sexta-feira, 19 de março de 2010

Mais Um Dia Brasileiro.

Sempre falei da psiquê do brasileiro por aqui, das idiotices e contrasensos inerentes ao mesmo no seu comportamento perante a sociedade. São coisas de um povo que ainda está em evolução, muito jovem ainda para aceitar os termos de uma civilização moderna como educação, cordialidade, honestidade e senso de comunidade. Ainda chegamos lá.

Por exemplo, ao retirar meu carro de uma vaga de estacionamento por aí, me deparei com uma situação corriqueira, mas que demonstra essa qualidade de cidadão. Olhei para a parte frontal do meu veículo, mais precisamente o parachoques, e vi um afundamento. Naturalmente olhei para o veículo da frente, e percebi que o mesmo carregava um apêndice em sua traseira, mais conhecido como "engate". Aquela bola de aço, envolvida por uma proteção de mesmo material foi a causadora daquele estrago no meu veículo. Dadas as coincidências de altura e o encaixe perfeito da mesma no meu estrago, conclui que aquele veículo havia feito uma manobra de estacionamento que me causara aquilo. Puro descaso. Analisando a fundo, comecei a pensar que aquele motorista poderia ter que puxar alguma coisa, como um barco ou um carrinho de pastel, por isso necessitava daquele item em seu veículo. Depois ponderei de outra forma, quero dizer, existem milhares de veículos por aí usando este acessório, né? Seriam os brasileiros então devotos da arte de rebocar coisas com seus carros? Não, sempre que os vejo por aí dirigindo, só vejo o engate puxando nada mais do que ar. Concluo que seja pura e simplesmente uma questão de egoísmo intrinsicamente nacional. Na verdade, o brasileirinho quer manobrar seu carro, sem se preocupar com quem está atrás, e não danificar seu próprio parachoques traseiro. Ou seja, a famosa frase da lei Gersoniana: Levarei vantagem em tudo! Ou melhor, vou ver o meu lado. Você que se dane, eu vou dar marcha à ré!

Definitivamente, este país não é para otários que nem eu. Depois disso, acho que não resta mais nada em se tratando de carros. Podemos fazer como no filme "Mad Max", lembram? Colocar aqueles espinhos, correntes, metralhadoras etc. nos carros e sair por aí preparados para danificar o bem dos outros, mantendo os nossos intactos. Mas não termina por aí. Um cara de engate estava na minha frente num engarrafamento daqueles bons em SP capital. Ao que pude perceber, o mesmo tomava um líquido refrescante naquele dia calorento. Terminou de tomar, e não se fez de rogado: jogou a garrafa do tipo PET pela janela, aterrissando a mesma no canteiro central, a uns dois metros de um bueiro. Meu sorriso irônico não foi maior do que a vontade de ver aquele ser, à minha frente, entrar em autocombustão e queimar até a morte. Pensei comigo: Este é o mesmo canalha que, quando cai um temporal em SP, enfrenta uma enchente de matar até rato afogado, e sai reclamando do poder público, dizendo ser vítima do descaso governamental com a população. É - pensei - ele tem um engate, pode muito bem decorar a cidade com garrafas PET pelas ruas. Provavelmente, depois de ter tomado todo aquele líquido, deve ter sentido vontade de urinar. Ora, para que segurar? Mija na rua mesmo. Urinar na rua ainda é um esporte dos mais praticados pelos brasileiros, seja em época de festas, ou no dia a dia mesmo, quando têm vontade.

De longe vejo um motoqueiro pelo meu retrovisor. Ouço o barulho da buzina, agudo e estridente já por um tempo. Ele passa do meu lado e, com um chute certeiro, me destrói o retrovisor direito do veículo. Atrás, vem uma outra leva de motoqueiros e, buzinando, passam por cima do meu já esfolado retrovisor, num certo tom de vitória, ou até escarnio. Pensei, o que teria eu feito, aqui parado no tráfego, para merecer uma ato de violência tão extremo assim? Ah, sim. Meu carro estava um pouco a direita, com as rodas quase que por cima da faixa onde os mesmos trafegam, ilegalmente. Não poderia tirar satisfações, a moto já havia sumido há muito. Não poderia consertar aquilo na hora, a peça estava condenada. O que fazer? Nada. Sentar e esperar o tráfego andar. Claro, não esquecendo de analisar aquele rapaz, e sua fúria sobre duas rodas. Seria tão necessária assim a atitude impensada de danificar o bem alheio? Que tipo de lição ele queria me ensinar? Teria ele tido satisfação ao fazer isso? Não era para tanto, ele era só mais um brasileiro. O atentado contra o meu retrovisor talvez representasse toda a tristeza que um homem pode carregar em sua vida, ao trafegar num meio de transporte tão inseguro quanto uma moto. Ou na verdade foi só um meio de expressão de um aspirante a marginal. Seja qual fosse, a atitude foi bem peculiar, e ilustrativa do comportamento do nosso cidadão.

No fim daquele dia, olho para o lado, num semáforo. Um homem me pede esmola, com tremores pelo corpo, denotando um peculiar comportamento de quem está há muito tempo sem o objeto de seu vício. Ele está com uma criança, com não mais que 1 mês no colo. Me vejo numa situação complicada, se não dou o dinheiro, me condeno por estar negando algo benéfico para aquela famigerada criatura pequena. Se dou o dinheiro, igualmente me condeno por sustentar o vício de um homem que precisa de ajuda, e que não vai obtê-la se tiver dinheiro fácil nas mãos. O dilema me durou pouco, dei o dinheiro. Achei que estava me redimindo de meu próprio julgamento ao pedir a ele que fosse comprar roupas para a criança, e para que a tirasse daquele sol de fim de tarde. Doce ilusão a minha. Ele foi se drogar, e aquele bebê vai ficar, mais uma noite, ao relento. Não posso me queixar. Era só mais um brasileiro, e um pequeno brasileirinho, lutando para sobreviver num país onde a sociedade os ignora. Sim, nove em cada dez veículos daquela leva de semáforo não deram nada àquele individuo. Como brasileiro e crítico, acho que para nós, é mais fácil ignorar o problema do que tentar solucioná-lo, acusando o poder público por isso. Chegamos ao ponto de ficarmos tão cínicos, que na esquina seguinte já esquecemos do que vimos. Talvez chegamos em nossas casas, e até dormimos muito bem, com nossos filhos saudáveis e alegres.

Uma sucessão de infortúnios podem muito bem refletir o quanto este país precisa evoluir. Nossa histórica estupidez perante as mais sensíveis questões da nação é uma característica que segue latente, mas dá sinais que está melhorando. Não me vejo usufruindo do grau de evolução alcançado pelas nações européias ou asiáticas aqui no Brasil. É algo que demanda tempo, dedicação e comprometimento do próprio cidadão para com seus iguais. Aquela velha temática do levar vantagem em tudo tem que desaparecer da nossa personalidade. O vantajoso para todos é mais importante e deve prevalecer. É assim que se constrói uma nação. Temos que melhorar!

segunda-feira, 8 de março de 2010

As Minhas Mulheres. Nossas Mulheres. Parabéns.

Quando somos meninos nossa mãe é tudo. Pelo menos a minha foi pontual na minha infância. Me acalentava, me dava a segurança necessária para crescer. Era carinhosa, mas rígida. Sua mão pesada por vezes me açoitava, mas sempre com o viés de direcionar, e não agredir. Mas não é da relação mãe e filho que quero discorrer. Inicio desta forma pois é a primeira e eterna mulher que todo o homem terá em sua vida: sua mãe. Desta mulher parte todos os conceitos que formaremos sobre as outras mulheres, e delas para o mundo. É um mundo feminino, sem sombra de dúvida. Longe daquela babaquice pós-machista que apregoa contrasensos que elas dominam tudo no sentido de querer nos destruir. Não, elas são o nosso sustentáculo. Assim como as mulheres dos guerreiros curavam suas feridas de batalha, elas hoje nos provem o alívio de deixar o mundo mais belo, mais afável, e menos competitivo e duro.

Voltando à infância, me recordo dos primeiros exemplos de mulheres que me deixaram admirado. Além das coleguinhas das quais roubava pequenos beijos e saía correndo, rindo, tinha uma professora de História. Era linda, inteligente e me tratava com muito carinho. Acho que posso dizer que, na minha mente pueril, aquilo poderia ser um tipo de amor assexuado, admiração de soslaio, onde o que me fazia o dia era uma simples passada de mão em minha cabeça, que me desarrumasse os cabelos. Suspirava de alegria. Era uma mulher muito cheirosa, seu aroma impregnava a sala de aula com jasmim maduro, e sempre estava bem arrumada, à sua maneira, claro. Não esqueçamos que eram os meados da década de 1980, e a boa moda não era a tônica desta época.

Na adolescência as mulheres me eram vistas com menos apreço e mais avidez. Queria possuir todas. Eram os hormônios em ebulição. Apesar de não saber o que fazer com elas, de alguma forma, queria muito estar em conjunção carnal com alguma. Nem admirava beleza, nem trejeitos, aromas, inteligência, cordialidade, nada. Era pura vontade de acoitar um fêmea. Folheava revistas e mais revistas eróticas em busca do orgão perfeito, da bunda mais redonda, dos seios mais fartos e firmes. Não era nada como a geração Internet de hoje, certamente havia pouco a se mostrar e mais a se imaginar. É comum não se aproveitar muito a adolescência, perder-se nas necessidades imediatas e jamais usá-la como ponte para uma vida adulta saudável. Contudo, não fui o único, nem serei o último a objetificar mulheres durante esse tão confuso período. Nem me arrependo disso. Foi uma época estranha, ótimo que passou.

Passou e foi tarde. Na primeira metade da vida, como já escrevi por aqui, as mulheres ganham nova importância. Aprendê-las torna-se um desafio gostoso, desvendá-las é um prazeiroso quebra-cabeças de aventuras e desventuras. Amá-las é uma montanha-russa de sentimentos confusos, idas e vindas do céu ao inferno. As instabilidades femininas vão se tornando o maior atrativo delas, e os bons momentos quase sempre compensam as dificuldades de se compreender o universo feminino. De repente, aquela professora do passado volta. Admiro novamente aquelas qualidades que compõem o sexo oposto, os aromas, os leves trejeitos, o sorriso...me sinto novamente menino, ávido e curioso por um toque, sexual ou não. Permito-me admirar, antes de desejar, a delicadeza da aura feminina. Permito-me, também, querê-las em um segundo momento, nuas e vulneráveis, com curvas sólidas e sinuosas, onde minha mão percorra a pele aveludada como pêssego, que por dentro, esconde uma criatura capaz de sustentar o mundo com um sorriso, um choro, um gesto. Estamos aqui para protegê-las, para que elas nos salvem de nosso próprio senso de predação.

Neste 8 de março, saibamos louvá-las como criaturas sagradas que são. Mulher, a minha ou não, obrigado em nome dos homens em busca de salvação.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A Minha Verdade Sobre o Amor. E a Sua?

O amor é um produto vendido no varejo, na categoria de supérfluos, que não tem garantia e nem é aceita a devolução por defeito. A frase é hilária, e não digo isto porque a criei agora, sentado em frente ao micro, rindo de mim mesmo. Digo isto porque vejo tanta gente sofrendo de amor, que me senti quase na obrigação de compará-lo a um ato comercial. Bukowski dizia que amor era um cão dos diabos. Como romancista maldito e Beatnik, esta definição era essencialmente sua, e dava contornos infernais a este sentimento pouco explicável. Chico Buarque, no entanto, dizia do amor um verso: O amor jamais foi um sonho. Do amor já provei. É um veneno medonho. Não poderia ser mais ácida esta definição.

Mas qual é o sentido de tudo isto? Por quê devemos ou queremos amar, apesar de tanto sermos machucados por este sentimento especial? É algo surreal, mas tem a ver com o masoquismo puro. Não estou falando do amor familiar, do amor pelo seu cãozinho, ou por um bem material. Estou falando do amor advindo da paixão, o amor de filme, aquele vendido para nós já há uns cem anos. O masoquismo é latente ao se sentir amor. É abdicar do orgulho em troca da recíproca do sentimento, que quase nunca vem em proporções iguais. Sempre ocorre de um amar mais o outro que o contrário. O indivíduo se desdobra em carinhos, afetos, ações e gestos pelo outro esperando algo em troca, e quando isto não ocorre vem a desilusão. O masoquista não desiste, e parte para a busca incessante pela aceitação do outro, que começa, da sua parte, a tomar contornos de sádico. Sim, para todo o masoquista existe um sádico, e vice-versa. Quando estas duas nuances da raça humana se encontram, aí a chama queima incessantemente. Ocorre o pertinente encontro dos opostos, aqueles que se atraem. Então, num amor perfeito, temos um sádico e um masoquista juntos? Sim, mas há outras conclusões, pois somos complexos demais para nos encaixarmos numa só forma de amor.

O amor é Ego. Quando esperamos algo em troca de alguém, queremos na verdade fazer algo para nós mesmos. Estamos somente pensando em nosso bem estar. É como uma decisão política que trará bons frutos no futuro. Você abdica de tudo aquilo que te faz feliz, da sua individualidade, personalidade e até mesmo pessoas queridas, para apostar numa vida a dois. Isso é entrega? É altruísmo? Não, puro egoísmo. Se a outra pessoa não faz o mesmo por você, a coisa toda desanda. Em ambos os casos existem exceções, mas estou falando da maioria. Se alguém tem algo a questionar sobre isto, dizendo que o amor é lindo e que eu sou amargo, pergunto: Por quê há tantas mais canções, poemas e literatura em geral de amores desfeitos que de amores bem-sucedidos? É claro que há muito mais desilusão em se amar que felicidade propriamente dita. Por isso o masoquismo-egocêntrico e o sadismo são componentes fortíssimos numa relação a dois.

Muitos destes sentimentos e atos altruístas nossos estão ligados ao nosso próprio egoísmo. Pouco disso é realmente um sacerdócio da nossa parte, e merece alguma forma de Ode. Perdão, amor, caridade e igualdade são coisas fabricadas pela sociedade para que o praticante destas "artes' se sinta melhor sobre ele próprio. Quem nunca deu um prato de comida a um desvalido e saiu com aquele sorriso de quem ganhou uma vaga no "céu" depois daquilo? Isso é puro egoísmo e cinismo. É a mesma prática do amor descrita acima, e do perdão, abordada em outro texto. Você só o faz porque espera algo de melhor em troca. É como uma poupança, onde se abre mão do consumo de hoje, para se consumir amanhã. Qual é a diferença? Nenhuma, somente trocam-se os períodos. Por quê eu te perdoo? Para que você não me deseje mal. Por quê te amo? Para que você me ame também. Por quê te ajudo? Para ficar "bem na foto" com o homem lá de cima, ou para você me ajudar também um dia. Por quê te trato como um igual? Porque quero que você me trate como um igual também. Percebem a recíproca? Pois quase nunca ela é verdadeira. No fim, você estende a sua mão, e quase sempre, na maioria das vezes, te cospem nela.

Sádicos, masoquistas, egoístas e pseudoreligiosos: Amar é propagar um mito, uma falácia de que todos amam a todos. Mentira. Amamos somente a nós mesmos, e reforçamos isto no nosso semelhante. Amamos o que nos é conveniente. Amor é comercio, é vendido. Quem compra, sempre se arrepende. Amor na verdade é sexo, é tesão pelo parceiro, é a conjuminação de fatores que te levam a sentir uma atração sem limites pela outra pessoa, independentemente se ela sente a mesma coisa, mas não é abrir mão de tudo. É que muita gente foi enganada pelo mito de São Valentim, ou pelo cinema e seu amor de beijo enquadrado pela câmera, em lenta aproximação e com infinita sofreguidão. Ou por aquele beijo de novela "fake", onde um dos atores provavelmente é homossexual, mas faz o telespectador acreditar no seu amor de estúdio, no seu beijo e sexo viril. Mania chata que a gente tem de romantizar tudo. Deve ser porque sabemos que na verdade, é tudo bobagem.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Carnaval, O Solitário e O Maluco

Ontem, como sempre fiz, ao acabarem os noticiários noturnos, desliguei a televisão e abri um livro qualquer de minha escolha para me fazer companhia pelo resto da noite. Era "O Viajante Solitário" por Jack Kerouac. Uma obra prima descrita por um homem que prezou sua liberdade até os últimos minutos de sua vida. Um vagabundo iluminado, como se autoproclamava, ele percorreu as mais insólitas viagens pelo mundo em busca de autoconhecimento e compreensão da realidade em que vivia. Isso foi nas décadas de 1940 e 1950. O mundo era diferente, as coisas eram diferentes. Descobertas assim são mais difíceis hoje porque nos preocupamos demais em nos socializarmos a qualquer custo, e esquecemos a grande virtude do estar só, do silêncio absoluto, do contato com seu Deus, seja qual for, e sua resposta mais divina: O mesmo e famigerado silêncio. Eu tenho pena dos homens de hoje, eu não os odeio, e não os amo. Apenas tenho pena. São incapazes de por a cabeça sob a relva e observar o céu, de ouvir uma queda d´agua, de observar, tão somente, sem se entediar e ligar a porra de um celular. É uma maldita alma plugada em algum instrumento de vício.

Não se pode só falar sobre isso. Às 23 horas, terminei meu livro e me aprontei para a cama. Procurei um velho DVD para assistir (eu também sou escravo dessas coisas), optei por dar uma chance ao "congelado" televisor, ou LCD, ou seja lá como queiram chamar-Carnaval- Chegamos ao Carnaval. Havia me esquecido disso, talvez por não acompanhar com tanta assiduidade os meios de comunicação, por não ter visto a Mulata "Globeleza" requebrar-se como uma cobra eletrocutada como em outras oportunidades, ou por não ouvir alguns cretinos dizerem que irão para Salvador, sem razão alguma, para ser um "folião", ou um beijador no meio de outros cretinos, mijões, beberrões e farristas. No noticiário, claro, vemos que está chegando. Sempre há uma reportagem sobre as ruas de Olinda, os Trios Elétricos de Salvador, os blocos no Rio, Minas, São Paulo etc...Que falha tremenda a minha, não perceber a aproximação da festa mais sensual do ano. Lembrando-me daquelas vezes em sentava junto a meu pai para assisitir aquele festival de genitálias e seios expostos. Era muito bom. Pouco sabia sobre a evolução da bateria, sobre o enredo, ou se havia muitas plumas e paetês nos carros alegóricos. Eu me hipnotizava com aquelas Deusas de ébano das favelas locais, ou pseudoatrizes de merda da televisão requebrando seus maravilhosos corpos naquela tela de vinte polegadas da minha velha TV. Que ótimo, existe algo que me marcou nestes últimos quase trinta anos de carnaval: A beleza das passistas. Me faz até esquecer da grande babaquice e oportunidade de autopromoção que o carnaval se tornou nos últimos anos. Tem gente dando tudo que pode ao cirurgião plástico pra não fazer feio nas passarelas pelo Brasil. Tem que se respeitar muito essa gente. Para elas o Carnaval virou puro business, que exige investimento em troca de ensaios em revistas, entrevistas, papéis em folhetins de merda na televisão. É, pensei demais. Fui dormir.

Todavia, nem tudo é crítica. Temos um período para descansar, e se você for esperto o suficiente pode se afastar desta "Sodoma e Gomorra" moderna e estender seus pensamentos, colocando-os em dia. Afinal de contas, é um feriado, não? Ser solitário tem suas vantagens. Permitam-se o silêncio, dêem-se tempo para pensar, entenderem seu semelhante e seus defeitos, entender seus próprios defeitos. Só o silêncio dá esta oportunidade. Hoje em dia o silêncio é escasso, e toda a oportunidade de tê-lo é uma dádiva, e quem o busca não deve ser conotado de modo algum. Certa vez me disseram que levo jeito pra maluco. Não me senti ofendido, pois o maluco referido nada mais seria do que um introspectivo Ser, uma pessoa que não socializa mais por socializar. Alguém que busca refúgio em sua própria mente não pode ser um pária. Tenho amigos, tenho pessoas que de mim têm de tudo que possa dar. Afeto é a minha maior benesse a todos. A minha introspecção e paixão pelas minhas próprias idéias, préconcebidas ou não sobre o mundo, não são, em hipótese alguma, uma promessa de loucura futura, e sim de maior autoconhecimento que não será afetado pelos excessos do mundo e das pessoas de hoje.

O dia chegará em que todos nós teremos essa necessidade. Contudo, o mais cedo que isto ocorrer, melhor. Criaturas superficiais abundam na terra, e não é um Carnaval bem "pulado" que irá fazer seu resto de ano mais feliz. Na verdade ocorre o oposto, ao não se perguntar o por quê das coisas, pode-se facilmente cair na falácia da felicidade falsa, aquela que só ocorre após o homérico porre, após o sexo sem sentido, após a música alta e disforme em seus ouvidos. Ocorre o engano da mente, a supressão do Eu e a ascensão do Nós, o fim da personalidade própria e o início do ser carismático, já tratado em outro texto por aqui. É só uma escolha, nada mais. O pré-Maluco tinha de escrever isso. Bom Carnaval a todos!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Quem Nos Usam São as Mulheres!

Num fim de uma tarde cálido, num bar qualquer de uma grande cidade do Brasil, dois homens faziam alegremente seu Happy Hour de sexta-feira, após uma semana de labuta incessante. O verão tinha recém começado, e o tintilar das canecas de chopp nas mãos lépidas e hábeis dos garçons daquele recinto atiçavam o paladar daqueles dois guerreiros engravatados, e impulsionavam uma prazeirosa conversa.

Toninho e Marcos eram seus nomes, casados, com filhos, beirando os trinta anos. Alí, naquele calor infernal, suas gravatas eram afrouxadas à medida que o suor lhes escorria pelo pescoço. Após o primeiro gole, Marcos divaga sobre seu trabalho. Mais especificamente sobre uma estagiária que o tira do sério. Seu nome era um fruto da modernidade, ou melhor um aborto linguístico, Keirrilyn. Sim, meu confrades leitores, é cada nome... Para aqueles que achavam que Marcos estava às turras com essa moça, ou puto pelos serviços mal prestados podem tirar os olhos do texto, vocês são puros demais para este Blog.

Marcos estava completamente louco pelas coxas de Keirrilyn, pelos seios, pela bunda...pelo conjunto da obra. Um grande impedimento, entretanto, era sua idade. Não a de Marcos, a dela. Keirrilyn era uma doce proibição da natureza, tinha somente dezesseis anos. Doces dezesseis anos. Toninho, putanheiro como sempre, já avisou ao amigo que não viesse com melindres e já foi logo perguntando: -E aí, vai perdoar? Marcos era muito ponderado, e cortou o amigo com um sonoro: -Não sei! Marcos se derretia ao falar da moça, dos seus trejeitos, seu aroma inebriante, a maneira como seus quadris roçavam em suas costas toda a vez que ela vinha até sua mesa para lhe entregar qualquer coisa. Era uma tortura. Keirrilyn era uma moça com cabelos aloirados, e apesar da pouca idade tinha curvas insinuantes, e sabia disso, usando sempre roupas mais curtas.

Toninho, ao saborear-se deste conto, não se fez de rogado e deu sua versão de algo que lhe houvera ocorrido no passado, com traços de similaridade com o caso de Marcos. Toninho tinha uma esposa que houvera conhecido ainda na tenra idade, eram ambos muito jovens ao início do namoro, e sua imaturidade acabou levando-o a um casamento prematuro. Márcia, sua esposa, era uma bela balzaquiana, que se cuidava muito e, além de tudo, era uma mãe exemplar. Após a primeira caneca e mais uma afrouxada na gravata, Toninho disse que a amiga de sua mulher vivia sempre na sua casa, em festas, confraternizações e até mesmo em visitas corriqueiras, mas sempre lhe foi muito cordial, apesar de estar alí por Márcia. Seu nome era Ana, e era bem mais jovem que sua mulher. Ambas tinham uma amizade muito forte. Toninho afirmou que num belo dia, Ana trouxe os seus sobrinhos para a festa de seu filho mais velho, em sua casa, e que naquele dia em particular ela estava esfuziante. Toninho a observara de modo diferente daquela vez, e a mesma percebeu. Márcia, sempre muito mãezona não percebeu o clima entre os dois, e foi entreter a criançada. Neste meio tempo, Toninho se aproximou de Ana e os dois começaram uma conversa, e ele já estava "temperado" de uns whiskies que houvera tomado naquela tarde. Ana, como toda mulher, se sentiu lisonjeada com os avanços de Toninho e quando menos se esperava, ele a convidou para algo fora daquele meio familiar. Era um tiro no escuro, mas Ana aceitou, e brevemente naquela semana os dois já haviam começado uma tórrida relação extraconjugal.

Até este momento, Marcos ainda não tinha esboçado qualquer reação, mas por dentro algo lhe ardia. Era o poder da sugestão. Ele perguntou então como que aquilo tinha dado certo, visto que a moça era a melhor amiga de sua mulher. Toninho não titubeou e disse com vêemencia: -Mulheres não têm amigas, companheiro. Têm concorrentes! Ambos riram, e pediram mais uma rodada. À medida que a bebida fazia efeito, os rapazes começavam a aumentar o tom de voz, Marcos resolveu quebrar sua fleuma e foi cuspindo tudo, feito uma metralhadora sexual. Ele começa a pensar no que fará com a moça na segunda-feira, e Toninho é só alegria. Marcos era feliz em seu casamento. Dora, sua mulher era muito doce, um amor de pessoa. Depois dos dois filhos tinha perdido boa parte de sua silhueta e, muito do seu elan sexual. Marcos nunca reclamou, mas via sua esposa ficando rotunda passivamente, talvez até com certo cinismo. Seus dois filhos eram lindos, e eram a alegria da casa.

Marcos e Toninho trabalhavam num banco de investimentos, e suas rotinas estressantes eram a tônica para que assuntos como estes, pequenos devaneios sexuais, surgissem sempre em suas conversas pós-trabalho. Aquilo servia como válvula de escape num cenário onde ambos eram bombardeados com pressões diárias de produtividade e desempenho. Além disso, tem-se a pressão de ter que sustentar a casa, dar um futuro brilhante para os filhos, alcançar os sonhos mais básicos da classe-média brasileira, com uma promessa de uma aposentadoria tranquila nos anos que se seguiriam. Eram, enfim, homens comuns. Suas conversas em nada diferiam dos outros homens com as mesmas responsabilidades, e seus desejos extraconjugais eram uma terapia e tanto para suas mentes maltratadas.

Já passavam das 21 horas, e ambos decidiram encerrar a noite. Pagaram suas contas e no caminho até os carros, Marcos raciocinou e disse ser uma heresia aquilo tudo que houvera dito na mesa. Admirava, sim, a beleza da mocinha, mas não iria partir para a sedução de modo algum. Além de ser ilegal, poderia lhe arruinar a vida, profissional e pessoal. Toninho ponderou, e disse, em tom de brincadeira, para que comesse uma garota de programa para extravasar tudo aquilo. Disse ser só tesão reprimido, que logo após possuir outra mulher voltaria pra casa mais tranquilo e dormiria como um anjo nos braços "gordos" de sua mulher. Marcos riu e disse que iria pensar.


No dia seguinte, fim-de-semana, Marcos leu seu jornal, como habitualmente fazia e numa tentação dos diabos olhou os classificados de garotas de programa. Olhou anúncio por anúncio, Travesti bem-dotada...não; Coroa massagista, finalização...sorriu e disse que tinha isso em casa, para que pagar? Ninfeta, 19, completa...sim, é essa. Marcos olhou para os lados, levantou de sua poltrona e foi até a garagem em posse de seu celular. Uma voz deliciosa atendeu do outro lado, dizendo estar disponivel num flat da cidade. Marcos ficou mudo por um tempo, depois pergunta o preço, que lhe é prontamente respondido: -R$ 200,00 a hora, meu bem! Em posse do endereço, Marcos leva a família para almoçar. Sua cabeça está a mil, sua libido está borbulhante, e as conversas da família à mesa são ignoradas por ele.

Era um pensamento tentador, Marcos nunca havia traído Dora. Fazia tempo que não sentia o toque, o cheiro de outra mulher e isso foi fatal. Ele marcou o horário e foi até o flat da tal ninfeta. Chegando lá, a mesma o esperava de lingerie e ele perdeu a saliva na boca, ela era linda. Tinha olhos claros, mas era morena como um ébano. Seu corpo era esguio como uma cobra pronta para dar o bote, os lábios eram protuberantes, e o cheiro...era puro almiscar. Ela ofereceu-lhe um drinque, que ele prontamente aceitou, enquanto ficava mais a vontade naquele local. Pensou quantos homens já estiveram ali, e um certo asco lhe bateu. Entretanto, já que estava no local, não poderia dar pra trás. A ninfa trouxe o drinque e foi sentando no colo dele, relaxando-o como prometera. Os detalhes são exógenos ao texto, mas correu tudo muito bem, foi uma senhora transa. Daquelas que Marcos não tinha há um bom tempo. Ele puxou assunto com a moça, perguntou seu nome, a quanto tempo fazia aquilo. Ela foi bem vaga, mas disse que precisava muito da grana e que estava difícil demais conseguir um emprego na cidade. Marcos estava em tal êxtase, que acabou perguntando mais e mais sobre ela. Era flagrante, Marcos estava fisgado.


Marcos pagou a moça, e lhe disse se poderia voltar. Ela ironicamente disse que enquanto ele pudesse pagar, lá ela deveria sempre estar. Isso causou um certo desconforto. Marcos foi embora. Na segunda-feira, tudo correu normalmente, Keirrilyn fez seu serviço diário e Marcos a observou da mesma forma, mas desta vez não houve tentações, ou seja, Toninho estava certo. Não que a menina não fosse até bem assertiva com ele. A moça era bem ambiciosa, e queria sim flagrantemente provocar um ataque de Marcos, com qual objetivo ele ainda não supunha até aquele momento. Mas isso estava fora de cogitação, este mundo era muito cruel para se arriscar daquela forma.

Passou-se um tempo e aquela profissional do sexo não abandonava a cabeça de Marcos, e num outro Happy Hour da vida, ele se abriu e contou tudo a Toninho. Não sabia o que sentia, mas sabia que era proibido demais para se sentir. Toninho, sacana como sempre já foi logo tirando da jogada dizendo que aquilo era ainda pior que se envolver com a adolescente. Marcos ficou mudo. Toninho explicou dizendo que namorar uma garota de programa, além de imoral, pois é ser corno consentido, é um contrasenso. -Já pensou num belo dia que você estiver louco para transar e ela alegar aquela famosa "dor de cabeça", o que vai fazer? Marcos disse que se a amasse, respeitaria. Toninho riu e disse que era bobagem, que ele iria logo botar r$ 200,00 na cama e iria se oferecer então para pagar. - E aí, vai continuar com dor de cabeça mesmo seu eu pagar? Marcos ficou sem-graça, mas concordou. Brindaram que aquilo era ridículo mesmo. Marcos então perguntou sobre Ana, como andava sua relação extraconjugal com ela? Toninho disse que já tinha acabado há muito tempo. Quando ela percebeu que ele estava gostando, tirou o "time" de campo, ou seja, fazia parte daquela nova horda de mulheres predadoras que estão brotando aos borbotões na sociedade atual. Marcos riu, e pediu outro chopp.

-Peraí, você esta me dizendo que neste exato momento tem mulheres por aí que saem com homens por diversão e transam sem compromisso assim como nós?
-Sim, meu amigo, elas estão por aí! O prazer delas é a transa pela transa, seja o cara casado ou não. É como se os valores estivessem se invertendo ou se equivalendo. É o terceiro estágio do feminismo que teve início no século passado.
-Qual será o próximo?
-Nem quero pensar, meu irmão.

Um silêncio aterrador toma conta da mesa...eles gritam: Garçom, traz a conta!

- É, vamos pra casa ficar com nossas feministas à moda antiga. Até segunda companheiro!
- Até!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Carisma Exibicionista Versus A Privacidade

Às vezes me espanto como tudo na vida tem dois pesos e duas medidas. O que é monstruoso pra mim, pode ser agradável para vocês, pode-se adorar alguém e outra pessoa odiar este mesmo alguém. Enfim, nada é unanimidade nas cabeças complexas dos seres-humanos. O que dizer então de se querer agradar a todos? Seria uma utopia? Carisma é a questão a ser abordada.

O carisma é um traço marcante da nossa personalidade, e reflete o quanto nossas relações sociais são valorizadas entre nossos semelhantes. Eu observo muito as pessoas carismáticas, e chego a uma conclusão muito simples: São "vaselinas". O leitor que não compreende a gíria está intrigado, mas eu explico. "Vaselina", além de ser um derivado do petróleo para lubrificação, também é um termo utilizado para se designar pessoas que são flexíveis em todos os sentidos. Têm opinião mutável, se adaptam ao sabor das tendências, e não se prendem a um dogma, por mais absurdo ou correto que ele esteja. Não consigo me encaixar nessa pecha.

Longe de mim querer criticar o carismático. Não posso, entretanto, deixar de citar que grandes personalidades carismáticas da história se tornaram os maiores fascínoras da humanidade. Hitler, Pol-Pot, Stalin, Franco, Saddam Hussein...entre outros, são exemplos marcantes do carisma utilizado para fins de liderança suprema. Todos eles beberam na fonte da busca incessante pela aceitação popular, em prol de um objetivo maior, cada um à sua maneira. E o carismático comum? Como é? Temos hoje em dia exemplos mais marcantes de pessoas carismáticas ao nosso redor. Com a internet, essas pessoas conseguem amplificar suas atitudes populares e arrastam milhares de seguidores com elas. Sites de relacionamento denotam muito isto. As pessoas intensificam seus círculos de amigos, virtuais ou não, e cultivam um comportamento bastante marcante, que apesar de"vaselina", apela para o escancaramento das suas vidas particulares, por meio de fotos documentando cada simples evento de suas vidas. É, hoje todo mundo é meio celebridade.

É incrível, mas percebam que a pessoa mais carismática é sempre aquela que mais aparece nestes sites de relacionamento com fotos, vídeos, trechos "chupinhados" de sites de frases de efeito etc. É o tesão da classe-média atual ter o mesmo comportamento de celebridades tolas que exibem suas vidas para todos verem. Querem ser pequenas e célebres criaturas anônimas, mostrando fotos em poses provocantes, nas viagens, no churrasco do amigo, nas micaretas (habitat natural dos carismáticos), baladas, no ponto de ônibus etc. Só falta mesmo documentar o ato sexual privado de cada um. Aí sim, teremos o grande "big brother" do proletariado, com seus microcomputadores parcelados, recém inclusos digitalmente, tomando sol em seus quintais com biquinis atochados, ou sunguinhas pequeneninhas, fazendo biquinho pras suas camerazinhas digitais. Não se ofendam, o que todos querem é ser menos anônimos, e mais amados. No fim, é tudo uma busca pela aceitação, pela inclusão, num cenário de capitais e grandes cidades onde as relações são cada dia mais frias.

Ser carismático pode ser sinônimo de poder. Nosso presidente é extremamente sedutor ao povão, com seu jeitão de "seu Zé do bar vestido de paletó", ele conquista cada dia mais adeptos, até mesmo a mim. Luís Inácio "Lula" é até objeto de filme hoje em dia, protagonizado por atores de primeiro time. Quem tem mais de 30 anos sabe o caminho que este homem percorreu até chegar onde chegou. Saberia também que, há 20 anos atrás, jamais ele conseguiria ser presidente com seu discurso popular. Eu disse popular, não populista. Ele é o maior exemplo de onde o carisma pode levar, por isso muitos se enviesam para este caminho, o caminho da fácil aceitação, da aceitação a qualquer custo, da supressão da personalidade em troca do sorriso alheio e do famoso: "me adiciona aí!".

É uma nova sociedade o objeto deste texto. Um novo paradigma que direciona a uma vida de falta de privacidade explícita, e exibicionismo sem precedentes. Quem critica, diz que isso tonará nossa sociedade mais vulgar. Quem aplaude, defende que as pessoas serão mais unidas, derrubando antigas barreiras de relacionamentos que geravam preconceitos e até conflitos. Eu prefiro manter meu perfil pouco carismático, mas porque sou mais recluso, um traço marcante de minha personalidade. Jamais tentarei ser algo que não sou. Já o fiz, mas só me trouxe raiva de mim mesmo. Na verdade, quem me conhece me acha até irritante. Talvez este seja meu charme. Talvez não. Enfim, muito cuidado com o que desejam. Querer ser bem visto na "rodinha" pode ser a sua ruína, pois quem muito se expõe está arriscado a ser escrachado e até invejado. O anonimato traz alguns benefícios que só quem já o perdeu pode valorizá-los. Cultivem um pouco a privacidade, por favor! Faz bem guardar algumas coisas só para sí.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Reveillon E O Macumbeiro De Ocasião

Passaram as festas de fim de ano. Os excessos, as desavenças, as divídas, as desilusões, as dores...ficou tudo para trás. É muito comum vermos as pessoas prometendo novas atitudes, melhoras no aspecto pessoal, profissional e emocional. Tudo pode ser mudado a qualquer dia e momento da vida, mas a coisa fica sempre para o fim de ano. Típico do nosso comportamento mesmo. Ritos de passagem dão a tônica deste momento único do ano, onde todos se abraçam, dizem coisas positivas, até mesmo para estranhos. Engraçado, ficamos mais educados também. Aquele mesmo indivíduo que mandamos para o inferno por ter nos fechado no trânsito, se torna um amigo momentâneo. Alí, naquela faixa de areia, onde depositamos oferendas para as entidades africanas, nos vestimos de branco, como pais e mães de santo. Onde damos sete ou oito pulos em ondas para boa sorte, estouramos nossos espumantes baratos, estouramos nossos fogos de artifícios e, já disse que abraçamos todo mundo?

Chegou a hora da contestação. É muito comum sairmos por aí, e ouvirmos sempre coisas negativas sobre a "macumba". Dizem ser coisa do Diabo, que seus rituais são pagãos, que seus praticantes são semeadores do mal alheio e atrasados financeiramente. Engraçado. A coisa que mais prezo é ver uma pessoa que reconhece os rituais que pratica como algo benéfico em sua vida. Não importa o quão estúpido e repetitivo seja, o conhecimento das coisas que você considera de bom-senso para a sua vida devem ser respeitadas. Por outro lado, a grande maioria dos robóticos pseudo-macumbeiros que vão à praia estão pouco preocupados com o sincretismo por trás dos rituais afro-brasileiros praticados no Brasil afora durante o Reveillon. Fazem isso por puro modismo. Mas esperem, não eram estes que diziam horrores sobre a macumba e suas variações? Ora, se adorar uma religião africana é simbolo de atraso de vida, por que seria durante o Reveillon, por exemplo, jogar flores à Yemanjá, um ritual positivo? Ainda nesta linha de raciocínio, por que estas mesmas pessoas ouvem e louvam artistas baianos do mainstream que usam e abusam de termos afro-religiosos em suas "músicas"? Eles evocam entidades e termos somente utilizados em sessões e rituais da macumba em seus versos, mas quando são eles que cantam, a coisa se torna cool. É como aquele rapper que incita a violência e é adorado, mas quando um cidadão o faz é apontado como um pária. Isso se chama hipocrisia.

A questão é em si ridícula, e digna de escárnio. Raul Seixas dizia que preferia ser Metamorfose Ambulante do que ter opinião formada sobre tudo. Eu tenho opinião, e peço licença ao brilhante Raulzito, que por sinal era Baiano, para discordar neste ponto. Fazer as coisas por fazer é muito a cara desse país. É conhecimento comum que a superstição é a defesa do ignorante contra as coisas ruins que lhe acontece, e o mesmo não consegue explicar. Usar roupas brancas, pular suas ondas, pedir coisas à uma entidade e oferecer-lhe flores etc. Tudo isto faz parte de um medo imaginário de um cidadão já cansado de perder. Estamos num país perverso e violento, de pessoas mal educadas, mal nutridas, desvalorizadas e desiludidas. A esperança que as coisas vão melhorar é o que faz esta gente sair da cama de manhã, e é o combustível para que rituais como os apontados neste texto ganhem cada vez mais força. Até mesmo a elite já os praticam, mas por outros motivos. Eles os praticam para não ficarem demodé, porque usar branco é chique, passar Reveillon na praia é o que nos faz uma nação de gente alegre, mulata, que brinca quando não deve. A elite repete e venera os rituais dos pobres quando lhe convém, para ufanizar as coisas do "Brasil pra gringo ver", no Reveillon e no Carnaval, para no restante do ano fazer o que sempre fez por séculos: ser carregada por eles.

Queridos leitores, continuem usando branco no Reveillon, vão para as praias, joguem oferendas ao mar, pulem seus pulos. No mínimo vocês estarão livres de germes, aumentarão a quantidade de matéria orgânica nos mares e terão seus músculos das coxas mais fortes, pelo menos até o dia primeiro, pois vocês já terão novas resoluções. Aí tudo isso fica pra trás, e vocês voltam a ser as mesmas criaturinhas ridículas e julgadoras que vocês são: "Macumba é coisa de preto!", " Você me fechou, seu filho da puta", " Veio de branco hoje trabalhar? Parece até um macumbeiro!". Aí vem o carnaval e você se torna legal: "Ivete sangalo é tudo de bom", "Vou passar meu carnaval em Salvador, de Abadá e tudo!" "Eu sou filho de Ghandi que nem o Gilberto Gil". Por fim vem o Reveillon: "Que seu ano novo seja lindo e próspero!", "Que roupa branca linda, é de qual grife?", "Vou fazer uma oferenda à minha Santa no Candomblé que um baiano me disse num bloco de carnaval de Cláudia Leite. Sabia que sou filha de Yemanjá?...E tantas outras mais atrocidades que ouvimos por aí.

É por essas e outras que devemos evitar fazer algo só porque está na moda. Façam o que gostam, independentemente dos que os outros possam pensar. Vistam o que tiver vontade, não se rendam a superstições ridículas. Quem faz a sua vida é você, e as coisas que te acontecem são pura e simplesmente consequências dos seus atos. Desejar o bem ao próximo deve ser sempre, e não só no Reveillon, assim como as benesses que você venha a fazer por sí próprio, não precisam esperar até o fim de ano. Se você é macumbeiro, cumpra seus rituais. Se você não é, não passe pelo ridículo de fazê-los só por fazê-los, ou porque os outros os fazem. É ofensivo e imoral. Este país precisa de gente de personalidade, e não de macaquinhos amestrados que repetem as coisas por pura necessidade de aceitação, ou porque as acha legal.