevaricando na Petrobrás, levando à beira da falência a maior e mais importante empresa do país. Capitalizaram em cima de financiamentos absurdos de campanha, com troca de favores e lobbies nojentos, que culminaram com o maior escândalo de corrupção já visto no Brasil.

No restante do mundo, o perigo se intensifica. Donald Trump, magnata americano, está chegando forte nas primárias do partido Republicano por meio de um discurso de ódio, preconceito e homofobia. Logo os EUA, que demonstraram nas urnas a intenção de mudar o rumo de sua política, após um desastroso governo Bush Filho, ao eleger um democrata claramente socialista, Barack Obama, se trai novamente e aventa a possibilidade de eleger um homem repulsivo, de discurso perigoso.

Dos designios da esquerda ao falastrismo da direita, a politica como um todo clama por uma terceira via. Parece papo antigo, coisa de sonhador, mas não é. O bom senso deveria caminhar junto da politica e com um historico de tantas guerras, conflitos e falta de vergonha na condução desta vã ciencia, já éramos para ter aprendido que a polarização de idéias somente nos trouxeram tragédias, cerceando discussões e atrasando o desenvolvimento humano em décadas. Direita ou esquerda, tente fugir do radical. Prefira a moderação!


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Revolución, Camarada!

Gosto de revoluções, mudanças extremas, quebra de paradigmas. Por 12 anos, o país colocou fé numa suposta revolução encabeçada por um lider trabalhista supostamente ilibado, com trejeitos e maneirismos populares. Era o sonho das classes menos abastadas do país assoladas pelos frequentes governos das, e para as oligarquias, que marginalizavam qualquer movimento que sequer tocasse a questão social como cerne de uma gestão. Doze anos depois, o que mudou? Qual foi a revolução? Houve sequer uma tentativa de implantação de um socialismo, na acepção da palavra? Tudo que vejo são denúncias e mais denúncias. Investigações profundas, resultados nefastos de 12 anos em que todos se abstraíram da verdade e se traíram também, por meio de uma vã tentativa governamental de aumentar o poder de compra das classes C e D, expandindo crédito, sem que houvesse lastro econômico e educação suficiente da população para te-lo. A manutenção deste longo período de unipartidarismo, no executivo federal, deixou marcas. Ainda que haja alguns poucos tolos falando em golpe - aliás, este conceito é tão fora de contexto, visto que o golpe surge das diferenças ideológicas entre os supostos golpistas e a situação. O PSDB e o PT são farinha do mesmo saco!! - ou seja, golpe só se for pra inglês ver. O que o Brasil precisa não é dos esquerdas radicais cegos e nem dos coxinhas que adoram comprar na Flórida, batendo suas panelas como imbecis em suas varandas, no alto seus apartamentos inflacionados pela especulação imobiliária absurda, decorrente do...crédito petista!! Sim, você bate panela contra o PT, mas seu imóvel milionário vale o que vale hoje por conta de um erro crasso dos pensadores econômicos nomeados pelo partido. Ou seja, ironicamente, a sua riqueza patrimonial advém das cagadas petistas. O Brasil precisa, sim, de um choque de gestão. E isso vai muito além dos anseios da classe média que quer viajar, ou dos revolucionários de boutique, em seus centros acadêmicos de universidades.Significa romper com o sistema atual de governança, enxugar o legislativo, diminuir as benesses ao funcionalismo público, investigar prefeituras profundamente, assim como suas câmaras legislativas. Enxugar a máquina, como um todo. Momentos como este exigem gestões apolíticas, voltadas para um objetivo único: a recuperação do moral popular, da confiança no país, nas instituições e em seus gestores. Acabou, o Brasil que conhecemos morreu e teve que morrer! A corrupção e a Lei de Gerson precisam ser apagadas da psique desta nação. Aliás, o brasileiro se questiona se ele é ou não um povo. Ou se é só um bando de seres humanos, em tese, com educação e cultura em declínio, quase que esperando avidamente pelo próximo salvador da patria, que nunca virá. A unica revolução que vi, até hoje, em 35 anos de vida, neste país, esta sendo feita pela Policia Federal, em suas operações com nomes irônicos, frutos de uma geração de agentes que agem mais, e falam menos. Pode-se até questionar as prisões, as fases de investigação e suas condutas. Mas não se pode negar que a suposta revolução de 12 anos atrás não passou de papo de pastor de igreja evangélica. Era só mais do mesmo, já eles só queriam o que todos os outros canalhas da republica sempre quiseram: extirpar o país, locupletar-se do ganho patrimonial irrestrito e flertar com o ditatorialismo nojento. Nada mudou. Viva la revolución, PF!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Sobre o Carnaval e a Humanidade


No bloco da saudade já desfilei, cantando versinhos, balançando os braços e,  olhando meu suor farto, declinei da festa. Pensei na humanidade.

Dos foliões de edredon, ao pândegos das ruas, o que nos resta para filosofar nesta festa tão sui generis, tão cheia de exotismo, contudo questionada? A alegria tênue, que permeia entre o descontrole da dança e o embarque dolorido em um mundo alcoólico faz com que pensemos na necessidade humana unica de curtir até o mais espremido espaço, dentre tantos, ocupados por pessoas, igualmente alegres, que exacerbam o limite do corpo, colocando sobre seus ombros adornos e fantasias abrasivos, pesados, duros, só pelo momento, pelo escarnio, deboche, sensualidade e mídia.

O Carma intenso das dores quase nos remetem a meditação plena, onde o transe, neste caso, advém das batidas intensas  dos tambores e bumbos, que marcam os ritmos e fazem o sangue destes foliões ebulirem em ato continuo, até que suas forças se esvaziem num corpo fétido, caído, ébrio e escaldado do calor intenso desta parte do trópico. Que engraçado perceber o quanto queremos estar próximos uns dos outros neste momento.

A humanidade é tão fria. Olhamos ao nosso lado e interações não mais existem. Olhares são mal interpretados, abraços são vistos com grande reserva, especialmente se vindos do mesmo sexo. O toque humano nos falta, e se ocorrem, vem acompanhados de grande relutância. A solidão escalda a sociedade moderna, assim como o sol do meio dia escalda aqueles foliões suados em um bloco qualquer. E a alegria? É fabricada? Será que não agimos fora da curva porque já vivemos em reclusão atualmente? É como se tivéssemos que explodir a cada feriado, a cada lapso de tempo que passamos longe de nossas entediantes mesas de trabalho.

O carnaval não é tudo isso, não. E nunca foi. Hoje, então, nem se fala, pois dos costumes de outrora, da curtição tranquila e dos bailes infinitos dos clubes sociais só nos restam as migalhas. O feriado virou business, para os artistas celebrados e para os não tão celebrados assim. Um midiático show de mulheres testosterógenas, homens estranhos, patrocinadores de eventos e trios elétricos repletos de babaquices para quem deseja ser privado de seus sentidos. Para os meros mortais virou uma desculpa para bebedeiras, comilanças, liberação de agressividade, demonstração de desrespeito e muita, mas muita desilusão. Sim, desilusão! O carnaval é o opiáceo do folião e o cativa pela promessa de um período de intensas experiências, mas o destrói como resultado delas. O resultado são picos de alegria e fossas abissais de depressão, numa montanha russa de experiencias profundas que somente atiçam o que há de pior na humanidade de hoje: o imediatismo das sensações.

Eu olho para o carnaval com olhos de saudade, porém críticos. É uma visão de sintomas graves, como a ver um drogado dizer que está bem, que está sóbrio. Uma miríade de coisas passam pela mente, ao ver o carnaval pelo Brasil, na tela da tevê, como diz o bordão. Muitas delas, são de pura indiferença, de desapego por um período festivo que tanto foi uma expressão das camadas mais esquecidas da sociedade, e que hoje é um showcase para ricos e milionários exporem seus abdomens negativos, ou seus fantasiosos dedos ao ar, a marcar os ritmos rompantes. Era uma festa do povo, hoje é um espelho da decadência humana, e do elitismo prosaico, ordinário, marcado por gente que jamais viveu o carnaval em sua essência, somente suga, sorve a mesma.

...é que o folião nunca tem razão, ele apenas aproveita a ocasião...

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Virtude Virtual

  Há quem diga que a humildade é a maior das virtudes humanas, e que aquele que a cultiva coleciona as benesses de uma vida plena e livre de ódios e rancores, contra si ou outrem. A virtude de se aceitar a perda é o que faz com que pensemos no quão vão é conviver com um materialismo cronico. 

  A virtude de saber perder não reside em somente reconhecer a glória do vencedor. Muitas vezes, você perde para si mesmo, para sua arrogância, autoconfiança exagerada. A virtude real é saber quando exatamente você já perdeu, e não reconhecer após a derrota acachapante. Virtuoso ou defeituoso, eu perdi.

  De fato, não me sinto virtuoso. O que fazer além de entoar a derrota, tilintando copos e copos de bebida, e buscar uma forma de vencer novamente? A vida não é uma competição, eu não compito com nada neste mundo. Todavia medimos a vitória pelo vão capital, pela acumulação dele, pelos nossos sorrisos hostis e debochados após cada milhar em nossas contas rotas. Virtude de fingir humildade, mas na verdade dizer para si mesmo: "ainda bem que venci!", como num alívio escroto perante um mundo repleto de defeitos e cisões por conta de pessoas que competem.

 É uma guerra silenciosa, onde cada virtuoso potencial busca seu espaço estreito numa baia d´agua quase árida, como um equino a arfar litros após uma longa cavalgada. Onde fica a humildade quando somos esmagados pela sociedade de consumo e suas artimanhas para nos expor como criaturas inadequadas e impulsivas? Olhar para o lado e pedir passagem não é uma opção.

  No transito somos como hordas de animais irracionais cruzando vias com nosso ego disfarçado de toneladas de aço, buzinando, empurrando, gritando e...competindo pela melhor oportunidade de fazer o mesmo em menos tempo. Vejo mais ordem numa manada de búfalos a romper as savanas africanas. A humildade se esvai na vã ideia que somos bons quando despidos da nossa proteção material, e não somos. Somos maus, irritados, canalhas, justamente porque pensamos que o nosso semelhante quer nos vencer, nos derrotar a cada sinal verde. 

  Nos sentimos derrotados quando o saldo está negativo, e quando gastamos mais do que ganhamos. Aí compensamos com mais gastos, pois a cultura da tristeza pelo não consumo nos atinge como um homem de barriga cheia num banquete real. Com a virtuosidade do presente, do material como forma de compensar, nos tornamos defeituosos sem perceber, entoando em nossas mentes um mantra repetitivo: trabalho mais, ganho mais, compro mais, satisfaço mais, desiludo mais, trabalho mais...e assim em diante para no fim perceber que somente dedicamos horas ao trabalho para que a recompensa seja maior, de forma que a usemos para indulgencia pessoal, para logo após voltar ao trabalho competitivo e estafante, de forma a maximizar cada vez mais pequenos e curtos momentos de prazer meramente ilusório. 

  Me sinto derrotado por não ter seguido os planos traçados ainda na juventude. Engraçado ver como planejamos e criamos situações para que nada mude, mas que dentro de nós incendiamos um desejo mordaz de mudança. Somos contradições virtuosas. De manhã acordamos pensando em mudar nossas vidas, de noite vamos pra cama com o desejo que nada mude, e que nosso aconchego financeiro/emocional se mantenha. Mas minha derrota é mais que isso. Perdi porque me faltam virtudes morais e humanas. Nossa sociedade moderna é derrotada mesmo quando ela se sente vitoriosa.

  A virtude da beleza é a mais destruidora. Defeito em querer parecer belo sob todos os aspectos, da vaidade desenfreada à esdruxula auto desvalorização para que possa buscar ser mais belo. A vaidade é ciclicamente frustrante, pois vai de encontro a uma realidade inexorável: o envelhecimento. A virtude é envelhecer bem, o defeito é estar velho. Eu estou ficando velho. Sempre achei-me desprovido da virtude da beleza, mas descobri que o defeito de ficar velho é meu grande companheiro. Por vezes sinto que estou mais velho e acabado que muitos homens da minha idade, mas não me sinto menos ou mais virtuoso que eles. Me sinto...igual. 

  Da concepção a primeira desilusão, do auto conhecimento à morte vindoura, nos sentimos centro do universo quando nos sentimos virtuosos. No entanto, estamos recheados de defeitos ilógicos, frutos da nossa própria necessidade em exaurir o máximo de nossas personalidades egoístas. Comparamos nosso sucesso ao do nosso semelhante, e seu nível de fracasso. Sempre achei que a maior virtude do mundo estava em adquirir conhecimento e repassa-lo, simplesmente, por querer ver a evolução humana calcada nas suas habilidades naturais de constante evolução. Nem fodendo! A virtude do mundo é ser sexy, atraente, rico, culto, insensível, frio e calculista. Os defeitos são ser sentimental, gordos, pobres, desleixados e desorganizados. Gente assim é cuspida deste mundo como dejetos do anus de um elefante.

  Não há virtudes válidas para quem não circula nas concepções básicas de seres humanos competitivos, oportunistas e sádicos. Não há espaço para os humildes, propalados como os verdadeiros virtuosos, e nem para os de coração mole. O defeito é se importar.