sábado, 11 de fevereiro de 2012

Frases Inócuas, Pessoas Ocas

Sempre tive muitas reservas com mitos e lendas criadas pelas pessoas, nos impondo a idolatria ou adoração forçada por certos personagens da história. Acho esta faceta do ser humano um porre, esta maneira quase que obtusa de não ter a visão macro das coisas, se entregando a acreditar em tudo que é difundido por aí no mundo eletronico e virtual.

Pois bem, fato é que estamos emburrecendo pouco a pouco com a difusão exagerada de idolos transitorios na midia como um todo, especialmente na internet. Parece que Warhol tinha razão, há quarenta e tantos anos atrás, quando dizia que no futuro, todos teriam quinze minutos de fama. Sempre existe um toque de mediocridade nas idolatrias divulgadas a fio, ou seja, os idolos são mediocres, e aqueles que repassam isso a outros, se tornam tanto quanto ou mais mediocre ainda. A coisa anda definhando a tal ponto que fica tão fácil para o Brasil ser o foco principal deste tipo de idolatria torta no mundo, visto que somos uma patria de ignorantes. Ou melhor, uma patria de ignorantes com mais dinheiro na mão, dado o estranho crescimento economico dos ultimos anos, que nos pos em igualdade com potencias economicas historicas, com patamares sociais e educacionais anos luz a frente do nosso.

Algumas destas idiotices são mundiais. Recentemente, um CEO confundido com Rei Midas da tecnologia, se é que isso é possivel, morreu em decorrencia da pior das doenças, o cancer. Nada mais consternador do que ver um homem jovem, rico, e com tanto a contribuir para o mundo morrer de forma tão prematura e definhante. Entretanto, não bastou noticiarmos a morte deste CEO, precisariamos torna-lo um idolo. Sim, um martir da eletronica, um homem que lutou contra as forças de mercado e criou algo revolucionario, indo na contramão das tendencias, embelezou seus produtos e instaurou Mark Ups absurdos , diferenciando seus produtos da media dos concorrentes. Realmente, um homem de visão, este Steve Jobs. Mas não seria muito idolatra-lo?

Não é de hoje que vemos pessoas em redes sociais difundindo frasismos do Mr Jobs, como se ele fosse algum mago da auto ajuda, ou como se tivesse a resposta para os nossos dilemas basicos de gente comum. Tudo isto aconteceu num espaço de menos de um ano após ele morrer, quero dizer, em pouco tempo o cara foi erguido de CEO de uma empresa respeitada a idolo da massa nerd que o agradece por ter criado coisas que fazem a mesma coisa que os concorrentes, só que numa roupagem melhor e com preço maior. Ora, seria para tanto? Não, Steve Jobs não é idolo, não é semiDeus, não é exemplo de auto ajuda a ninguém, e quem leu a sua biografia pode perceber isso com clareza. Ele não era um filantropo, tampouco agia em prol da comunidade com seu poder e influencia, e pelo jeito era bem materialista também, além de avarento. Como podemos idolatra-lo? Que exemplo ele nos passa de homem? Seria somente o sucesso financeiro aquilo que tanto buscamos, para que nos derretamos em idolatria vazia por um homem ambicioso, que nada mais era que um CEO competente? São questões que elucidam a idiotice difundida pelas redes sociais, que apela para ignorancia e pelo desejo de repetir coisas como papagaios unissonos. Steve Jobs nada mais era que um empresário competente e não tinha nada de visionario. Simplesmente dava roupagem melhor a itens que não tinham apelo de consumo a pessoas que não conhecessem profundamente de tecnologia. Querem chamar alguém de visionario, pensem em Leonardo Da Vinci.

Mas ainda falando em redes sociais, nunca vi tanta gente difundindo frases de Willian Shakespeare, Luis Fernando Verissimo, Arnaldo Jabor e agora...Steve Jobs, o frasista. Não é para tanto, as frases de Shakeaspeare são as melhores, pois são todas farsas. O dramaturgo não era frasista, nem filosofo. Não se esqueçam que o mesmo viveu durante o século XVI, e neste periodo não havia questões que pudessem ser aplicadas nos dias de hoje, ao ser humano moderno, cheio de dilemas proprios e diferentes. Enquanto um homem daquele periodo temia a peste e a fome, nós tememos perder nosso seriado favorito diario na TV. Todas as peças de Shakespeare são adpatadas, pois os textos são extremamente sem sentido para nosso raciocinio moderno e rapido. Para se locupletar de uma frase Shakesperiana, o individuo precisa da ajuda de um especialista em literatura inglesa antiga, que adapte o texto para hoje, para que possa fazer algum sentido para nós. Enfim, é tudo embuste. Já Verísismo é um dos maiores enganadores da literatura brasileira, na minha opinião, mas não sou de julgar, há quem goste. O que acontece é que o proprio pede para que parem de difundir frases que não são dele, como a que reconhecer sua propria limitação neste ponto. Já Arnaldo Jabor não é nada mais que um cineasta metido a Truffaut, que ainda pensa ser revolucionario, apelando para termos esquerditas ou para a pura baixaria, assim como nos seus filmes. Vejam sua filmografia e vejam se há algo mais que simples putaria travestida de poesia neles. Enfim, todos não são genios, não são mitos, são homens elevados a este patamar pela ignorancia vigente.

Por fim, não há coisa mais brochante na internet do que o excesso de artistas sem talento que a usam como meio de promoção. Nem vou discutir o "Ai Se Eu Te Pego...", que dá uma nuance clara da fraca profundidade artistica brasileira atual, e nem meninas que fazem videos de si propria em atos sensuais por terem o desejo imenso de serem escolhidas para trabalhos, digamos, pouco ortodoxos. Tampouco podemos esquecer das celebridades de uma semana, como a tal "Luiza, que iria voltar do Canadá...", que ilustra claramente a estupidez de uma classe alta emergente brasileira, ao fazer uma propaganda e dizer isso com uma naturalidade, como se alguém desse a minima. Se sua filha está no Canadá, foda-se! Seria mais interessante pra mim que ela estivesse na Mongolia, comendo topeiras e tomando leite coalhado nas estepes mongois, com tribos nomades. Aí sim, eu ficaria interessado. No entanto, ela só está no Canada, se preparando para ser mais uma patricinha inutil, num pais que exibe um programa como "Mulheres Ricas", como se isso não tivesse efeito ruim o suficiente nas mentes mais jovens. Aliás, a Luiza já deve ter arranjado um namorado canadense, pois brasileiro não combina com a matiz da bolsa dela.

Enfim, quando repetimos tudo aquilo que outros dizem, sem pensarmos se é algo verdadeiro, ou sem sabermos se aquele idolo cibernetico é realmente quem dizem ser, ou se aquele modismo que você sabe que não durará mais de uma semana estiver bombando na sua "rede", não propague. É melhor estar por fora, do que estar por dentro difundindo ignorancia e coisas inuteis. É muito melhor ter senso critico, opinião propria, e usarmos as redes sociais em prol de coisas menos futeis. A popularização dos meios de comunicação deveria nos engrandecer, e não nos "emburrecer". Para cada asno que compartilha uma idiotice, centenas caem do abismo da ignorancia, e quem perde é a nação.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Cilada da Balada

Há tempos não postava por simplesmente não querer postar. Definitivamente não tenho tido nada muito importante a dizer, mesmo porque a vida tem se tornado algo demasiado estatico e estagnado. Coisas da idade, que vem chegando juntamente com uma certa tiriça, um desapego a certos eventos e encontros. Os excessos são trocados por coisas mais equilibradas, atividades mais serenas, que ajudam a relaxar, ao invés de nos tornar mais estressados, sem percebermos.

Mas não é sobre a idade que quero discorrer. Isso já fiz demais. Quero filosofar sobre as formas de diversão, do termo em latim divertere, que significa distrair, abstrair-se da realidade por um dado momento. Eu entendo que todos tenham a sua propria formula de distração divertida, por assim dizer. Contudo, há uma que me chama muito a atenção, pois junta duas coisas interessantes: a diversão e a paquera. Está no instinto humano o flerte. É normal buscarmos o parceiro em situações de prazer, como em sair para dançar.

A dança é uma forma de se expressar sensualmente. De alguma forma, a pessoa que está dançando quer passar um viés de sensualidade, seja para seu parceiro, ou para alguém que estiver ao redor, ou assistindo. Sempre saí com amigos, namorada etc... para danceterias, e é um tipo de diversão que me agrada. No entanto, cabem algumas conclusões sobre este tipo de distração, bem peculiar nos dias de hoje. Afinal de contas, as casas noturnas deste tipo se proliferam, e ganharam status de "club", ou "joint", ou qualquer outro nome destes que beiram o absurdo do anglicismo.

Pra começar, quando se escolhe um estabelecimento de ponta - ninguém quer ir num local onde ninguém vá - você se depara com uma fila que não anda. É impressionante, mas a imagem que a casa noturna passa é que eles não te querem lá, a não ser que voce seja uma mulher solteira e bonita, o que te faz muito desejável aos olhos dos administradores do local. Não se esqueçam que, estabelecimentos como este, vivem de imagem. Passando pela fila, depois de uma hora ou mais, temos que aguentar a cara feia dos "leões de chácara" que promovem a segurança destes antros. Todos eles engravatados em seus ternos a la Men in Black, com um ponto eletronico nos ouvidos, eles te olham sempre como se voce fosse um potencial risco para a casa. Voce pode estar vestido com a melhor roupa do mundo, chegar de carro importado, mas se voce é homem, solteiro e feio, se prepare para levar olhares nervosos de seguranças loucos pra te por numa gravata, e te botar na rua.

Mas tudo bem, pra não dizer que não falei das flores, tudo tem seu lado positivo. Ao andentrar finalmente o recinto, a visão é estarrecedora. Mulheres muito bem maquiadas, com seus vestidinhos curtos e sapatos altos. Tudo combinando, até mesmo os cabelos alisados, com luzes. Os perfumes são variados, mas inebriantes, tanto quanto as variadas bebidas alcolicas que elas carregam em suas mãos delicadas. Por vezes penso se alguém estaria disposto a encarar uma diversão destas sem se intoxicar de alguma forma. É só um pensamento... .

Olhar estes exemplares de jovialidade, todas descoladas, com personalidades marcantes, dado o bom nivel socioeconomico atual e a liberação feminina latente do século XXI, é um deleite para os olhos. Entretanto, de flores eu já falei, devo prosseguir com a marcha funebre em forma de diversão. Lembram-se quando disse que, por vezes, os donos do estabelecimento parecem não te querer por lá? Pois bem, é possivel ter mais uma prova disso quando precisamos beber alguma coisa. Voce pede sua bebida, e o barman te ignora. Você estica sua comanda, pede a bebida de novo o cara te ignora. Quando finalmente, ele te vê, aparece uma moça estonteante, e ele, com esperanças de algo com ela, a serve primeiro. Dá vontade de se rebelar, mas não se esqueça: seguranças.

Voce espera o cara ter a boa vontade de te servir, quando de repente, encosta no balcão um "brother" do barman. Aí a coisa vira experiencia surreal. Eles papeiam, o amigo veste uma camiseta polo agarradinha, tipo mauriçola de academia, aquele que quer mostrar que anda de carro importado, mas não deixa o verdadeiro carro com nenhum vallet, nem em frente a balada, se é que voces me entendem. Neste meio tempo, o barman já serviu toda a sua horda de mulheres gostosas e brothers, e só sobrou você. Quando você decide o que quer beber, ele diz não ter. Que seja uma cerveja, então. A mais cretina das bebidas, à mais cretina das diversões.

Encerrado o episodio da bebida, ou melhor, ele se repetirá por toda a noite, vamos dançar um pouco. Me lembro que, quando era adolescente, a fumaça nestes ambientes era sufocante. Naquele tempo, o cigarro era livre em locais fechados. Quem não fumava, era visto como bobo. Imaginem o nivel de desconforto. Enfim, todo o ambiente destes locais é feito para disfarçar a realidade de você. Quanto mais eles te privarem dos seus sentidos, mais eles te venderão bebidas e mais voce pensará estar se divertindo. As luzes estroboscopicas, a musica repetitiva industrial...até mesmo a temperatura - beirando o Saara - são feitos pra que voce consuma mais. Repetindo, se estivesse sobrio, provavelmente não duraria naquele local por nem uma hora.

A privação de sentidos dura até o momento onde um homem decide que é hora de flertar. Engraçado, mas ir a um evento destes, do tipo dançante, é complicado para os homens. É muita testosterona no ar, com as beldades, já citadas acima, balançando seus corpos, ajudadas pelo efeito de pouca luz, que esconde muitas imperfeições. Não há como não ver homens pendurados aos ouvidos da moças - a musica é muito alta, não é local pra conversas - cuspindo, falando alto, pelo efeito da bebida, tentando dizer algo que possa despertar o interesse da moça - que não seja a sua aparencia - em menos de um minuto. É como uma prova dos 100 m rasos da conquista. Quem falar menos merda em menor tempo consegue, ao menos, um beijo de premio.

A aparencia é algo a se filosofar. Claramente, a paquera, nestes locais, é toda baseada no conceito de aparencia. Fica dificil ser atraente ao parceiro de outra forma. Se voce vai chegar gaguejando, bebado, suado e com a roupinha errada - tem que ser uma polo agarradinha, numerada e com brasão - vai fatalmente entrar na fila do não. Aliás, o "não" é a palavra mais dita no local. Tem que ser muito perseverante pra se dar bem por ali. As mulheres ainda podem se maquiar, usar cintas, saltos altos, vestidos curtos...os homens, no entanto, não contam com nada disso. Se for feio, tá na "roça", vulgarmente falando. O jeito é malhar e fechar a boca.

Depois deste programão, lá pelos confins da madrugada, voce olha ao redor, naquele fim de festa, e dá aquela desolação. Não só pelo valor da comanda, que poderia te comprar muito mais que uma dança, umas cervejas e alguns nãos (pra manjar esta tem que ter a mente poluida), mas também pela visão horrenda de gente embriagada, meninas gritando, e rapazes se estranhando a cada esbarrão. Quando tem um quiprocó, o segurança, projetinho de animal de UFC ou MMA, usa de toda a sua delicadeza para praticamente matar os autores da confusão, antes de expulsa-los pra se matarem na rua. A imprensa não cansa de noticiar fatos destes.

Por fim, voce resolve encerrar a noite, paga sua comanda inchada, sai de lá surdo, tonto, sem voz e com a sensação que pagou pra ser maltratado. É algo meio masoquista, numa geração de sadicos. Faz a gente pensar... Enfim, fazemos a equação da empreitada, e chego a triste conclusão que não me diverti. Os conceitos de diversão, distração, seja lá como chame, são muito diferentes, de pessoa pra pessoa. A vida, no entanto, nos ensina que isto tudo cansa, e não diverte, por isso citei a idade. Ela nos mostra que a diversão passa muito pela qualidade das coisas, das companhias. Dançar é ótimo, faz bem ao corpo e ao espirito, mas é uma questão de ambiente. Num local fétido, escuro, com musica alta, excesso de gente, calor escaldante, banheiro lotado e com atendimento de quinta, a dança certamente não é prazeirosa. Beira o ridiculo. Realmente, tenho estado estagnado, mas a minha mente não para. É possivel flertar em outros lugares, com muito mais atrativos que não seja a flagrante beleza, superficial e pouco util nas relações humanas. Se fosse indicar alguma coisa pra te divertir, fuja de casas noturnas do tipo citado no texto. Vá fazer uma massagem, sei lá. É divertido ser esfregado, beslicado e apertado com oleos e essencias. Vão por mim, é bem divertido!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A "Imunização" Racional

Pafraseando Tim Maia no titulo, parte de uma das suas musicas inspiradoras, eu pergunto: Onde esteve a razão, quando mais precisei dela? Não sei. Por trás do meu subconsciente, havia um lado racional louco para tomar meu ser como num estado de sitio. Estava anestesiado, amortecido, sei lá, não sentia mais o sangue pulsando nas veias, aquela sensação de poder tomar o mundo para mim, e dele fazer o que quiser. Estar racional é estar ciente dos seus poderes e fracassos, analisando-os antes que os mesmos fujam do controle. Ser racional é ser, acima de tudo, uma fera domada, como um leão enjaulado, mas conhecedor da sua fácil situação de entreter em troca de alimento.

Eu estive irracional por muito tempo. Me perdia em devaneios sem a maior preocupação coma solidez das minha idéias, sem compromissos com o aterramento dos sonhos, cada vez mais incriveis, menos focados no conceito mais basico de realidade. Foi um duro golpe sentir a racionalidade chegando, ao me arrepender de ter sonhado tanto e agido tão pouco. A falha do homem moderno é não agir na hora certa, e retomar as rédeas de sua vida. É aí que as falhas começam a ocorrer, como uma avalanche de estupidez, a correr morro abaixo, na sua firmeza emocional.

Contudo, sonhar faz parte. Quem não sonha, não flerta com a realidade, mas também não consegue solidificar objetivos. Muitos deles se realizam se você mentaliza os mesmos num cenario real, mas o problema é se perder nestes devaneios. Deixar-se levar por coisas intangiveis, ou então muito pouco embasadas na realidade. Aí nos perdemos de vez, e passamos somente a viver fantasiosamente, e nada mais. Não cheguei a me perder, mas perdi muito tempo tentando materializar o impossivel.

Daqui pra frente, só pensarei naquilo que é palpavel, que condiga com minhas capacidades. O racional impera nos homens de boa indole, que perfazem o caminho certo nas suas atitudes. O racional não chora por não ter conseguido, e sim por não ter tentado. Se faz clara a noção que viver as expectativas mais terrenas gera menos sofrimento e nos impõe mais alegrias duradouras, que por consequencia, nos livram de problemas. Estar racional é ser livre, por que não? Triste é o homem que fica preso, encarcerado, em seus sonhos mais profundos e impossiveis de serem realizados. É, sim, uma prisão desumana, esta, de sonhar alto demais, sem expectativas de realização.

Liberdade racional é estar consciente que viver mais um dia é tão ou mais interessante que ficar esperando algo por meses a fio, sem que nada mude. O sujeito da mudança na vida de alguém é o proprio dono da mesma, ou seja, ninguém muda a vida de ninguém senão ele próprio. É fato que a racionalidade faz que esperemos menos das outras pessoas, e exijamos mais de nós mesmos. Pessoas sonhadoras demais esperam que a felicidade (termo que odeio, mas que existe, sem duvidas) venha atrás de si, e não procuram alcança-la, gerando frustração nas suas almas. O racional persegue sua felicidade com objetividade, sem se desviar dela ou se frustrar pela mesma estar distante.

Eu já não espero nada dos outros. Se quero algo, vou atrás. Garantir seus desejos é reconfortante, e a expectativa de fracasso é atenuada pela sensação que se o mesmo vier, só virá para você, e ninguém mais. O fracasso é uma opção, sempre. E dele tiro lições eternas para não fracassar de novo. Se fosse sonhador, estaria me açoitando pelo fato de ter fracassado, e ficaria pensando como seria se, pelo contrário, tivesse sucedido, perdendo preciosos momentos para tentar de novo. Refletir não é ruim, mas ficar preso a uma convicção sem base, é uma idiotice, e fere o principio da racionalidade humana.

Por fim, ser racional não é ser ruim. É saber enfrentar as adversidades sem perder o controle emocional, pura e simplesmente. Assim me tornei, assim desejo estar daqui em diante. Planejar o dia de amanhã é bom, mas sem se enganar, sem ficar se preocupando como será ou como seria, simplesmente planejar. O resultado somente depende se você estava certo, ou não. Dentre as duas opções, a unica certeza é de que a racionalidade vai trazer frutos, e nenhum deles será gerado pela falta de convicção.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Mulheres, Insatisfeitas Mulheres.

Certa vez, conversando informalmente com homens mais velhos que eu, já na casa dos 60 anos, falávamos sobre o papel do homem na sociedade e como isto vem mudando com o passar das gerações. - Mas e a mulher? perguntei. É fato que muitas coisas mudaram, outras nem tanto, mas o papel da mulher na sociedade mudou radicalmente, num 180° quase que completo de 100 anos pra cá.

Havia um tempo, onde o sonho de uma mulher era casar-se, simplesmente. Especialmente no periodo Vitoriano, do início do século XX, a mulher tinha um papel minimo na sociedade, se limitando aos seus afazeres domésticos e suas funções mais básicas. Já a partir da década de 1920, o cinema proporcionou uma evolução tremenda no papel da mulher, transformando-a não só num ser com direitos, mas numa entidade provida de poderes, não só de sedução, mas de opinar, dar diretrizes e ser protagonista numa modernidade emergente desta primeira parte do século XX. Neste periodo a expressão artistica feminina, tanto nas artes plásticas, como nas visuais e líricas foram de extrema importância.

Dando um baita salto na história, chegamos ao movimento feminista das décadas de 1960 e 1970, que trouxeram de vez a mulher para a igualdade tão sonhada de direitos, que a inseriria num pacote de atividades e funções antes nunca desempenhadas na história da humanidade. De repente, bombavam mulheres profissionais, que se desdobravam em busca de seu sucesso em suas áreas de atuação, e contraditoriamente, mantendo aquela coisa ludica do sonho do casamento, dos filhos, da familia etc...Sexualmente, com o advento da pilula, a liberdade sexual (entenda-se sexo sem compromisso) passou a ser mais viável para as mulheres que antes viam as suas possibilidades reduzidas, sob o risco de ser mãe solteira. A partir daí, na minha visão, o papel do homem começou a ser afetado.

De provedor a mero acessório - dos muitos carregados pelas mulheres - o homem vem perdendo sua importância para a vida delas, muitas vezes tendo que mudar para não se tornar um parea. No dias de hoje, o poder feminino é flagrante. Não só na presidencia da nação, mas em todos os setores, vemos mulheres presentes trabalhando e competindo neste mundo cruel com homens desejosos de uma oportunidade de crescer na vida. As faculdades estão abarrotadas delas, que no passado, faziam cursos como psicologia, medicina e letras. Hoje fazem de tudo, até mesmo engenharia, uma área predominantemente masculina.

O lado lúdico ainda persiste, e as mulheres ainda sonham com o tão badalado enlace, mas de uma forma diferente. O tipico homem desejado por elas mudou, e os machões de outrora não têm vez. Por terem conquistado tudo, hoje estão mais seletivas. Não desejam simplesmente só que um homem seja provedor, másculo, inteligente ou que tenha poder. O que elas querem é um homem que seja um pouco como elas, mais feminino, que entenda suas decepções com as pressões dobradas que têm hoje, com trabalho, filhos, casa etc. Querem homens que se cuidem, não se larguem, que frequentem academia, que sejam vaidosos, sarados, inteligentes, bem apessoados, ricos, notórios, com emprego estável, com bom humor, sem pelos corporais, sem mau cheiro, com cabelo vasto, talentoso, criativo...enfim, um super homem, que permeia suas atitudes não só pelo seu lado masculino, ou feminino, e sim num limbo que cria uma nova espécie de homem, moldado pelas femeas de hoje, mais descoladas e sabedoras do seu poder na sociedade.

Restam aos homens compreederem que suas atitudes não mais agradam a esta mulher cheia de vontades. Ou se adaptam, ou se perdem na solidão. A mulher lida melhor com isso, sabe ser sozinha sem ser infeliz. Para o homem, que sempre se acostumou a ter companheiras no passado, a solidão é um cancer que mata cedo. É mister para o novo homem ser mais feminino. Ou seja, ir às compras com ela, ir ao salão com ela, chorar quando ela chora, engravidar (nem que seja pra carregar um saco de arroz de 5kg na barriga durante a gravidez dela), curtir as TPM´s cada vez piores - pois elas estão sob um estresse muito maior - e não reclamar quando elas não quiserem sexo por muito tempo, alegando problemas que nunca passariam pela cabeça de nenhum homem de verdade.

Claro que o parágrafo acima está cheio de ironias, mas que querem exemplificar uma realidade que está presente. Naquela conversa, informal, com os homens de mais de 60, os mesmos concluiram da seguinte forma, ao se direcionarem a mim, após deliberarem sobre o assunto: - Rapaz, ainda bem que não tenho a sua idade, a mulherada de hoje não dá pra aguentar. Eu, cheio de mim, já com meu burro na sombra, virei para meu filho mais velho, que ainda não sabe o que é uma mulher, e disse: - Filho, boa sorte com as mulheres , você vai precisar.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sangue, Alcool, Lutas e Despudores

Na presente situação em que estou, sempre que posso e desejo sair, frequento bares. A noite é um reduto para mim e um átrio de observação das mais estranhas criaturas que a habitam. Fico feliz em sair com amigos de longa data, me inebriar um pouco, dividir experiências, conversar sobre tudo, enfim, socializar-me. Numa destas noites, a qual eu estava particularmente amargo, resolvi encontrar meus distintos para jogar conversa fora, e num bar destes escolhidos ao acaso, ficamos bebericando e contando nossas amenidades.

A sensação de estar em um lugar, com pessoas queridas, não pode ser melhor, mas eu clamo por observar as pessoas ao meu redor. Algumas imagens, de cara, já me bombardeiam as pupilas e se dispõem a serem comentadas com o máximo de cuidado. Ao chegar ao local, me deparo com uma mesa imensa e repleta de adolescentes, entre 15 e 19 anos, aproximadamente. Até aí, tudo bem, eu sempre acho legal estar perto de gente jovem. O frescor das idéias, a beleza das moças, ainda na mais tenra idade, o furor dos rapazes ao quererem pra si toda a atenção, quase que num surto de infantilidade sadia, bradando e agindo como os tais. Eu me divirto com eles, e gosto de tê-los por perto. Mas algo me incomodava. A juventude é o laboratório da nossa personalidade, e ali estavam os pequenos camundongos desta grande experiência que é a vida. Seus copos enchiam mais que seus espiritos inflavam. Estranhamente, algumas moças estavam bebendo como se nada mais fosse importante naquela reunião gaudia. Bebiam, sem controle, deseperadamente, como se fosse o último drinque de suas vidas.

Fato é que, o estabelecimento, já estava incorrendo no maior dos erros, ao vender bebida pra tanta gente menor de idade naquela mesa. Apesar das curvas das moças, não preciso ver os documentos delas para adivinhar que as mesmas ainda não romperam os dezoito anos. Eu nunca fui santo, e sei que exagerei na minha adolescencia. Mas também sei que os estabelecimentos sempre negaram veementemente me vender bebida na minha época. Era frustrante, mas me livrou de muitas babaquices. Hoje, no entanto, percebo que os bares já nem tentam proibir. Liberam mesmo sem pedir identificação. Uma pena.

Uma moça em particular bebeu muito além da conta. Ela era um pouco obesa, mas bonita, jovem, e acompanhada de uma rapaz mais velho. Ela entornava caipirinhas em seu sistema digestivo como se aquelas fossem sua água num deserto. Não demorou muito, e ela perdeu o controle de suas ações, derrubando copos, cadeiras e empurrando pessoas, dado o seu tamanho. O salto imenso que a mesma vestia, também não ajudava. Por fim, após alguns minutos, o vomito foi inevitável, e uma noite que tinha tudo pra ser ótima se transformará num pesadelo, ao passo que seu acompanhante, num elan de odio e compaixão, a retira com tudo do recinto e a leva não sei pra onde. Como pai, aquilo me atingiu.

A noite estava indo bem, nós conversávamos bastante, as palavras fluiam e nossa cervejinha molhava nossos paladares, já responsáveis pelos anos de aprendizado com os maleficios da bebida, especialmente fora de casa. O grupo na mesa ao lado ainda persistia, apesar do alto teor alcolico de todos e do barulho, que aumentava a medida que eles iam tomando mais alcool. Chegaram doses de tequila, cervejas, energéticos, vodkas etc...Era um coquetel de deixar até o mais profissional bebado dos bebados com vergonha. Chega um bolo fumegante, vejo que é aniversário de alguém na mesa. A aniversariante é uma moça, bem mignon, loira, com não mais que 16 anos. Ela têm tatuagens nas pernas, o vestido é bem pequeno, tem piercing no nariz. Deveras, um fruto de um casal de pais bem liberal, ou não. Eles dão os parabéns a ela, entoam a famosa música e distribuem o bolo. A moça, já tropega, começa a distribuir beijinhos entre os convidados daquela mesa. Ela chega na parte de suas amigas e começa a beija-las na boca, e os rapazes fotografam com seus celulares brilhantes. A coisa começa a ficar mais estranha ainda, e ela parece ter curtido a brincadeira, pedindo fotos a cada beijo que dava em suas amigas, também embriagadas. O recato, naquele momento, que toda a moça deveria ter, já havia sumido.

Nós, que estavamos na mesa ao lado, interrompemos nosso papo com aquela visão, afinal de contas, somos homens. Naquele momento, eles se sentiram poderosos, e acharam ótimo nos ter calado com tal show gratuito. Havia um misto de reprovação e curiosidade nos nossos olhares, ja empertigados pelos recentes trinta anos de vida. Aquilo virou assunto em nossa pequena mesa, e nos questionávamos a motivação da moça para proporcionar tal atitude de exibicionismo assim, sem sentido. Aquele projeto de Paris Hilton, lascivamente agindo como uma socialite bebada, nos prendeu a atenção e nos travou o assunto.

De repente, todos começaram a gritar, como num estádio de futebol. O bar inteiro olhava para o televisor. Eu, que estava de costas, de inicio, não dei muita atenção. Ainda tentava digerir aquelas coisas que houvera visto, mas fui logo alertado pelos amigos. É o UFC! Sim, UFC, agora no Brasil! Não vou bancar o idiota e dizer que não sei do que estas letras se tratam, e o que elas representam numa nação como a nossa. Um homem espancando outro até que um dos dois caia inconsciente, num ringue em forma de octógono, com grades, um juíz (pasmem, para quê?), e um publico sendento por sangue. Comecei a pensar que, na Roma Antiga, o negócio das lutas que iam até a morte era lucrativo. Envolvia escravos, homens páreas, e girava um mercado de riquezas inimagináveis para todos os envolvidos. Os politicos usavam estas lutas para entreter um publico enfastiado, louco por violencia insana que fizesse sua adrenalina fluir. Azar dos lutadores, que se não lutassem, morriam da mesma forma. Isto foi a mais de 2000 anos atrás. Olhei o UFC na televisão, o sangue no chão do octógono, o público gritando enfurecido clamando pela destruição do adversário, olhei os patrocinadores do evento, os tais lutadores. Achei aquilo bem a cara do brasileiro, que convive tanto com a violencia no dia a dia. Ali ele extravasa o desejo de ver alguém ser espancado. Não é tão diferente das noites e noites deste país, onde jovens saem para se divertir e acabam espancados, estuprados ou mortos. Há claramente uma identificação master deles com a luta sem ética, a luta ensanguentada, a beberreira desregrada, o homossexualismo exibicionista e o desejo de chocar. É um retrato claro de uma juventude criada sem limites: Uma luta sem limites, uma farra sem limites, uma morte sem limites. Assim Roma ruiu. Assim, nos caminhamos para a ruína.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

As 24 Horas Ácidas e Reais.

Sábado, 00:00hs, aproximadamente. A mente acelerava com pensamentos furtivos sobre o que fazer num momento destes, onde nada faz sentido e tudo abruptamente aparece como opção ao tédio. Uma visão estonteante atinge os olhos, ocasionando um brilho flamejante aos mesmos: uma garrafa do mais puro e etilico Bourbon já fabricado. Ali, jogado num canto, como a atrair a mais atroz alma imbuída do espirito de autodestruição, que somente os mais loucos entendem. Sorvido o liquido, a noite estava por iniciar.

Sábado, 02:00hs. O nivel de embriaguez ficava severo. O alcool é perverso, eleva seu escravo a um patamar de idiotices serenas, onde tudo fica estupidamente claro demais para ser verdade. Nada parece ser um impedimento, pensa-se claramente e fala-se atabalhoadamente. Depois de um certo momento, algumas funções motoras são perdidas, pode-se, inclusive, perder-se as contenções das necessidades fisiologicas. E tudo isso pode parecer no minimo prazeiroso no momento. Num raro e momentaneo lapso de racionalidade mira-se ao espelho e se percebe tropego, disfuncional. Não era pra tanto, a medida do prazer e do sofrimento reside exatamente na dose do entorpecente, seja ele qual for. Onde estaria o prazer daquele momento? Certamente a medida já houvera ultrapassado o tolerável. Onanisticamente falando, restaura-se forçosamente o prazer na Era digital, abusando do manual. Mais claro que isso, impossível. É como uma autopunição mascarada de prazer.

Sábado, 05:00 hs e minutos incontáveis. Onde estará a realidade? Que jogo depravado se está jogando por aqui? Seria aquele pão com manteiga envelhecido por mais de 24hs um retrato fidedigno de uma realidade palpavel? Ninguém é mais real, são todos hologramas. Todos agora são projeções do que querem ser. Aqui dentro só há uma realidade, e não é tangível. É uma realidade morta, é perigosa, sem padrões definidos. Só pode ser loucura. Que aspectos perversos da solidão ainda haverão de açoitar a alma? E este barulho desgraçado de motos e caminhões? É tempo de relaxar. Onde estarão os sedativos? Surtado ou não, ser paranóico não ajuda nesta Trip infernal, estando preso num mesmo substrato. Querem realidade? A realidade está nos beijos negados, nas chances tolhidas, nos desejos abafados, nas decisões indefiniveis, na falta do básico, no encardido da roupa, no fundo da porra do copo, ainda melado pelo mais fino Bourbon. Realidade é saber que nada é definitivo e que a morte é uma saída.

Sábado, 09:00hs. Que maldição, as portas rangem sem uma força maior que as mova. Neste momento a realidade já foi para as picas, o efeito alcolico sumiu e o ranger das portas nada mais é que o vento uivante de uma manhã fétida e insossa, cuja alvorada passou batida. A mente volta ao seu estado mais irreal possivel, o surrealismo das formas que dizemos ser reais tomam seu lugar naturalmente neste mundo em que nada mais faz sentido. A solidão é uma opção importante para, ao menos, flertar com a realidade. Farsa é viver junto com alguém que te vende sonhos, mas não te possibilita reconhecer-se, deveras, como realmente é. O isolado se reconhece pois nada lhe é mascarado. A ele só lhe resta sorver dos néctares mais amargos como o mais puro fel. Quiçá a solidão seja um instrumento de definição de importancia da existencia de alguém para o mundo, e da necessidade da sua perduração num quadro social. É um instrumento, sim, da verdade mais importante: a verdade para si.

Sábado, meio dia. Seria necessária uma total higiene mental para que as sequelas de um descompromisso com o que é racional desaparecessem, e que pudesse voltar a ser um agente da realidade para os irreais. Nesta hora algumas necessidades do corpo afloram, e a vontade é de suprimi-las o quanto for possivel. Todos os porcos que vivem neste mundo saem de seus chiqueiros eventualmente, não? Por que não pastorea-los de volta a seus covis, com seus sorrisos asquerosos e personalidades audazes, de forma a ensina-los um pouco de realidade nua e crua. Um pouco de agitação não seria ruim, e ver alguns porcos guinchando de sofrimento pela total falta de comprometimento com a vida em sociedade não seria de todo ruim. Onde estarão estes suínos? Não precisa ir muito longe, há milhões deles.

Sábado, 16:00hs. O corpo sofre pela falta de tudo, e pelo excesso do nada. O tabagismo é uma opção, e dele pode-se arrancar mais algumas tiras do prazer ininterrupto, pelo puro meio de se enganar o cerebro com cerotonina narcotica. Algumas baforadas e as idéias de justiça somem com a fumaça, dando lugar a uma necessidade, quase que espasmódica, de inspiração. Sim, conseguir uma veia inspiradora qualquer que faça ebulir o sangue e dar um sentido a tanto nonsense disfarçado de desencanto. O prazer veio de novo e estava querendo guiar o cerebro como um cego ao volante de um carro. Alheio aos obstaculos, a realidade naquele momento era uma decepção, mas não tão somente isso. Era uma esperança de que o dia de amanhã será sempre mais que hoje, repetindo o clichê. Em mais um espasmo de inspiração vem a necessidade de revolucionar. A revolução é a saída dos tolos para os seus mais profundos desejos. Todo canalha quer mudar algo, de forma a mascarar suas desventuras. Que tal mudar?

Sábado, 21:00hs. Alimentado de idéias revolucionarias a mente acelera de novo, em busca de algo que sacuda o mundo dos suinos audazes. Os porcos são criaturas egoístas, chafurdam em seus próprios egos de bosta, quando são, na verdade, criaturas amestradas por uma midia manipuladora. Os porcos comem, fodem, bebem, defecam e, não satisfeitos, defecam uns nos outros. Há porcos psicopatas, porcos justiceiros, porcos déspotas e até mesmo porcos revolucionarios. O que move a lealdade dum porco? A grana. Como tornar um porco num ser humano? Prive-o da grana. Uma bela criatura se forma da privação dos seus desejos realizados pelo capital. O afloramento do bom humano se dá no momento da falta. Ali, ele é domado. Seu espirito suino fica pra trás pela pura falta de poder atribuido pelo dinheiro. A revolução tem um caminho traçado.

Domingo, 00:00hs. Foram 24hs da formação do carater de um homem, do auto conhecimento. O entorpecente, a privação, a reclusão e o divorcio com a realidade imposta por todos foram elementos de entendimento do que é estar só num mundo que não lhe quer. É uma luta injusta com o establishment, que força as mentes alternativas a se desligarem, por um momento, da realidade imposta para, enfim, encontrar a realidade que mais lhe apetece. O que é real é aquilo que se constroi, mesmo que em pensamentos. Ninguém te impõe a realidade, como se ela fosse um produto pronto para ser tomado, bastando agitar antes do consumo. O paralelismo da realidade de um é a loucura nos olhos de outros. O corpo esmorece, reconhecendo a perda da batalha revolucionaria para os suinos da segunda-feira. A privação foi grande demais, e o reino dos suinos maltrata demais seus desertores.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Minha Nota Do Subsolo

Dostoievski descrevia o subsolo como um estado da alma onde nossos pensamentos mais sombrios se revelam. Seres introvertidos e observadores vivem no seu subsolo até que alguém os resgatem para a vida entre os comuns. Muitos não saem de lá nunca. O subsolo me atrai, lá recupero a segurança em muitos aspectos da vida, observo meus semelhantes e constituo uma forma de ver a vida muito mais abrangente do que somente as aparencias querem me dizer.

Estado da alma, não? É verdade. Por vezes o subsolo me atinge como se houvesse sido abduzido, puxado como que forçosamente para os cantos mais abissais da minha consciencia. O que fazemos lá? Expulsamos as superficialidades, absorvemos o auto conhecimento, olhamos o outro e pensamos se o mesmo nos salvará deste poço. Não, ninguém aqui está deprimido no subsolo, ninguém vai morrer por estar lá. É mais que um simples desprazer psicológico. É um momento onde as palavras simplesmente são substituidas por pensamentos, fala-se menos e reflete-se mais. O subsolo é algo notavelmente confortável e nos permite grandes conclusões.

Aqui do subsolo vos escrevo, estou chafurdando nas minhas próprias idéias fixas sobre a sociedade, e delas espero abstrair o máximo de entendimento sobre a mesma, reconhecendo também o meu papel neste interim. Vejam só aquele cidadão, num carro estilo offroad, ou aventureiro, como queiram. Eu acredito que o carro, com o passar dos anos, virou um meio de expressar quem somos, e este cidadão quer expressar algo...o que o subsolo me ajuda a concluir? Ele mora numa cidade asfaltada, sem estradas de terra. O carro está limpo e sem traços de lama. O máximo que viu de sujeira foi a poeira do ar. Ele está vestido socialmente, talvez seja bancário e sua pele é branca como cera, denotando passar grandes períodos sem tomar sol, ou fazer as ditas aventuras propostas pelo veículo, que o permitiriam ter um bronzeado muito melhor. Pelo adesivo na traseira, ele tem apenas um filho e uma esposa, não necessitando do vasto espaço do automovel. Aliás, por que o adesivo na traseira? O que mais ele quer passar ao mundo exterior? Que é um homem de família? Que é melhor do que eu por isso? Ou talvez seja só um exibicionista, assim como uma larga parte da sociedade de hoje, assolada por informações excessivas em redes sociais? Deve ser de tudo um pouco, mas voltemos ao propósito do carro, para quê este cidadão precisa de um veiculo offroad? O subsolo me diz que este homem quer mesmo é mostrar algo, por meio do bem de consumo, que ele não é. Provavelmente, o individuo que realmente precise deste meio de transporte não tenha a capacidade financeira para te-lo, talvez por passar muito tempo em suas aventuras, ou trabalhos braçais. Logo, o nosso amigo "bancário" quer praticar o bom e velho escapismo: - Se não sou, ao menos vou expor à sociedade que pareço ser. Sempre sonhei em ser durão, hardcore, radical, mas no fim, não passo de um pai de família com mania de grandeza. Faz sentido.

O subsolo é assim mesmo, nos dá a verdade por meio da ironia. Esclarece escarniando. No entanto me sinto feliz por estar aqui, muito embora seja algo muito solitário. Outra coisa me vem a mente, e penso: - E aquela moça sufocantemente bela que acaba de adentrar meu campo de visão? Cabelos alisados à perfeição, óculos escuros importados que cobrem quase a totalidade de seu rosto, mas não escondem um belo nariz, fabricado pelo mais conceituado cirurgião. Pele alva, mas coberta por uma maquiagem bem feita, até um tanto forte. Cheiro marcante, amadeirado, com notas de pinho. Corpo esguio, alto, ornado por belas roupas, talvez de alta costura, pernas de fora proporcionalissimas, clarinhas. Mãos e pés bem cuidados, um traço marcante de ter evitado trabalho manual e pesado durante sua curta vida. O que ela quer transmitir com isso? Obviamente o subsolo é imprescindivel na qualificação daqueles que não pertencem a ele. É obvio, também, que esta moça jamais vai observar as coisas daqui, pois ela é notavelmente um ser da superficie. É superficial, não? Ao menos parece ser. Algo me diz que ela tem posses, ou ao menos quer parecer ter. Se for a segunda opção deve estar endividada até o pescoço. Entretanto, se for mesmo rica, deve ser bastante dificil e hostil. Olhem o esforço que ela faz para não olhar os seres ao seu redor. Parece uma contradição, mas ela não quer olhar os outros, mas quer que os outros a olhem. Se não fosse desta forma, porque se vestiria tão bem, e cuidaria tão bem de sua aparencia? Sim, ela deve ser dificil, no minimo arrogante. Deve estar num estágio de consciencia em que se não for notada, cairá em frangalhos. Precisa disso, se alimenta disso! Não parece nada sexual, mas no fim, é somente por isso que pode se fazer ser notada. Às mulheres, no entanto, ela que causar inveja, quer diminui-las. Definitivamente ela é um belo exemplar, mas não se enganem. Por dentro existe um ser humano, sim, existe uma criatura insegura, louca pra se destacar de alguma forma. O exibicionismo exagerado a impulsiona e os olhares de quem quer que seja são seu combustivel. Deve ser fragil, facil de desmontar, como um castelo de cartas. Deve ser sensual, mas não sexual. Trava-se facil para o sexo, por criar uma barreira imaginaria à frente dela, expondo tanta imagem para tão pouco conteudo. Eu imagino a dificuldade que deve ser viver dentro dela, esperando o reconhecimento a cada olhar, em cada esquina. Que ser humano superficial! Por isso gosto do subsolo.

Aqui as estórias fluem como rios venenosos a verter para o imaginário sem fim, pois no subsolo somos livres pra pensar da forma que desejarmos. Não interessa quem o ou quê, sempre há espaço para, inclusive, ir mais além. A zona de conforto que o subsolo provê só não é tão boa quando o mesmo se vira contra você. Daqui de dentro passei a me conhecer melhor e a tirar conclusões que jamais tiraria estando na superficie, vivendo com os outros "seres de atitude". Aqui abaixamos a bola, popularmente falando, nos policiamos e vemos que somos falíveis, detestaveis e deploraveis em alguns aspectos. Olhe só aquele exemplar, belos filhos, boa vida, mas com grave problema: ele não se gosta. Sim, já ouviram falar daquele homem/mulher que pode ter tudo na vida, mas não tem aquilo que ele mais deseja: um retrato perfeito de si próprio? É aí que o subsolo fica perigoso, exatamente quando criticamos os superficiais e pensamos quanto a nós mesmo. Ora, eu mesmo disse que o subsolo nos serve de observatório, para que possamos nos tornar melhores, sem jamais ir para superficie sem razão. É isto mesmo, mas a autocritica é o limite disso. Pois bem, segue a vida daquele homem, preso no subsolo, mas incauto à realidade. Ele não tem autorespeito e se odeia mais a cada dia que passa. Ele cobra muito de si, exige muito pouco dos outros, e se ve preso numa miseria sem fim. Ele tem todos os instrumentos para deslanchar numa perfeição de vida, mas se atrasa em seus pensamentos mais indignos. Muitos pensam dele ser um canalha, um arrogante, um párea. Mas ele é um homem com tanto a dividir com o mundo, alguém que as pessoas podem confiar, um cara de principios. Infelizmente ele não consegue, ou não pode demonstrar isso ao mundo, e o mesmo se esconde no subsolo, onde o isolamento da consciencia o consola. Aqui, no subsolo, jaz um sem rumo, um homem com alma subterranea, habitando um porão sombrio, mas com ganas de flertar com a superficialidade. Neste subsolo em particular tem um maldito espelho, e por ele acabo por ficar preso, aqui, distante. É, o subsolo é perigoso demais quando passamos a esmiuçar nossa própria e profana personalidade. Voltemos aos outros.