quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Carnaval, O Solitário e O Maluco

Ontem, como sempre fiz, ao acabarem os noticiários noturnos, desliguei a televisão e abri um livro qualquer de minha escolha para me fazer companhia pelo resto da noite. Era "O Viajante Solitário" por Jack Kerouac. Uma obra prima descrita por um homem que prezou sua liberdade até os últimos minutos de sua vida. Um vagabundo iluminado, como se autoproclamava, ele percorreu as mais insólitas viagens pelo mundo em busca de autoconhecimento e compreensão da realidade em que vivia. Isso foi nas décadas de 1940 e 1950. O mundo era diferente, as coisas eram diferentes. Descobertas assim são mais difíceis hoje porque nos preocupamos demais em nos socializarmos a qualquer custo, e esquecemos a grande virtude do estar só, do silêncio absoluto, do contato com seu Deus, seja qual for, e sua resposta mais divina: O mesmo e famigerado silêncio. Eu tenho pena dos homens de hoje, eu não os odeio, e não os amo. Apenas tenho pena. São incapazes de por a cabeça sob a relva e observar o céu, de ouvir uma queda d´agua, de observar, tão somente, sem se entediar e ligar a porra de um celular. É uma maldita alma plugada em algum instrumento de vício.

Não se pode só falar sobre isso. Às 23 horas, terminei meu livro e me aprontei para a cama. Procurei um velho DVD para assistir (eu também sou escravo dessas coisas), optei por dar uma chance ao "congelado" televisor, ou LCD, ou seja lá como queiram chamar-Carnaval- Chegamos ao Carnaval. Havia me esquecido disso, talvez por não acompanhar com tanta assiduidade os meios de comunicação, por não ter visto a Mulata "Globeleza" requebrar-se como uma cobra eletrocutada como em outras oportunidades, ou por não ouvir alguns cretinos dizerem que irão para Salvador, sem razão alguma, para ser um "folião", ou um beijador no meio de outros cretinos, mijões, beberrões e farristas. No noticiário, claro, vemos que está chegando. Sempre há uma reportagem sobre as ruas de Olinda, os Trios Elétricos de Salvador, os blocos no Rio, Minas, São Paulo etc...Que falha tremenda a minha, não perceber a aproximação da festa mais sensual do ano. Lembrando-me daquelas vezes em sentava junto a meu pai para assisitir aquele festival de genitálias e seios expostos. Era muito bom. Pouco sabia sobre a evolução da bateria, sobre o enredo, ou se havia muitas plumas e paetês nos carros alegóricos. Eu me hipnotizava com aquelas Deusas de ébano das favelas locais, ou pseudoatrizes de merda da televisão requebrando seus maravilhosos corpos naquela tela de vinte polegadas da minha velha TV. Que ótimo, existe algo que me marcou nestes últimos quase trinta anos de carnaval: A beleza das passistas. Me faz até esquecer da grande babaquice e oportunidade de autopromoção que o carnaval se tornou nos últimos anos. Tem gente dando tudo que pode ao cirurgião plástico pra não fazer feio nas passarelas pelo Brasil. Tem que se respeitar muito essa gente. Para elas o Carnaval virou puro business, que exige investimento em troca de ensaios em revistas, entrevistas, papéis em folhetins de merda na televisão. É, pensei demais. Fui dormir.

Todavia, nem tudo é crítica. Temos um período para descansar, e se você for esperto o suficiente pode se afastar desta "Sodoma e Gomorra" moderna e estender seus pensamentos, colocando-os em dia. Afinal de contas, é um feriado, não? Ser solitário tem suas vantagens. Permitam-se o silêncio, dêem-se tempo para pensar, entenderem seu semelhante e seus defeitos, entender seus próprios defeitos. Só o silêncio dá esta oportunidade. Hoje em dia o silêncio é escasso, e toda a oportunidade de tê-lo é uma dádiva, e quem o busca não deve ser conotado de modo algum. Certa vez me disseram que levo jeito pra maluco. Não me senti ofendido, pois o maluco referido nada mais seria do que um introspectivo Ser, uma pessoa que não socializa mais por socializar. Alguém que busca refúgio em sua própria mente não pode ser um pária. Tenho amigos, tenho pessoas que de mim têm de tudo que possa dar. Afeto é a minha maior benesse a todos. A minha introspecção e paixão pelas minhas próprias idéias, préconcebidas ou não sobre o mundo, não são, em hipótese alguma, uma promessa de loucura futura, e sim de maior autoconhecimento que não será afetado pelos excessos do mundo e das pessoas de hoje.

O dia chegará em que todos nós teremos essa necessidade. Contudo, o mais cedo que isto ocorrer, melhor. Criaturas superficiais abundam na terra, e não é um Carnaval bem "pulado" que irá fazer seu resto de ano mais feliz. Na verdade ocorre o oposto, ao não se perguntar o por quê das coisas, pode-se facilmente cair na falácia da felicidade falsa, aquela que só ocorre após o homérico porre, após o sexo sem sentido, após a música alta e disforme em seus ouvidos. Ocorre o engano da mente, a supressão do Eu e a ascensão do Nós, o fim da personalidade própria e o início do ser carismático, já tratado em outro texto por aqui. É só uma escolha, nada mais. O pré-Maluco tinha de escrever isso. Bom Carnaval a todos!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Quem Nos Usam São as Mulheres!

Num fim de uma tarde cálido, num bar qualquer de uma grande cidade do Brasil, dois homens faziam alegremente seu Happy Hour de sexta-feira, após uma semana de labuta incessante. O verão tinha recém começado, e o tintilar das canecas de chopp nas mãos lépidas e hábeis dos garçons daquele recinto atiçavam o paladar daqueles dois guerreiros engravatados, e impulsionavam uma prazeirosa conversa.

Toninho e Marcos eram seus nomes, casados, com filhos, beirando os trinta anos. Alí, naquele calor infernal, suas gravatas eram afrouxadas à medida que o suor lhes escorria pelo pescoço. Após o primeiro gole, Marcos divaga sobre seu trabalho. Mais especificamente sobre uma estagiária que o tira do sério. Seu nome era um fruto da modernidade, ou melhor um aborto linguístico, Keirrilyn. Sim, meu confrades leitores, é cada nome... Para aqueles que achavam que Marcos estava às turras com essa moça, ou puto pelos serviços mal prestados podem tirar os olhos do texto, vocês são puros demais para este Blog.

Marcos estava completamente louco pelas coxas de Keirrilyn, pelos seios, pela bunda...pelo conjunto da obra. Um grande impedimento, entretanto, era sua idade. Não a de Marcos, a dela. Keirrilyn era uma doce proibição da natureza, tinha somente dezesseis anos. Doces dezesseis anos. Toninho, putanheiro como sempre, já avisou ao amigo que não viesse com melindres e já foi logo perguntando: -E aí, vai perdoar? Marcos era muito ponderado, e cortou o amigo com um sonoro: -Não sei! Marcos se derretia ao falar da moça, dos seus trejeitos, seu aroma inebriante, a maneira como seus quadris roçavam em suas costas toda a vez que ela vinha até sua mesa para lhe entregar qualquer coisa. Era uma tortura. Keirrilyn era uma moça com cabelos aloirados, e apesar da pouca idade tinha curvas insinuantes, e sabia disso, usando sempre roupas mais curtas.

Toninho, ao saborear-se deste conto, não se fez de rogado e deu sua versão de algo que lhe houvera ocorrido no passado, com traços de similaridade com o caso de Marcos. Toninho tinha uma esposa que houvera conhecido ainda na tenra idade, eram ambos muito jovens ao início do namoro, e sua imaturidade acabou levando-o a um casamento prematuro. Márcia, sua esposa, era uma bela balzaquiana, que se cuidava muito e, além de tudo, era uma mãe exemplar. Após a primeira caneca e mais uma afrouxada na gravata, Toninho disse que a amiga de sua mulher vivia sempre na sua casa, em festas, confraternizações e até mesmo em visitas corriqueiras, mas sempre lhe foi muito cordial, apesar de estar alí por Márcia. Seu nome era Ana, e era bem mais jovem que sua mulher. Ambas tinham uma amizade muito forte. Toninho afirmou que num belo dia, Ana trouxe os seus sobrinhos para a festa de seu filho mais velho, em sua casa, e que naquele dia em particular ela estava esfuziante. Toninho a observara de modo diferente daquela vez, e a mesma percebeu. Márcia, sempre muito mãezona não percebeu o clima entre os dois, e foi entreter a criançada. Neste meio tempo, Toninho se aproximou de Ana e os dois começaram uma conversa, e ele já estava "temperado" de uns whiskies que houvera tomado naquela tarde. Ana, como toda mulher, se sentiu lisonjeada com os avanços de Toninho e quando menos se esperava, ele a convidou para algo fora daquele meio familiar. Era um tiro no escuro, mas Ana aceitou, e brevemente naquela semana os dois já haviam começado uma tórrida relação extraconjugal.

Até este momento, Marcos ainda não tinha esboçado qualquer reação, mas por dentro algo lhe ardia. Era o poder da sugestão. Ele perguntou então como que aquilo tinha dado certo, visto que a moça era a melhor amiga de sua mulher. Toninho não titubeou e disse com vêemencia: -Mulheres não têm amigas, companheiro. Têm concorrentes! Ambos riram, e pediram mais uma rodada. À medida que a bebida fazia efeito, os rapazes começavam a aumentar o tom de voz, Marcos resolveu quebrar sua fleuma e foi cuspindo tudo, feito uma metralhadora sexual. Ele começa a pensar no que fará com a moça na segunda-feira, e Toninho é só alegria. Marcos era feliz em seu casamento. Dora, sua mulher era muito doce, um amor de pessoa. Depois dos dois filhos tinha perdido boa parte de sua silhueta e, muito do seu elan sexual. Marcos nunca reclamou, mas via sua esposa ficando rotunda passivamente, talvez até com certo cinismo. Seus dois filhos eram lindos, e eram a alegria da casa.

Marcos e Toninho trabalhavam num banco de investimentos, e suas rotinas estressantes eram a tônica para que assuntos como estes, pequenos devaneios sexuais, surgissem sempre em suas conversas pós-trabalho. Aquilo servia como válvula de escape num cenário onde ambos eram bombardeados com pressões diárias de produtividade e desempenho. Além disso, tem-se a pressão de ter que sustentar a casa, dar um futuro brilhante para os filhos, alcançar os sonhos mais básicos da classe-média brasileira, com uma promessa de uma aposentadoria tranquila nos anos que se seguiriam. Eram, enfim, homens comuns. Suas conversas em nada diferiam dos outros homens com as mesmas responsabilidades, e seus desejos extraconjugais eram uma terapia e tanto para suas mentes maltratadas.

Já passavam das 21 horas, e ambos decidiram encerrar a noite. Pagaram suas contas e no caminho até os carros, Marcos raciocinou e disse ser uma heresia aquilo tudo que houvera dito na mesa. Admirava, sim, a beleza da mocinha, mas não iria partir para a sedução de modo algum. Além de ser ilegal, poderia lhe arruinar a vida, profissional e pessoal. Toninho ponderou, e disse, em tom de brincadeira, para que comesse uma garota de programa para extravasar tudo aquilo. Disse ser só tesão reprimido, que logo após possuir outra mulher voltaria pra casa mais tranquilo e dormiria como um anjo nos braços "gordos" de sua mulher. Marcos riu e disse que iria pensar.


No dia seguinte, fim-de-semana, Marcos leu seu jornal, como habitualmente fazia e numa tentação dos diabos olhou os classificados de garotas de programa. Olhou anúncio por anúncio, Travesti bem-dotada...não; Coroa massagista, finalização...sorriu e disse que tinha isso em casa, para que pagar? Ninfeta, 19, completa...sim, é essa. Marcos olhou para os lados, levantou de sua poltrona e foi até a garagem em posse de seu celular. Uma voz deliciosa atendeu do outro lado, dizendo estar disponivel num flat da cidade. Marcos ficou mudo por um tempo, depois pergunta o preço, que lhe é prontamente respondido: -R$ 200,00 a hora, meu bem! Em posse do endereço, Marcos leva a família para almoçar. Sua cabeça está a mil, sua libido está borbulhante, e as conversas da família à mesa são ignoradas por ele.

Era um pensamento tentador, Marcos nunca havia traído Dora. Fazia tempo que não sentia o toque, o cheiro de outra mulher e isso foi fatal. Ele marcou o horário e foi até o flat da tal ninfeta. Chegando lá, a mesma o esperava de lingerie e ele perdeu a saliva na boca, ela era linda. Tinha olhos claros, mas era morena como um ébano. Seu corpo era esguio como uma cobra pronta para dar o bote, os lábios eram protuberantes, e o cheiro...era puro almiscar. Ela ofereceu-lhe um drinque, que ele prontamente aceitou, enquanto ficava mais a vontade naquele local. Pensou quantos homens já estiveram ali, e um certo asco lhe bateu. Entretanto, já que estava no local, não poderia dar pra trás. A ninfa trouxe o drinque e foi sentando no colo dele, relaxando-o como prometera. Os detalhes são exógenos ao texto, mas correu tudo muito bem, foi uma senhora transa. Daquelas que Marcos não tinha há um bom tempo. Ele puxou assunto com a moça, perguntou seu nome, a quanto tempo fazia aquilo. Ela foi bem vaga, mas disse que precisava muito da grana e que estava difícil demais conseguir um emprego na cidade. Marcos estava em tal êxtase, que acabou perguntando mais e mais sobre ela. Era flagrante, Marcos estava fisgado.


Marcos pagou a moça, e lhe disse se poderia voltar. Ela ironicamente disse que enquanto ele pudesse pagar, lá ela deveria sempre estar. Isso causou um certo desconforto. Marcos foi embora. Na segunda-feira, tudo correu normalmente, Keirrilyn fez seu serviço diário e Marcos a observou da mesma forma, mas desta vez não houve tentações, ou seja, Toninho estava certo. Não que a menina não fosse até bem assertiva com ele. A moça era bem ambiciosa, e queria sim flagrantemente provocar um ataque de Marcos, com qual objetivo ele ainda não supunha até aquele momento. Mas isso estava fora de cogitação, este mundo era muito cruel para se arriscar daquela forma.

Passou-se um tempo e aquela profissional do sexo não abandonava a cabeça de Marcos, e num outro Happy Hour da vida, ele se abriu e contou tudo a Toninho. Não sabia o que sentia, mas sabia que era proibido demais para se sentir. Toninho, sacana como sempre já foi logo tirando da jogada dizendo que aquilo era ainda pior que se envolver com a adolescente. Marcos ficou mudo. Toninho explicou dizendo que namorar uma garota de programa, além de imoral, pois é ser corno consentido, é um contrasenso. -Já pensou num belo dia que você estiver louco para transar e ela alegar aquela famosa "dor de cabeça", o que vai fazer? Marcos disse que se a amasse, respeitaria. Toninho riu e disse que era bobagem, que ele iria logo botar r$ 200,00 na cama e iria se oferecer então para pagar. - E aí, vai continuar com dor de cabeça mesmo seu eu pagar? Marcos ficou sem-graça, mas concordou. Brindaram que aquilo era ridículo mesmo. Marcos então perguntou sobre Ana, como andava sua relação extraconjugal com ela? Toninho disse que já tinha acabado há muito tempo. Quando ela percebeu que ele estava gostando, tirou o "time" de campo, ou seja, fazia parte daquela nova horda de mulheres predadoras que estão brotando aos borbotões na sociedade atual. Marcos riu, e pediu outro chopp.

-Peraí, você esta me dizendo que neste exato momento tem mulheres por aí que saem com homens por diversão e transam sem compromisso assim como nós?
-Sim, meu amigo, elas estão por aí! O prazer delas é a transa pela transa, seja o cara casado ou não. É como se os valores estivessem se invertendo ou se equivalendo. É o terceiro estágio do feminismo que teve início no século passado.
-Qual será o próximo?
-Nem quero pensar, meu irmão.

Um silêncio aterrador toma conta da mesa...eles gritam: Garçom, traz a conta!

- É, vamos pra casa ficar com nossas feministas à moda antiga. Até segunda companheiro!
- Até!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Carisma Exibicionista Versus A Privacidade

Às vezes me espanto como tudo na vida tem dois pesos e duas medidas. O que é monstruoso pra mim, pode ser agradável para vocês, pode-se adorar alguém e outra pessoa odiar este mesmo alguém. Enfim, nada é unanimidade nas cabeças complexas dos seres-humanos. O que dizer então de se querer agradar a todos? Seria uma utopia? Carisma é a questão a ser abordada.

O carisma é um traço marcante da nossa personalidade, e reflete o quanto nossas relações sociais são valorizadas entre nossos semelhantes. Eu observo muito as pessoas carismáticas, e chego a uma conclusão muito simples: São "vaselinas". O leitor que não compreende a gíria está intrigado, mas eu explico. "Vaselina", além de ser um derivado do petróleo para lubrificação, também é um termo utilizado para se designar pessoas que são flexíveis em todos os sentidos. Têm opinião mutável, se adaptam ao sabor das tendências, e não se prendem a um dogma, por mais absurdo ou correto que ele esteja. Não consigo me encaixar nessa pecha.

Longe de mim querer criticar o carismático. Não posso, entretanto, deixar de citar que grandes personalidades carismáticas da história se tornaram os maiores fascínoras da humanidade. Hitler, Pol-Pot, Stalin, Franco, Saddam Hussein...entre outros, são exemplos marcantes do carisma utilizado para fins de liderança suprema. Todos eles beberam na fonte da busca incessante pela aceitação popular, em prol de um objetivo maior, cada um à sua maneira. E o carismático comum? Como é? Temos hoje em dia exemplos mais marcantes de pessoas carismáticas ao nosso redor. Com a internet, essas pessoas conseguem amplificar suas atitudes populares e arrastam milhares de seguidores com elas. Sites de relacionamento denotam muito isto. As pessoas intensificam seus círculos de amigos, virtuais ou não, e cultivam um comportamento bastante marcante, que apesar de"vaselina", apela para o escancaramento das suas vidas particulares, por meio de fotos documentando cada simples evento de suas vidas. É, hoje todo mundo é meio celebridade.

É incrível, mas percebam que a pessoa mais carismática é sempre aquela que mais aparece nestes sites de relacionamento com fotos, vídeos, trechos "chupinhados" de sites de frases de efeito etc. É o tesão da classe-média atual ter o mesmo comportamento de celebridades tolas que exibem suas vidas para todos verem. Querem ser pequenas e célebres criaturas anônimas, mostrando fotos em poses provocantes, nas viagens, no churrasco do amigo, nas micaretas (habitat natural dos carismáticos), baladas, no ponto de ônibus etc. Só falta mesmo documentar o ato sexual privado de cada um. Aí sim, teremos o grande "big brother" do proletariado, com seus microcomputadores parcelados, recém inclusos digitalmente, tomando sol em seus quintais com biquinis atochados, ou sunguinhas pequeneninhas, fazendo biquinho pras suas camerazinhas digitais. Não se ofendam, o que todos querem é ser menos anônimos, e mais amados. No fim, é tudo uma busca pela aceitação, pela inclusão, num cenário de capitais e grandes cidades onde as relações são cada dia mais frias.

Ser carismático pode ser sinônimo de poder. Nosso presidente é extremamente sedutor ao povão, com seu jeitão de "seu Zé do bar vestido de paletó", ele conquista cada dia mais adeptos, até mesmo a mim. Luís Inácio "Lula" é até objeto de filme hoje em dia, protagonizado por atores de primeiro time. Quem tem mais de 30 anos sabe o caminho que este homem percorreu até chegar onde chegou. Saberia também que, há 20 anos atrás, jamais ele conseguiria ser presidente com seu discurso popular. Eu disse popular, não populista. Ele é o maior exemplo de onde o carisma pode levar, por isso muitos se enviesam para este caminho, o caminho da fácil aceitação, da aceitação a qualquer custo, da supressão da personalidade em troca do sorriso alheio e do famoso: "me adiciona aí!".

É uma nova sociedade o objeto deste texto. Um novo paradigma que direciona a uma vida de falta de privacidade explícita, e exibicionismo sem precedentes. Quem critica, diz que isso tonará nossa sociedade mais vulgar. Quem aplaude, defende que as pessoas serão mais unidas, derrubando antigas barreiras de relacionamentos que geravam preconceitos e até conflitos. Eu prefiro manter meu perfil pouco carismático, mas porque sou mais recluso, um traço marcante de minha personalidade. Jamais tentarei ser algo que não sou. Já o fiz, mas só me trouxe raiva de mim mesmo. Na verdade, quem me conhece me acha até irritante. Talvez este seja meu charme. Talvez não. Enfim, muito cuidado com o que desejam. Querer ser bem visto na "rodinha" pode ser a sua ruína, pois quem muito se expõe está arriscado a ser escrachado e até invejado. O anonimato traz alguns benefícios que só quem já o perdeu pode valorizá-los. Cultivem um pouco a privacidade, por favor! Faz bem guardar algumas coisas só para sí.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Reveillon E O Macumbeiro De Ocasião

Passaram as festas de fim de ano. Os excessos, as desavenças, as divídas, as desilusões, as dores...ficou tudo para trás. É muito comum vermos as pessoas prometendo novas atitudes, melhoras no aspecto pessoal, profissional e emocional. Tudo pode ser mudado a qualquer dia e momento da vida, mas a coisa fica sempre para o fim de ano. Típico do nosso comportamento mesmo. Ritos de passagem dão a tônica deste momento único do ano, onde todos se abraçam, dizem coisas positivas, até mesmo para estranhos. Engraçado, ficamos mais educados também. Aquele mesmo indivíduo que mandamos para o inferno por ter nos fechado no trânsito, se torna um amigo momentâneo. Alí, naquela faixa de areia, onde depositamos oferendas para as entidades africanas, nos vestimos de branco, como pais e mães de santo. Onde damos sete ou oito pulos em ondas para boa sorte, estouramos nossos espumantes baratos, estouramos nossos fogos de artifícios e, já disse que abraçamos todo mundo?

Chegou a hora da contestação. É muito comum sairmos por aí, e ouvirmos sempre coisas negativas sobre a "macumba". Dizem ser coisa do Diabo, que seus rituais são pagãos, que seus praticantes são semeadores do mal alheio e atrasados financeiramente. Engraçado. A coisa que mais prezo é ver uma pessoa que reconhece os rituais que pratica como algo benéfico em sua vida. Não importa o quão estúpido e repetitivo seja, o conhecimento das coisas que você considera de bom-senso para a sua vida devem ser respeitadas. Por outro lado, a grande maioria dos robóticos pseudo-macumbeiros que vão à praia estão pouco preocupados com o sincretismo por trás dos rituais afro-brasileiros praticados no Brasil afora durante o Reveillon. Fazem isso por puro modismo. Mas esperem, não eram estes que diziam horrores sobre a macumba e suas variações? Ora, se adorar uma religião africana é simbolo de atraso de vida, por que seria durante o Reveillon, por exemplo, jogar flores à Yemanjá, um ritual positivo? Ainda nesta linha de raciocínio, por que estas mesmas pessoas ouvem e louvam artistas baianos do mainstream que usam e abusam de termos afro-religiosos em suas "músicas"? Eles evocam entidades e termos somente utilizados em sessões e rituais da macumba em seus versos, mas quando são eles que cantam, a coisa se torna cool. É como aquele rapper que incita a violência e é adorado, mas quando um cidadão o faz é apontado como um pária. Isso se chama hipocrisia.

A questão é em si ridícula, e digna de escárnio. Raul Seixas dizia que preferia ser Metamorfose Ambulante do que ter opinião formada sobre tudo. Eu tenho opinião, e peço licença ao brilhante Raulzito, que por sinal era Baiano, para discordar neste ponto. Fazer as coisas por fazer é muito a cara desse país. É conhecimento comum que a superstição é a defesa do ignorante contra as coisas ruins que lhe acontece, e o mesmo não consegue explicar. Usar roupas brancas, pular suas ondas, pedir coisas à uma entidade e oferecer-lhe flores etc. Tudo isto faz parte de um medo imaginário de um cidadão já cansado de perder. Estamos num país perverso e violento, de pessoas mal educadas, mal nutridas, desvalorizadas e desiludidas. A esperança que as coisas vão melhorar é o que faz esta gente sair da cama de manhã, e é o combustível para que rituais como os apontados neste texto ganhem cada vez mais força. Até mesmo a elite já os praticam, mas por outros motivos. Eles os praticam para não ficarem demodé, porque usar branco é chique, passar Reveillon na praia é o que nos faz uma nação de gente alegre, mulata, que brinca quando não deve. A elite repete e venera os rituais dos pobres quando lhe convém, para ufanizar as coisas do "Brasil pra gringo ver", no Reveillon e no Carnaval, para no restante do ano fazer o que sempre fez por séculos: ser carregada por eles.

Queridos leitores, continuem usando branco no Reveillon, vão para as praias, joguem oferendas ao mar, pulem seus pulos. No mínimo vocês estarão livres de germes, aumentarão a quantidade de matéria orgânica nos mares e terão seus músculos das coxas mais fortes, pelo menos até o dia primeiro, pois vocês já terão novas resoluções. Aí tudo isso fica pra trás, e vocês voltam a ser as mesmas criaturinhas ridículas e julgadoras que vocês são: "Macumba é coisa de preto!", " Você me fechou, seu filho da puta", " Veio de branco hoje trabalhar? Parece até um macumbeiro!". Aí vem o carnaval e você se torna legal: "Ivete sangalo é tudo de bom", "Vou passar meu carnaval em Salvador, de Abadá e tudo!" "Eu sou filho de Ghandi que nem o Gilberto Gil". Por fim vem o Reveillon: "Que seu ano novo seja lindo e próspero!", "Que roupa branca linda, é de qual grife?", "Vou fazer uma oferenda à minha Santa no Candomblé que um baiano me disse num bloco de carnaval de Cláudia Leite. Sabia que sou filha de Yemanjá?...E tantas outras mais atrocidades que ouvimos por aí.

É por essas e outras que devemos evitar fazer algo só porque está na moda. Façam o que gostam, independentemente dos que os outros possam pensar. Vistam o que tiver vontade, não se rendam a superstições ridículas. Quem faz a sua vida é você, e as coisas que te acontecem são pura e simplesmente consequências dos seus atos. Desejar o bem ao próximo deve ser sempre, e não só no Reveillon, assim como as benesses que você venha a fazer por sí próprio, não precisam esperar até o fim de ano. Se você é macumbeiro, cumpra seus rituais. Se você não é, não passe pelo ridículo de fazê-los só por fazê-los, ou porque os outros os fazem. É ofensivo e imoral. Este país precisa de gente de personalidade, e não de macaquinhos amestrados que repetem as coisas por pura necessidade de aceitação, ou porque as acha legal.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Peculiar Brasil Brasileiro.

Há muito tempo quero retratar o país em que vivo, suas nuances e defeitos, sem ufanismo ou a paixão que muitos escritores, como Gilberto Freyre, ousaram escrever. Sem mais delongas vamos a um mito constante, que muitos propagam por pura ignorância ou inocência, dizendo que o Brasil é esta nação atrasada por ter sido colonizada por portugueses e não por ingleses, como no caso dos E.U.A. Acreditar nisso é um erro, visto que muitas ex-colônias inglesas na África e Ásia sofrem do mesmo mal que o Brasil, ao estarem ainda categorizadas com nações em desenvolvimento. Promover que os portugueses em geral são agentes de atraso econômico é ignorar que, por exemplo, Portugal foi precursor em tecnologias básicas que perduram até os dias de hoje, e seu legado de pioneiros na expansão econômica mundial jamais será esquecido.

Há de se pontuar que ao Brasil vieram membros da corte portuguesa indesejados em sua origem, que vinham para cá como uma punição pelos seus serviços débeis à coroa. Entretanto, muita coisa ajudou o Brasil a se atrasar perante outras nações do norte, e dentre elas podemos listar a longevidade da escravidão como ponto pacífico. Durante os séculos XVII e XVIII, a revolução industrial enterrou de vez a escravidão ao implementar o trabalho pago como meio de engendrar o progresso ecônomico. A produção de manufaturas, mais caras que bens agrícolas, geravam mais lucros aos países produtores das mesmas, que no fim, geraram progresso. A manuntenção no Brasil, das fazendas e latifúndios, e a escolha do país por um cenário produtivo estritamente agrícola, condenaram, de certa forma, nossa nação a um futuro de periferia, e não de centro.

A escravocracia brasileira também gerou uma elite preguiçosa, indolente, que não se norteava no trabalho como meio de acumular riquezas e gerar riquezas para outros, um dos pilares do sucesso das nações desenvolvidas. Ora, do que adianta um indivíduo acumular riqueza se o mesmo não a divide com seus subalternos? Quem, enfim, irá comprar seus produtos senão os membros das classes mais baixas? Sem salários, estes mais pobres jamais poderão disseminar na economia seus ganhos, e terão, como calcanhar de aquiles, gerações após gerações de pobres sem poder de consumo, fazendo parte de uma massa falida que jamais trará progresso ao país, e sim, viverá de ajuda do Estado, um atraso que gera outro. A elite indolente, por outro lado, gerará no futuro, uma nação de ricos inúteis, com baixa capacidade de investimentos, também um atraso para a nação como um todo. Culpar o catolicismo pela imoralidade da elite não seria de todo errado, visto que a mesma protegia a escravocracia, e endossava este regime atrasado nas nações sob seus domínos.

Depois da abolição esta massa falida de negros e pobres foram jogadas na sociedade sem qualquer possibilidade de crescimento a qualquer prazo, o que cria, indubitavelmente, um protótipo de ser-humano que resistirá a algumas centenas de anos no cenário antropológico brasileiro. O negróide, que sofre misturas e mais misturas pela sanha sexual do branco europeu pelas ancas largas e grandes seios das negras da África setentrional que pra cá foram forçosamente trazidas. O índio, que houvera sido escravizado com insucesso anteriormente, também entra nesse caldo, por culpa também da perversão do homem europeu, mas em menor escala. Esta mistureba, a priori, gera um povo sem personalidade, sem noção de suas raízes, ou melhor, sem identidade. Por outro lado, isso afasta, em tese, os distúrbios raciais que tanto incomodaram países como os E.U.A.

Com a chegada dos imigrantes, advindos de várias partes do mundo, os membros da elite latifundiária brasileira tinham a vã esperança que uma nova safra de escravos estava por vir. Sim, a elite sentia falta da escravidão. Na cabeça deles era um lucro muito fácil, ter nos trabalhos de campo pessoas que trabalhavam em troca de moradia e comida. Mas não era tão simples assim, pois os imigrantes chegavam, em sua maioria da Europa, com maior conhecimento do trabalho assalariado, inspirados por teorias marxistas e weberianas. Ficava difícil escravizar um povo esclarecido, produto de um revolução industrial bem-sucedida na Europa. A imigração foi responsável pela profissionalização das relações de trabalho nos campos e nas cidades, já que neste período, a incipiente indústria brasileira começava a querer se desenvolver, apesar do domínio da cultura cafeeira. Ainda no século XIX, o Barão de Mauá havia, sem sucesso, tentado industrializar o Brasil ainda império, liderado por D. pedro II. Naquela ocasião, a pura idéia dos princípios ingleses de produção e trabalho assalariado assombrava a corte portuguesa, ainda presa à noção que trabalho era coisa de escravo. Mauá não obteve êxito algum.

A imigração trouxe muitos benefícios ao Brasil, permitindo a chegada de empreendedores, como os da família Matarazzo, de São Paulo, provenientes da Itália, que criaram um dos maiores conglomerados industriais do país naquele tempo. O Brasil imperial era retrógado, e a república era a esperança que as aspirações do Brasil poderiam ser maiores. Mas o que se viu foi a manutenção do latifúndio como alicerce da produção nacional, com suas variáveis conhecidas afetadas pelo clima, mão-de-obra e solo. Já estávamos no século XX e o país ainda tinha uma industria fraca, e governos que andavam de mãos dadas com os grandes fazendeiros da época, num jogo de interesses perverso, que atrasava a inclusão do Brasil na nova ordem mundial, a qual os americanos já gozavam há muito tempo, que era a invenção de tecnologias e patentes das mesmas.

As grandes invenções do mundo moderno surgiram nos E.U.A, Japão e Alemanha, e não por coincidência, estes países dominaram o cenário econômico mundial no século XX, cada um a seu tempo, apesar dos conflitos entre eles. Tais invenções geram lucros estupendos, suas patentes garantem royalties, e a riqueza dos países que as têm só tendeu a se multiplicar. Não havia de se esperar isso do Brasil, afinal de contas, estávamos nos preocupando em debulhar café, e torcer para o mercado de commodities externo não variar. Tolice a nossa achar que uma saca de café poderia competir, em termos de geração de riquezas, com a lâmpada, ou com o telefone. A indústria brasileira só se estabelece, enfim, na metade do século XX, quando num momento oportuno, após uma década do fim da II Guerra Mundial, Juscelino Kubitschek cria uma política industrial para o país. Durante a guerra, o Brasil se destacou ao fornecer borracha para os aliados, junto com café e minérios. Nem mesmo o aço, que na época deveria ser mais caro que ouro, ousamos oferecer aos deseperados aliados. Perdemos o trem do progresso de novo.

Com as crises da metade final do século XX, a escassez de tecnologias próprias, o enfraquecimento da industrialização e a manutenção de um regime militar retrógado, perdemos este emblemático século, e ficamos para trás. Não se pode entender o Brasil como país sem antes demonstrar os erros cometidos no passado, e a maneira como eles influem em nosso país atualmente. No cenário atual brasileiro, muito pode ser deduzido. Virou um país pluriracial, algo admirado por filosofóides, que ignoram a visão que os descendentes dos negros e indígenas, que cá viviam há centenas de anos atrás representa hoje a camada mais pobre da sociedade. Esquecem-se que os pardos, cafuzos, mulatos etc. são preteridos socialmente, e enriquecem o ciclo da pobreza no país, que condena gerações inteiras a viver numa situação de pobreza ad eternum. As periferias estão repletas de pessoas de cor mais escura, porque séculos atrás, seus descendentes foram jogados na rua sem a menor condição de sobrevivência, visto que os mesmos eram dependentes de seus senhores. Essas pessoas não foram educadas, foram ignoradas por governos após governos. Já os descendentes dos imigrantes, que representam uma camada menor da sociedade, puderam se educar e cresceram. É flagrante perceber que pessoas descendentes da "cesta" de imigrantes vindos para o Brasil gozam de sucesso maior em suas vidas, e vivem com mais dignidade.

No século XXI o Brasil tem ainda seus rastros daquele regime podre dos séculos passados, especialmente no Nordeste, onde as famílias descendentes dos grandes latinfundiários daquela região ainda gozam de poderes sobre o povo pobre e deseducado da região. No Sudeste, o insucesso das pessoas de mais baixa classe gerou revolta. É uma revolta diferente, nada comparada às revoluções de outrora. É a revolta da violência, especialmente cometida contra o próximo, mas que não tem nuances de racismo e sim de classismo. A falta de oportunidades ao pobre é a ferramenta que engendra a coragem para matar e morrer para demonstrar sua revolta pela situação em que vive. O país ainda vive do bem agrícola, da soja, da carne, do café. Apesar de ter uma indústria, a mesma padece de uma carga tributária perversa, fruto da incapacidade passada do Estado em prover o que há de mais básico ao seu cidadão. Com altos tributos, a indústria não investe, não produz, não emprega e não gera riqueza. A riqueza do campo ainda não consegue superar a riqueza da indústria, assim como há 300 anos atrás, e logo, o país não progride perante seus concorrentes. O Brasil é uma ilusão, seu povo é iludido, festeja quando deve temer. Temer por um futuro sombrio. Uma maioria esmagadora de pessoas que não vivem dignamente, não têm acesso a saúde digna, educação digna. É uma país de ignorantes, pessoas que têm seus sonhos destruídos pelo ensino público, lastreados por professores infelizes e mal-pagos. Pessoas que não sabem lidar com o crédito e são escravizadas pelo sistema bancário. Pessoas que não poupam ou investem porque não têm reserva de uma renda já pequena demais. É um país que esmaga empreendedores, ao não fornecer crédito e usurpá-los com milhares de tributos e taxas. Este é o retrato da maioria.

Quem fica com aquela sensação de dúvida sobre o por quê de nosso país não ter se tornado os E.U.A do hemisfério sul, ou do por quê de não termos justiça social, ou até mesmo por que o brasileiro é tão corrupto e o Estado é tão ineficiente não pode, jamais, culpar os coitados portugueses, e seu estilo de vida. Deve sim, olhar-se ao espelho e perceber, independentemente de sua origem, aonde você, cidadão, mais falha perante sua sociedade. Verá, portanto, que você é a doença de sua nação. Você com seu jeito malemolente do jeitinho, da trairagem, do egoísmo sem fronteiras. Este é o brasileiro, você é um brasileiro. Este país é a sua cara.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Goza Isabel!

Qualquer semelhança ou coincidência com esta humilde crônica é digna de vergonha. É tudo ficção, leitores. Ou não?



Isabel era uma mulher, uma fêmeazinha, uma doce criatura habitante da cidade do interior de qualquer estado deste país. Criada sob padrões rígidos, por um homem indigno e por uma mulher sem qualidades, sua mãe. Sua infância foi cercada por desejos insaciados, educação estudantil torpe e deficiência afetiva. Sua mãe, Paulina, era uma senhora muito religiosa, filha de imigrantes espanhóis, mas com uma pobreza espiritual sem igual. Esta mulher era sofrida, havia sofrido abusos psicológicos e sexuais, havia, portanto, se tornado uma criatura vazia, sem expressão. Seu pai, Francisco, era um jogador e bêbado inveterado. Tinha origens bem brasileiras, era um mestiço. Havia sido criado em orfanato, e seu rosto, marcado pelas mazelas do álcool e pela lida diária na Companhia Açucareira, por sóis e mais sóis a pino, havia lhe deixado sem auto-estima que fosse. Sua alegria era jogar. Não interessava o jogo: Bicho, dados, sinuca...tudo era um motivo para apostar. Quando perdia, bebia. Quando bebia, agredia.

Neste ambiente, Isabel dividia um quarto na humilde casa com três irmãs, todas mais velhas. Isabel era a caçula. Havia um rumor na cidade que as irmãs de Isabel se prostituiam na cidade vizinha, ao menos elas viviam como rainhas. Era fascinante vê-las sempre com roupas diferentes, Lingeries insinuantes e perfumes exóticos. Para Isabel, que não detinha qualquer maldade, a prostituição era a redenção de uma mulher, pois as tornavam menos igual a sua mãe. Francisco já havia perdido qualquer esperança de casar estas três jovens "cortesãs", e simplesmente ignorava o que as mesmas faziam em outra cidade. Sua saúde já não o permitia ter a mesma autoridade de outrora. Para Paulina, não fazia a menor diferença, contanto que suas amadas filhas voltassem para casa. Nesta época, Isabel era só uma pré-adolescente. Seus seios ainda não houveram se desenvolvido, seus quadris eram estreitos, e suas bonecas ainda lhe faziam companhia. Francisco dentinha o sonho latente de casar Isabel, como manda o figurino, e a preparou para isso. Queria salvar esta filha, tirá-la de uma vida de perversões e doenças venéreas, torná-la mais um cordeiro no rebanho de Deus, uma mulher que a sociedade pudesse se espelhar.

Numa quarta-feira bem cedo, Isabel acordou de um sonho delicioso que houvera tido com um rapaz um pouco mais velho, de sua escola. Jaime era estudante da oitava série, e sua impetuosidade deixava Isabel atiçada. Seu sonho havia sido passional, e Jaime a beijava como faziam os artistas da televisão, mas num determinado momento, Jaime desceu suas mãos para sua delicadas coxas e, ainda sonhando, Isabel sentiu aquele calor entre as pernas. Ela acordou. Suas irmãs ainda dormiam, enquanto Isabel ainda detinha a sensação de ter sido tocada pela primeira vez por um homem. Ela se levantou, e foi até um espelho, de frente à sua cama, onde suas belas irmãs se penteavam e se perfumavam. Mexeu nos cabelos, fez pose, caras, bocas, passou um pouco de perfume. Usou um pouco do batom da irmã. Estava linda! Pensou que seria assim que poderia fazer Jaime prestar atenção em sua figura ainda pueril. Suas irmãs eram mulheres curvilíneas, na flor da idade, tinham seios e quadris volumosos. Francisco levantou para trabalhar, e como sempre foi pedindo seu gole de café matinal a Paulina, ordenando que se levantasse logo. Isabel, assustada, limpou o batom com pressa, e saiu correndo para ajudar a mãe a preparar o café. Paulina rezava sempre que acordava, isso deixava Francisco louco de raiva pela demora na sua pequena dose de cafeína pré-labuta.

Naquele dia, na escola, Isabel não parava de prestar atenção em Jaime e suas atitudes. Seus ombros eram largos, seus olhos marcantes e escuros, era um líder nato, todos o ouviam. Havia um rumor que Jaime não ligava para a bronca dos professores, os enfrentava! E isso causava suspiros em Isabel. Ao fim da escola, sempre que chegava em casa, Isabel passava a roupa das irmãs, em troca de alguns afagos que não obtinha da mãe e algumas moedas que sempre lhe valiam uma pamonha bem gostosa, ou pacote de balas. Ao observar as irmãs se arrumando para as suas noitadas diárias, percebeu que as mesmas planejavam enlouquecer os homens naquela noite. Quilos de maquiagem, litros de perfume, calcinhas pequenas, e vestidos sem sutiã. Isabel percebia aquilo como uma aula de sedução a qual iria aplicar um dia para conquistar Jaime. Não foi suficiente observar, Isabel queria segui-las, queria ver como falavam, o que faziam, o que tanto ofereciam que deixavam os homens loucos.

A noite estava quente e calma, e Isabel partiu em sua jornada pelo aprendizado. Adentrou o único ônibus que levava aos limites da cidade, sem que as irmãs percebessem, sentou bem atrás, sob os olhares de mulheres que não entendiam o que uma moça tão nova iria fazer naquela cidade proibida. Ao chegar, as meninas desceram, e Isabel foi logo atrás. Era uma caminhada longa até o American Bar & Drink´s onde as irmãs de Isabel "trabalhavam", e lá chegaram depois de meia-hora andando. Isabel estava cansada, mas era tarde demais para voltar. O American era um zonão como os de qualquer cidade de interior, luz roxa na parte interna, uma Jukebox tocando bem alta, e um bar constituído de um balcão, um copeiro, e estantes de bebidas. O copeiro era um caboclo bem miúdo mesmo, daqueles que sobem no banquinho até pra mijar, e achou estranho uma movimentação na janela próxima a porta do local. Entre homens que saíam e entravam, viu uma cabeça com dois olhinhos espiando pelo lado inferior da janela. Ele não perdeu tempo, e foi ver o que era. Pensou ser algum menino sem-vergonha se manipulando observando as moças dançando na pista, e tratou de correr para espantá-los. Isabel se assustou, mas se manteve parada até que ele chegou. Espantado, o copeiro não entendeu nada e perguntou o que a menina fazia alí. Chegou a cogitar se era filha de alguém no local. Isabel nada disse. Engoliu seco, deu uns passos para trás e caiu por causa de um caixote que estava atrás de sí. O copeiro ajudou-a, e pediu que ficasse calma. Alí não era lugar para crianças, ele disse, vá embora! Isabel obedeceu, mas não pôde deixar de perceber que suas irmãs estavam alí, dançando com homens escrotos, peludos, bêbados e maltrapilhos. Eram esses os homens que minhas irmãs planejavam enlouquecer? Pensou Isabel. Ao voltar para casa, percebeu o erro que cometera.

Já era muito tarde e Francisco chorava de desespero pela sua amada filha. Aonde estará Isabel? Disse ele. Paulina concentrava-se em seus afazeres, e não dizia nada. Francisco pensou ter sido uma vingança de um homem muito ruim, Galo-Cego, apelido conquistado pelo seu ferimento no olho direito causado por um bandido na época que era policial carabineiro. Sua aposentadoria forçada o fez se tornar um contraventor, um agente do jogo ilegal. Ele coletava apostas e cobrava, com crueldade de vez em quando, e não poupava esforços para receber. Francisco devia a Galo-Cego algum dinheiro, e seu desepero era uma retaliação do mesmo à sua família pela dívida. Francisco remexeu na gaveta da cozinha e alcançou um punhal, disse então a Paulina que iria rodear a cidade em busca de Galo-Cego e encontrar sua filha. Paulina demonstrou um pouco de medo, mas não impediu seu marido de fazer o que queria. Era da sua natureza ser passiva. Quando estava por sair, Francisco dá de cara com Isabel. Sua raiva foi maior que a preocupação que houvera sentido, e tratou de surrá-la, sem perguntar o por quê de seu repentino desaparecimento. Aquela surra jamais abandonaria a cabeça de Isabel, e suas marcas a perseguirão para o resto da vida.

Isabel se tornou uma mulher linda. Seu corpo tomou formas deliciosamente femininas, e seu rosto era digno de uma boneca. Francisco havia falecido de cirrose há um tempo, e seu legado houvera sido as dívidas de jogo, ainda cobradas por muitos, inclusive por Galo-Cego. Parte das mesmas foram pagas por favores sexuais pelas irmãs de Isabel aos credores, mas só isso não era o suficiente. Paulina agora costurava pra fora como meio de sustento, e suas filhas, antes egoístas, agora contribuíam com a casa, ajudando a todos. Isabel não ficava de fora, e também arranjou um emprego. Já havia tomado nojo da prostituição há muito, e trabalhava numa mercearia da cidade como caixa. O salário não era grandes coisas, mas ajudava muito. Seu patrão também pagava com mantimentos e tecidos, algo muito pertinente para aquela família de mulheres naquele momento. Galo-Cego não se continha, e volta e meia tomava algum dinheiro de Paulina, dizendo estar abatendo parte das dívidas de Francisco, mas aquilo parecia não ter fim. Numa tarde de domingo, estavam todos em casa quando Galo chegou à porta dizendo querer mais alguns tostões devidos. Paulina como sempre disse que estava dura, não estava trabalhando muito, e já havia lhe pago muito dinheiro. Galo não prestou atenção. Estava com seu único olho bom a mirar em Isabela. Pensou ser uma amiga de alguém no recinto, e foi logo adentrando e se apresentando. Mal sabia ele que era a pequena caçula de Francisco, que havia se tornado uma mulher linda. Quando Isabel disse ser quem era, Galo espantou-se. Mal podia acreditar que aquela menina maltrapilha era Isabel, e tratou de se desculpar. Parecia ter visto um fantasma, e saiu dalí como um raio.

Num dia frio qualquer , Galo vai até o trabalho de Isabel e finge querer comprar umas coisas. Leva um maço de cigarros, um garrafa de cachaça e uns pães. Isabel recebe o dinheiro, mas uma mão segura a sua. Galo lhe aperta a delicada mão com carinho e diz que precisa lhe falar. Isabel já diz logo que não tinha dinheiro, há dias não recebia um tostão de seu patrão, mas Galo queria outra coisa. Disse que queria namorá-la, que perdoaria todas as dívidas de seu falecido pai se pudesse tê-la, namorá-la. Isabel ficou chocada, sua pele do rosto ficou rubra, negou veementemente a proposta e pediu que Galo fosse embora. Ele foi. Naquela noite, Isabel comentou com sua família o ocorrido. Todas ficaram ofendidas! Como que um aleijo daqueles, um calhorda, teria a coragem de flertar com nossa pequena Isabel, disse uma das irmãs. Paulina parecia não ter se chocado tanto. Disse que era algo a se pensar, e como mãe teria o direito de entregar a mão da sua filha a um homem que fosse sustentá-la. Isabel ainda lembrava de Jaime, o homem que sempre sonhou, mas ele já houvera ido para a capital há muito tempo. Tinha se tornado Deputado Estadual, um dos mais jovens do Estado, fruto de sua impetuosidade nata. Apesar dos pesares, Isabel não discordou da mãe, mas sua infelicidade com tudo aquilo já era visível.

Depois de muito ponderarem a família e Isabel decidiram dar uma chance a Galo, e o mesmo começou a fazer suas visitas, sempre trazendo um agrado de qualquer espécie a Isabel e à família. Levava Isabel ao cinema, para tomar sorvete, andar à cavalo, para fazer longas caminhadas ao luar. Galo já era bem velho, tinha uns 45 anos ou mais, e fisicamente se assemelhava mais a um refugo de guerra do que um homem. Não demorou muito, os dois se casaram e constituíram família. Isabel teve um casal de filhos. Galo recebia uma ótima aposentadoria da polícia, e há tempos havia deixado a vida de jogador e agiota. Ainda assim, havia dignidade naquele casamento, um certo desconforto pela diferença de idade, mas uma alegria pelos filhos saudáveis e pela vida mais confortável. Isabel cuidava da casa e dos filhos, seu corpo havia se mantido perfeito, mesmo após dois filhos, porém Galo não era homem de poder, fisicamente, manter ereções que pudessem fazer jus àquela mulher. Isabel nunca havia gozado. Nem pensava o que seria aquilo. Havia casado virgem, e achava que sua vagina era mais ou menos um orgão reprodutor, e não um instrumento de prazer.

Com o passar dos anos, Galo se adoentou, seu nome real era Marcos. Isabel se manteve a mesma por anos a fio em que Galo definhava pelos cantos e cama. Sua morte demorava a chegar. Os meninos já estavam bem criados, e estudavam numa escola católica na capital. Só vinham aos fins de semana visitar os pais. Numa noite em que Isabel desabou de cansaço, após idas e vindas ao hospital e farmacia com Galo, seu sonho de menina bateu em seu inconsciente numa mistura de amor e tesão. Ela sonhava que estava nos braços de Jaime, e que seu toque havia se tornado mais sexual. O cérebro mais maduro de Isabel já permitia deixar, inconscientemente, que Jaime fosse mais audacioso em suas ações. Ele tocava as partes internas de suas coxas, apertava suas ancas, e beijava seus seios com sofreguidão. Isabel acordou. Era Galo, gemendo com seus rins latejando de insuficiência. Ela amava, de certo modo, aquele homem e não queria que morresse. Algo dentro si, entretanto, pedia para que aquele sofrimento terminasse. Galo já era um sexagenário, e suas expectativas já haviam terminado há muito tempo. Aquele sonho tinha, mais uma vez, atordoado Isabel e ela demorou a reagir. Galo deu uma última estribuchada e gemido, e seu calou. Isabel somente observou. Em sua mente não havia mais motivo para cuidados, era um sinal que aquele homem tinha morrido, assim como seu pai. No velório, Isabel chorou, e se culpou por não ter feito nada que pudesse dar pelo menos mais algumas horas de vida àquele homem convalescente. Lembrou-se daquela surra que levou do pai, e pediu que o mesmo estivesse vivo para que pudesse surrá-la de novo. Não se entendia como uma mulher boa, digna de um bom marido e filhos. Queria ter ido junto com Galo.

Isabel ficou só, seus filhos continuaram na capital, sua mãe falecera logo após seu marido Galo, e suas irmãs, que sempre foram solteiras, já não eram mais putas. A vida havia mudado muito, e Isabel pediu que as irmãs morassem com ela. Venderam a casa do pai, e assim o fizeram. Eram uma família, de novo. Aos quase 35 anos, Isabel ainda não sabia o que era sexo pleno, não havia experimentado nada de prazeiroso na vida e isso a deprimia, por alguma razão. Ao passar pelo espelho que foi de sua mãe, barroco, dourado que ficava em seu quarto, ao sair do banho, notou seu corpo. Lembrou de quando era uma menina e se maquiou e se perfumou pela primeira vez. Queria chamar a atenção de um menino, e isso a motivou. Nunca havia reparado em seu corpo depois de adulta. Sentou em frente ao espelho e abriu suas pernas. Pela primeira vez olhou seu sexo. O tocou. Estava úmido. Tocou em seus seios, não como um médico, ou um homem, mas delicadamente, como queria ser tocada. Pensou na maneira que havia sido tocada em seus sonhos, e tentou repetir. Suas mãos percorriam seu corpo, e seu prazer foi aumentando. Após um pequeno momento, sentiu-se tonta e com espasmos no ventre. Era um orgasmo. Atordoada, Isabel levanta-se, se enrola na toalha, e chora, como uma menina.

Aquilo era novo e inesperado. Uma reação que havia sido ótima, mas assustadora. Isabel não iria comentar sobre aquilo, mas depois de pensar muito, pensou em repetir. Ela o fez. E gozou de novo em todas as vezes. Sua curiosidade feminina atiçou-a, e mesma começou a pensar como seria sentir isso com um homem, um parceiro. Será que seria vista como uma mulher da vida, uma pária, uma qualquer se agisse desta forma com um homem? O que ele pensaria dela? As dúvidas estouravam em sua cabeça, assim como na sua adolescência. Numa manhã fria de Abril, Isabel foi até a rodoviária receber os filhos que haviam chegado da capital. Os dois já eram adolescentes e sempre que chegavam, a família fazia uma festa. Isabel esperou, e eles não chegavam. O ônibus já estava atrasado passava de uma hora. Ao se informar, soube que o atraso era por causa de um acidente na estrada, mas que em breve estariam chegando. Enquanto esperava, um olhar insistiu em perseguir Isabel pelo terminal. uma mulher sabe quando está sendo observada e ela ficou intrigada. Era um homem tomando café, de terno, na lanchonete. Ele insistia em olhar Isabel como um lobo faminto. Por um momento, ela pensou em mudar de lugar, mas algo a prendia. Era um homem novo ainda, por volta dos 28 anos. Tinha um rosto jovem, era alto, e estava bem elegante. Inconscientemente, Isabel foi até a lanchonete, e pediu um chá, sendo prontamente atendida. O homem continuava a olhar. Ela não se conteve e bem grossa questionou o rapaz sobre o que tanto ele a olhava. Ele, cortês, respondeu que estava atônito pela beleza dela, que seu corpo era escultural e poético, e que só um cego não a observaria. Tudo isso com olhos vidrados no rosto de Isabel. Suas pernas tremeram. Era a primeira vez que um homem atraente a cortejava. Aquilo era deliciosamente proibido. Como ela estava sem palavras, ele deu um sorriso e disse que estava de saída, mas que estava sempre na cidade. Deu seu cartão, era um advogado da Cia Açucareira. Jorge era seu nome. Logo após chegou o ônibus com seus filhos e Isabel se recompôs. Jorge já havia pago pelo chá de Isabel e seu café e aguardava para entrar no seu ônibus, sempre de olhos fixos nela. Embarcou e se foi. Ela nunca contactou-o.

Isabel é uma mulher, como tantas outras, que renegou ou teve renegado o direito de ser mulher plena. Sua vida dalí em diante foi sexualmente plena, e isso preencheu o grande vazio que teve em sua vida. Da visão podre da sociedade masculina que teve ao deparar-se com as irmãs na zona do meretrício, até o momento onde descobre seu prazer de viver, e se sente mulher desejada, muito se passou. As Isabéis da vida que temem provar o que há melhor morrem tristes, deprimidas, incompletas. Ser mulher é ser também casta sim, mas é saber que o prazer não é pecado. Ter um parceiro e não ser casada não é sinônimo de perversão. Ser casada e querer ser desejada também não. Quero que Isabel goze, quero que as mulheres gozem. Quero sejam felizes por serem sagradas, que se libertem das amarras da sociedade católica. Poder apreciar cada centímetro do que há de bom e de ruim em vocês. Queria que Isabel fosse uma espécie em extinção.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Falácia do Perdão

Tenho asco de conceitos religiosos. Muitos deles já estão batidos na louca sociedade atual, e precisam urgentemente ser renovados para que a religião não se torne ultrapassada na sua prática pela humanidade. Mas não é de religião que quero falar aqui, e sim da sua verdade universal mais propagada pelas nossas imundas bocas: O perdão. Ser um exercício divino não o exime de ser uma tortura. O perdão está inversamente ligado ao orgulho, um dos nossos traços mais marcantes. A igreja Católica o venera, o impõe e os fiéis fingem que o praticam. Sim, estou falando que são todos mentirosos aqueles que dizem que perdoam, e fazem como no famoso dito popular: "vamos por uma pedra em cima disso tudo?". Balela. O povo é cínico pra burro, citando Nelson Rodrigues.

O perdão está além das nossas capacidades limitadas de ser-humano pós primata. Costumo pensar que a religião está aí para nos ensinar algo que nunca seremos ou colocaremos em prática. Ainda assim existem indivíduos que acreditam completamente que perdoaram seus desafetos, e vão conseguir conviver, enfim, com um sentimento de bem-estar consigo próprio e com Deus. Acreditem no quiser, eu não acredito na raça humana. No fim, a pessoa que "perdoa" jamais deixará o perdoado esquecer seus erros, jamais deixará de lembrá-lo que um dia o "creditou" de uma possível segunda chance. Até nesse momento, o orgulho de quem perdoa está em ação.

A característica mais marcante de quem perdoa é o seu ego descabido. É como um antigo Imperador romano, acima do bem e do mal, que tem a vida de um reles qualquer em suas mãos. O ato de levantar o dedo para perdoar e abaixá-lo para condenar é um ato de puro ego, onde o mesmo, ao perdoar, se sente absolvido pelo perdoado. Sim, o ato do perdão é um ato egoísta. Ora, chegamos a duas conclusões interessantes: Quem perdoa mente e quem perdoa pensa em sí próprio. Não se esqueçam, estamos falando de um conceito religioso.

Como podem mortais como eu e você perdoarmos alguém se temos defeitos mais terríveis que qualquer mal que possamos ter feito um ao outro? Isso é capcioso porque lida com um grande paradoxo. O perdão está para a índole humana assim como a escrita está para um cão. Não temos pureza o suficiente para relevarmos erros alheios porque estamos repletos de erros próprios. Não conheço e acredito que não conhecerei ninguém iluminado o suficiente para sair por aí perdoando os erros da humanidade. O ato de cinismo ao dizer eu te perdoo é tão latente que me faz analisar alternativas mais condizentes ao nosso patamar de evolução. Ao invés de dizer eu te perdoo, você pode dizer: - Sou tão ruim ou pior do que você, não sou ninguém para te perdoar, mas sei que nunca mais quero olhar nessa sua cara. Isso sim é justo! Ser real, verdadeiro, e dizer aquilo que sente. Agora, falar simplesmente eu te perdoo é mentir, pura e simplesmente, para você próprio e para a outra pessoa.

O perdão é uma das grandes mentiras perpetuadas pelo ser-humano de tempos em tempos para justificar os seus erros. É muito mais fácil tentar não errar, e se for errar, estar preparado para as consequências. Quem perdoa mente, e quem aceita o perdão sabe disso.