segunda-feira, 3 de maio de 2010

Beleza Pra Quê Te Quero?

Tem muita gente preocupada com aparência onde moro. Sei lá, deve ser uma sacanagem ou tortura se olhar no espelho e nunca estar satisfeito. Acho que a grana ajuda estes eternos insatisfeitos. Muito dinheiro e pouco cérebro é foda, reduz seu mundo a um calabouço de histerias pessoais ininterruptas. Quando não é a aparência, é o consumo desenfreado. Quando não é isso, é o vício e assim segue. Vou à academia três ou quatro vezes por semana. É complicado entrar lá com gana de pagar por um bom reflexo no espelho, e se esquecer do primordial motivo da coisa que é a saúde. Sim, eu faço atividade física porque quero ser saudável, e deixo como opção secundária a bella figura, ou melhor, deixo-a como consequência.

Sou um observador, e lá tenho um "zoológico" completo para a minha miríade de exemplares humanos, os quais retrato tanto pela escrita. Tudo começa no vestiário masculino. Sou "homem-fóbico", realmente. Não sou muito fã da figura masculina, e me incomoda muito ter que socializar meu espaço com uma dezena de homo-sapiens nus, mas o que se pode fazer? Nesta esfera nota-se um odor acre, caracteristico de nós, seres testosteronizados. Mas esperem, a maioria dos bonitões gastam tubos de desodorante antes da atividade física. Não precisa ser físico nuclear pra entender que isto é um desperdício e uma ofensa ao trato respiratório de qualquer um. É uma total ignorância, vistoo que tudo irá feder de novo. Enfim, estou numa academia, não? Sigamos com a troca da vestimenta de trabalho por algo para suar.
Complemento do parágrafo: Que Deus me faça uma mosca, e me deixe entrar algumas vezes no vestiário feminino, sentir os aromas, ver as curvas...ah, eu te serei eternamente grato!

Taras a parte, faço o meu papel. Talvez por ser tímido e introspectivo posso ser confudido como arrogante. Não sou. Ponho meu IPod (sou um burguês, não?) e parto para a guerra. Logo percebo que sou um dos únicos que malham quietos. É verdade, ali temos um esquadrão social, ou de socialites, seja qual for, que fazem de tudo por lá, menos exercícios. Sinto uma tensão sexual no ar, gente se seduzindo, numa mistura heterogênea de músculos e grandes rabos, que entre uns goles e outros no suplemento protéico, marcam seus encontros carnais na maior cara de pau. É uma degustação sem fim, eu penso. Uma distribuição de amostras grátis, onde os olhares e trejeitos comandam a sacangem que potencialmente rolará. Porra, boiei nessa! Exercicios são secundários, o povo está ali mesmo é pra dar e comer.

O inocentão aqui está preocupado em viver muito. Eu tenho um apetite voraz, como bem e de tudo, regado a um bom beberico num néctar etílico. Se não fossem os pesos, as corridinhas, alem de boas nadadas, estaria gordo e morto. Mas percebo que como espécie extinta, sou meio que um exemplar exótico naquela biosfera. Fico lá suando feito um porco (porco sua?), esbaforido, cansado e sedento, e os bonitões passando a vara em tudo que se move? Bem, sempre fui meio tolo mesmo. Não se pode esquecer que por lá estão os maiores exemplos de preocupação com a forma física e beleza de toda a variedade humana: Os homossexuais. Sim, academias são habitat naturais deles, como quiserem chamar, algo como baitolas, pederastas, bichonas, veados etc. Aí a coisa fica estranha mesmo, pois qualquer sinal de dois caras, emperequitados e cheirosos, batendo papo, um medindo os atributos do outro, passa a ser, para mim, um casal em formação, que em breve se desfará depois que um ou outro deflorarem seus retos eruptos.

Academias são cercadas de espelhos, por onde quer que você ande, seu reflexo o acompanhará. É como um testemunho constante de quão horrendo seu corpo está e como você precisa melhorar. A vida financeira da empresa depende disso, da sua feiúra. Claro, a sua persistência é a alma do negócio. Dane-se a sua pressão arterial controlada, danem-se as melhoras nas atividades do dia a dia, você quer ficar bonito e atrair o sexo oposto. É nesse filão que a academia lucra. Lá, também, após a melhora do seu aspecto, o sexo oposto, ou não, se aproxima de você e sua felicidade se completa. Estou bonito, fodo muito e minha teia social está completa. Uma pena não terem criado ainda o espelho da alma. Aquele espelho que olha o seu interior, os seus medos, inseguranças e sonhos. Engraçado, de repente a exposição física perde a graça quando as nossas internalidades são expostas, numa academia. Será que alguém pergunta? Quem é aquele cara meio grande, desajeitado, com roupas cafonas, que malha ali quietinho, de fones no ouvido, e vai embora? Será que ele tem alguma coisa a esconder, ou não? Será que é gay, hetero, louco, deprimido, alegre ou somente estranho mesmo? Acho que não. Eu sei que observo. Não só a mim, mas aos outros e a busca incessante pelo belo, o fetiche pela beleza e as mazelas que isso causa à nosssa sociedade atual. Essa idéia de que posso ser um miserável desprezível, mas belo, e ser um colírio para a sociedade é uma puta sacanagem. Discordo de Dostoiévski, a beleza não salvará o mundo, só mascarará a podridão por baixo das coisas e das pessoas.

Malho pela endorfina, malho pela saúde, malho para ver o futuro. Qualquer motivo além disso é, no mínimo, a homologação de um processo de bestialização do ser humano já iniciado pela religião a centenas de anos atrás e hoje ajudado pela mídia e sua supervalorização da beleza desenfreada e sem limites.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Gente Que Assusta


Recentemente tenho sentido algumas fobias engraçadas, longe daquelas mais corriqueiras que conhecemos como medo de avião, de lugares abertos ou fechados demais. Tenho tido fobia de pessoas. Eu explico: Já sentaram-se numa mesa de bar e entre uns goles e outros acabou ouvindo a conversa dos outros? É incrível, mas quando ouço algumas coisas proferidas por eles me arrepio, num misto de medo e asco, resultantes de uma idiotice sem limites. Conversavam dois homens, ambos de meia idade, algo como ganhos financeiros e maneiras de ficar rico rapidamente. Tenho medo de gente que fala demais em dinheiro. O pior é que estes atuais tarados pelo monetário se proliferam feitos coelhos numa gaiola nos dias de hoje. O que dizer de um ser humano que aproveita seu momento de prazer e socialização (estamos num bar, não?) para discutir saúde financeira, e somente falar em milhões, bilhões e as maneiras para se chegar lá. Isto é felicidade?

Duvido de certos aspectos do conceito de felicidade que nos impomos atualmente. Para a maioria, obviamente, ela só é alcançada sob o aspecto do dinheiro. Nada mais justo. Este país está cheio de gente que precisa dele. Estupidez é acreditar que só isso faz um ser humano feliz. A realidade é outra. Qual é a felicidade de um presidiário? Receber a carta de sua amada. Qual é a felicidade de um homem casado e livre? Ver sua amada viajar por um longo período. Conceitos diferentes para contextos diferentes. Em algum momento se citou dinheiro? Não. Por isso mesmo, tenho que dizer que também tenho medo, mas um medo terrível de gente que brada aos cinco cantos do mundo que é feliz e realizada. Me assusta essa gente que se define sem ao menos se autoconhecer. Reconhecer-se feliz é um assunto interno, é coisa da sua personalidade. Demonstrar isto recorrentemente é, no mínimo, querer esconder, no fundo, sua própria infelicidade. Encher o saco dos outros declamando sua felicidade é maquiar, diria mascarar, sua própria miséria de vida. O cérebro humano foi feito para enganar a si mesmo, sua consciência vive traindo sua subconsciência.

Morro de pavor de gente que fica propagando sua religião por aí. Já ouviram aquele ditado "Fé demais não cheira bem"? É mais ou menos assim. O sujeito se apóia na religião somente quando tem algo em sua vida que deseja apagar, seja da sua própria memória ou de outros. A religião se torna meio que um refúgio para pecadores reincidentes arrependidos e crônicos, levando-os a se tornarem chatíssimos e promíscuos nessa relação duvidosa com Deus. Tenho medo sim, não nego. Quando vejo um bitolado destes, já logo suponho ser um ser desregrado que, de alguma forma, encontrou na religião um freio para suas idiotices. De cara saio correndo destes bastiões do bom comportamento e disciplina religiosa.

Me soa como um filme B de terror ver a minha última, porém não menos interessante, categoria de pessoas assustadoras. Tenho cãimbras de medo ao ver alguém que tem certeza de tudo na vida. Até um filósofo de porta de banheiro sabe que "de certo sabemos que nada é certo". A coisa anda tão assustadora, que tem gente que até planeja seus relacionamentos, seus momentos de prazer, de obrigação, de tristeza e de alegria. Planejam filhos, aposentadoria, compras, vendas, sexo...olha, deve ter gente que planeja até mesmo quando ficar doente. O acaso perdeu força pra esta geração antenada e doida pra ter certeza de tudo. Ter do lado alguém tão certo de sí próprio e de sua vida é, no mínimo, tão horripilante quanto um passeio no trem fantasma quando se tem 6 anos, sozinho. Eu tenho muitas saudade de quando ouvia de alguém que o destino se encarregaria de algo. Era muito reconfortante. Aí vem uma horda de babacas que querem ter o controle de tudo e mandam o destino pro inferno. Me apresente alguém que esteja certo de tudo, até mesmo do amor e eu correrei, sem nem mesmo olhar para trás.

Dos meus medos (solidão, pessoas e bonecas infantis), pontuo como mais latente o medo das pessoas mesmo. São criaturinhas estranhas e horripilantes. Criaturinhas gananciosas, forçosamente felizes, crentes e certas de tudo na vida. Não ficaram com medo?

sexta-feira, 26 de março de 2010

Versos da Inquietude

Está de "saco cheio"?
Expressão surrada esta,
Intressante a incapacidade e teimosia,
Arrogância e covardia.

Tentar e não conseguir,
Alguém te foge, te evita,
A noção da realidade levita,
Sonho difícil, aterre-se, resigne-se.

Mas a insistência é nobreza,
Agora não se pode parar,
Cade o freio?
Bem, só a estupidez tem certeza.

Teve alguma vez dúvida?
Sim. Estou certo somente,
Da morte latente, inexorável,
O resto é questionável.

Não parar, não retornar,
Logo agora?
Para medíocre se tornar?
A vida é longa, se demora!

Ontem não conquistou,
Hoje mais se afastou,
Amanhã decerto se humilhou,
O sentimento, este nunca se apagou.

Abram-se as possibilidades,
Fim do tédio, das absolutas verdades,
Invista-se no incerto,
De boas aventuras estará repleto.

A vida cobra seu preço,
A morte paga com desprezo.
Desprezo por sua vítima que não viveu,
No ostracismo e flagelado, enfim, morreu.

Abra um vinho,
Um Porto, Cabernet, Merlot,
Aprecie! Seja qual for,
O prazer está a caminho.

Grite em silêncio,
Silencie o grito,
Extravase um tabú,
Expanda limites.

Leia um livro,
Exponha um medo,
Expresse o amor,
Feche a janela, está frio.

Quem sabe um dia consegue?
Ser valorizado, querido,
Pelo que tanto persegue?
Que seja breve, corrido.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Mais Um Dia Brasileiro.

Sempre falei da psiquê do brasileiro por aqui, das idiotices e contrasensos inerentes ao mesmo no seu comportamento perante a sociedade. São coisas de um povo que ainda está em evolução, muito jovem ainda para aceitar os termos de uma civilização moderna como educação, cordialidade, honestidade e senso de comunidade. Ainda chegamos lá.

Por exemplo, ao retirar meu carro de uma vaga de estacionamento por aí, me deparei com uma situação corriqueira, mas que demonstra essa qualidade de cidadão. Olhei para a parte frontal do meu veículo, mais precisamente o parachoques, e vi um afundamento. Naturalmente olhei para o veículo da frente, e percebi que o mesmo carregava um apêndice em sua traseira, mais conhecido como "engate". Aquela bola de aço, envolvida por uma proteção de mesmo material foi a causadora daquele estrago no meu veículo. Dadas as coincidências de altura e o encaixe perfeito da mesma no meu estrago, conclui que aquele veículo havia feito uma manobra de estacionamento que me causara aquilo. Puro descaso. Analisando a fundo, comecei a pensar que aquele motorista poderia ter que puxar alguma coisa, como um barco ou um carrinho de pastel, por isso necessitava daquele item em seu veículo. Depois ponderei de outra forma, quero dizer, existem milhares de veículos por aí usando este acessório, né? Seriam os brasileiros então devotos da arte de rebocar coisas com seus carros? Não, sempre que os vejo por aí dirigindo, só vejo o engate puxando nada mais do que ar. Concluo que seja pura e simplesmente uma questão de egoísmo intrinsicamente nacional. Na verdade, o brasileirinho quer manobrar seu carro, sem se preocupar com quem está atrás, e não danificar seu próprio parachoques traseiro. Ou seja, a famosa frase da lei Gersoniana: Levarei vantagem em tudo! Ou melhor, vou ver o meu lado. Você que se dane, eu vou dar marcha à ré!

Definitivamente, este país não é para otários que nem eu. Depois disso, acho que não resta mais nada em se tratando de carros. Podemos fazer como no filme "Mad Max", lembram? Colocar aqueles espinhos, correntes, metralhadoras etc. nos carros e sair por aí preparados para danificar o bem dos outros, mantendo os nossos intactos. Mas não termina por aí. Um cara de engate estava na minha frente num engarrafamento daqueles bons em SP capital. Ao que pude perceber, o mesmo tomava um líquido refrescante naquele dia calorento. Terminou de tomar, e não se fez de rogado: jogou a garrafa do tipo PET pela janela, aterrissando a mesma no canteiro central, a uns dois metros de um bueiro. Meu sorriso irônico não foi maior do que a vontade de ver aquele ser, à minha frente, entrar em autocombustão e queimar até a morte. Pensei comigo: Este é o mesmo canalha que, quando cai um temporal em SP, enfrenta uma enchente de matar até rato afogado, e sai reclamando do poder público, dizendo ser vítima do descaso governamental com a população. É - pensei - ele tem um engate, pode muito bem decorar a cidade com garrafas PET pelas ruas. Provavelmente, depois de ter tomado todo aquele líquido, deve ter sentido vontade de urinar. Ora, para que segurar? Mija na rua mesmo. Urinar na rua ainda é um esporte dos mais praticados pelos brasileiros, seja em época de festas, ou no dia a dia mesmo, quando têm vontade.

De longe vejo um motoqueiro pelo meu retrovisor. Ouço o barulho da buzina, agudo e estridente já por um tempo. Ele passa do meu lado e, com um chute certeiro, me destrói o retrovisor direito do veículo. Atrás, vem uma outra leva de motoqueiros e, buzinando, passam por cima do meu já esfolado retrovisor, num certo tom de vitória, ou até escarnio. Pensei, o que teria eu feito, aqui parado no tráfego, para merecer uma ato de violência tão extremo assim? Ah, sim. Meu carro estava um pouco a direita, com as rodas quase que por cima da faixa onde os mesmos trafegam, ilegalmente. Não poderia tirar satisfações, a moto já havia sumido há muito. Não poderia consertar aquilo na hora, a peça estava condenada. O que fazer? Nada. Sentar e esperar o tráfego andar. Claro, não esquecendo de analisar aquele rapaz, e sua fúria sobre duas rodas. Seria tão necessária assim a atitude impensada de danificar o bem alheio? Que tipo de lição ele queria me ensinar? Teria ele tido satisfação ao fazer isso? Não era para tanto, ele era só mais um brasileiro. O atentado contra o meu retrovisor talvez representasse toda a tristeza que um homem pode carregar em sua vida, ao trafegar num meio de transporte tão inseguro quanto uma moto. Ou na verdade foi só um meio de expressão de um aspirante a marginal. Seja qual fosse, a atitude foi bem peculiar, e ilustrativa do comportamento do nosso cidadão.

No fim daquele dia, olho para o lado, num semáforo. Um homem me pede esmola, com tremores pelo corpo, denotando um peculiar comportamento de quem está há muito tempo sem o objeto de seu vício. Ele está com uma criança, com não mais que 1 mês no colo. Me vejo numa situação complicada, se não dou o dinheiro, me condeno por estar negando algo benéfico para aquela famigerada criatura pequena. Se dou o dinheiro, igualmente me condeno por sustentar o vício de um homem que precisa de ajuda, e que não vai obtê-la se tiver dinheiro fácil nas mãos. O dilema me durou pouco, dei o dinheiro. Achei que estava me redimindo de meu próprio julgamento ao pedir a ele que fosse comprar roupas para a criança, e para que a tirasse daquele sol de fim de tarde. Doce ilusão a minha. Ele foi se drogar, e aquele bebê vai ficar, mais uma noite, ao relento. Não posso me queixar. Era só mais um brasileiro, e um pequeno brasileirinho, lutando para sobreviver num país onde a sociedade os ignora. Sim, nove em cada dez veículos daquela leva de semáforo não deram nada àquele individuo. Como brasileiro e crítico, acho que para nós, é mais fácil ignorar o problema do que tentar solucioná-lo, acusando o poder público por isso. Chegamos ao ponto de ficarmos tão cínicos, que na esquina seguinte já esquecemos do que vimos. Talvez chegamos em nossas casas, e até dormimos muito bem, com nossos filhos saudáveis e alegres.

Uma sucessão de infortúnios podem muito bem refletir o quanto este país precisa evoluir. Nossa histórica estupidez perante as mais sensíveis questões da nação é uma característica que segue latente, mas dá sinais que está melhorando. Não me vejo usufruindo do grau de evolução alcançado pelas nações européias ou asiáticas aqui no Brasil. É algo que demanda tempo, dedicação e comprometimento do próprio cidadão para com seus iguais. Aquela velha temática do levar vantagem em tudo tem que desaparecer da nossa personalidade. O vantajoso para todos é mais importante e deve prevalecer. É assim que se constrói uma nação. Temos que melhorar!

segunda-feira, 8 de março de 2010

As Minhas Mulheres. Nossas Mulheres. Parabéns.

Quando somos meninos nossa mãe é tudo. Pelo menos a minha foi pontual na minha infância. Me acalentava, me dava a segurança necessária para crescer. Era carinhosa, mas rígida. Sua mão pesada por vezes me açoitava, mas sempre com o viés de direcionar, e não agredir. Mas não é da relação mãe e filho que quero discorrer. Inicio desta forma pois é a primeira e eterna mulher que todo o homem terá em sua vida: sua mãe. Desta mulher parte todos os conceitos que formaremos sobre as outras mulheres, e delas para o mundo. É um mundo feminino, sem sombra de dúvida. Longe daquela babaquice pós-machista que apregoa contrasensos que elas dominam tudo no sentido de querer nos destruir. Não, elas são o nosso sustentáculo. Assim como as mulheres dos guerreiros curavam suas feridas de batalha, elas hoje nos provem o alívio de deixar o mundo mais belo, mais afável, e menos competitivo e duro.

Voltando à infância, me recordo dos primeiros exemplos de mulheres que me deixaram admirado. Além das coleguinhas das quais roubava pequenos beijos e saía correndo, rindo, tinha uma professora de História. Era linda, inteligente e me tratava com muito carinho. Acho que posso dizer que, na minha mente pueril, aquilo poderia ser um tipo de amor assexuado, admiração de soslaio, onde o que me fazia o dia era uma simples passada de mão em minha cabeça, que me desarrumasse os cabelos. Suspirava de alegria. Era uma mulher muito cheirosa, seu aroma impregnava a sala de aula com jasmim maduro, e sempre estava bem arrumada, à sua maneira, claro. Não esqueçamos que eram os meados da década de 1980, e a boa moda não era a tônica desta época.

Na adolescência as mulheres me eram vistas com menos apreço e mais avidez. Queria possuir todas. Eram os hormônios em ebulição. Apesar de não saber o que fazer com elas, de alguma forma, queria muito estar em conjunção carnal com alguma. Nem admirava beleza, nem trejeitos, aromas, inteligência, cordialidade, nada. Era pura vontade de acoitar um fêmea. Folheava revistas e mais revistas eróticas em busca do orgão perfeito, da bunda mais redonda, dos seios mais fartos e firmes. Não era nada como a geração Internet de hoje, certamente havia pouco a se mostrar e mais a se imaginar. É comum não se aproveitar muito a adolescência, perder-se nas necessidades imediatas e jamais usá-la como ponte para uma vida adulta saudável. Contudo, não fui o único, nem serei o último a objetificar mulheres durante esse tão confuso período. Nem me arrependo disso. Foi uma época estranha, ótimo que passou.

Passou e foi tarde. Na primeira metade da vida, como já escrevi por aqui, as mulheres ganham nova importância. Aprendê-las torna-se um desafio gostoso, desvendá-las é um prazeiroso quebra-cabeças de aventuras e desventuras. Amá-las é uma montanha-russa de sentimentos confusos, idas e vindas do céu ao inferno. As instabilidades femininas vão se tornando o maior atrativo delas, e os bons momentos quase sempre compensam as dificuldades de se compreender o universo feminino. De repente, aquela professora do passado volta. Admiro novamente aquelas qualidades que compõem o sexo oposto, os aromas, os leves trejeitos, o sorriso...me sinto novamente menino, ávido e curioso por um toque, sexual ou não. Permito-me admirar, antes de desejar, a delicadeza da aura feminina. Permito-me, também, querê-las em um segundo momento, nuas e vulneráveis, com curvas sólidas e sinuosas, onde minha mão percorra a pele aveludada como pêssego, que por dentro, esconde uma criatura capaz de sustentar o mundo com um sorriso, um choro, um gesto. Estamos aqui para protegê-las, para que elas nos salvem de nosso próprio senso de predação.

Neste 8 de março, saibamos louvá-las como criaturas sagradas que são. Mulher, a minha ou não, obrigado em nome dos homens em busca de salvação.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A Minha Verdade Sobre o Amor. E a Sua?

O amor é um produto vendido no varejo, na categoria de supérfluos, que não tem garantia e nem é aceita a devolução por defeito. A frase é hilária, e não digo isto porque a criei agora, sentado em frente ao micro, rindo de mim mesmo. Digo isto porque vejo tanta gente sofrendo de amor, que me senti quase na obrigação de compará-lo a um ato comercial. Bukowski dizia que amor era um cão dos diabos. Como romancista maldito e Beatnik, esta definição era essencialmente sua, e dava contornos infernais a este sentimento pouco explicável. Chico Buarque, no entanto, dizia do amor um verso: O amor jamais foi um sonho. Do amor já provei. É um veneno medonho. Não poderia ser mais ácida esta definição.

Mas qual é o sentido de tudo isto? Por quê devemos ou queremos amar, apesar de tanto sermos machucados por este sentimento especial? É algo surreal, mas tem a ver com o masoquismo puro. Não estou falando do amor familiar, do amor pelo seu cãozinho, ou por um bem material. Estou falando do amor advindo da paixão, o amor de filme, aquele vendido para nós já há uns cem anos. O masoquismo é latente ao se sentir amor. É abdicar do orgulho em troca da recíproca do sentimento, que quase nunca vem em proporções iguais. Sempre ocorre de um amar mais o outro que o contrário. O indivíduo se desdobra em carinhos, afetos, ações e gestos pelo outro esperando algo em troca, e quando isto não ocorre vem a desilusão. O masoquista não desiste, e parte para a busca incessante pela aceitação do outro, que começa, da sua parte, a tomar contornos de sádico. Sim, para todo o masoquista existe um sádico, e vice-versa. Quando estas duas nuances da raça humana se encontram, aí a chama queima incessantemente. Ocorre o pertinente encontro dos opostos, aqueles que se atraem. Então, num amor perfeito, temos um sádico e um masoquista juntos? Sim, mas há outras conclusões, pois somos complexos demais para nos encaixarmos numa só forma de amor.

O amor é Ego. Quando esperamos algo em troca de alguém, queremos na verdade fazer algo para nós mesmos. Estamos somente pensando em nosso bem estar. É como uma decisão política que trará bons frutos no futuro. Você abdica de tudo aquilo que te faz feliz, da sua individualidade, personalidade e até mesmo pessoas queridas, para apostar numa vida a dois. Isso é entrega? É altruísmo? Não, puro egoísmo. Se a outra pessoa não faz o mesmo por você, a coisa toda desanda. Em ambos os casos existem exceções, mas estou falando da maioria. Se alguém tem algo a questionar sobre isto, dizendo que o amor é lindo e que eu sou amargo, pergunto: Por quê há tantas mais canções, poemas e literatura em geral de amores desfeitos que de amores bem-sucedidos? É claro que há muito mais desilusão em se amar que felicidade propriamente dita. Por isso o masoquismo-egocêntrico e o sadismo são componentes fortíssimos numa relação a dois.

Muitos destes sentimentos e atos altruístas nossos estão ligados ao nosso próprio egoísmo. Pouco disso é realmente um sacerdócio da nossa parte, e merece alguma forma de Ode. Perdão, amor, caridade e igualdade são coisas fabricadas pela sociedade para que o praticante destas "artes' se sinta melhor sobre ele próprio. Quem nunca deu um prato de comida a um desvalido e saiu com aquele sorriso de quem ganhou uma vaga no "céu" depois daquilo? Isso é puro egoísmo e cinismo. É a mesma prática do amor descrita acima, e do perdão, abordada em outro texto. Você só o faz porque espera algo de melhor em troca. É como uma poupança, onde se abre mão do consumo de hoje, para se consumir amanhã. Qual é a diferença? Nenhuma, somente trocam-se os períodos. Por quê eu te perdoo? Para que você não me deseje mal. Por quê te amo? Para que você me ame também. Por quê te ajudo? Para ficar "bem na foto" com o homem lá de cima, ou para você me ajudar também um dia. Por quê te trato como um igual? Porque quero que você me trate como um igual também. Percebem a recíproca? Pois quase nunca ela é verdadeira. No fim, você estende a sua mão, e quase sempre, na maioria das vezes, te cospem nela.

Sádicos, masoquistas, egoístas e pseudoreligiosos: Amar é propagar um mito, uma falácia de que todos amam a todos. Mentira. Amamos somente a nós mesmos, e reforçamos isto no nosso semelhante. Amamos o que nos é conveniente. Amor é comercio, é vendido. Quem compra, sempre se arrepende. Amor na verdade é sexo, é tesão pelo parceiro, é a conjuminação de fatores que te levam a sentir uma atração sem limites pela outra pessoa, independentemente se ela sente a mesma coisa, mas não é abrir mão de tudo. É que muita gente foi enganada pelo mito de São Valentim, ou pelo cinema e seu amor de beijo enquadrado pela câmera, em lenta aproximação e com infinita sofreguidão. Ou por aquele beijo de novela "fake", onde um dos atores provavelmente é homossexual, mas faz o telespectador acreditar no seu amor de estúdio, no seu beijo e sexo viril. Mania chata que a gente tem de romantizar tudo. Deve ser porque sabemos que na verdade, é tudo bobagem.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Carnaval, O Solitário e O Maluco

Ontem, como sempre fiz, ao acabarem os noticiários noturnos, desliguei a televisão e abri um livro qualquer de minha escolha para me fazer companhia pelo resto da noite. Era "O Viajante Solitário" por Jack Kerouac. Uma obra prima descrita por um homem que prezou sua liberdade até os últimos minutos de sua vida. Um vagabundo iluminado, como se autoproclamava, ele percorreu as mais insólitas viagens pelo mundo em busca de autoconhecimento e compreensão da realidade em que vivia. Isso foi nas décadas de 1940 e 1950. O mundo era diferente, as coisas eram diferentes. Descobertas assim são mais difíceis hoje porque nos preocupamos demais em nos socializarmos a qualquer custo, e esquecemos a grande virtude do estar só, do silêncio absoluto, do contato com seu Deus, seja qual for, e sua resposta mais divina: O mesmo e famigerado silêncio. Eu tenho pena dos homens de hoje, eu não os odeio, e não os amo. Apenas tenho pena. São incapazes de por a cabeça sob a relva e observar o céu, de ouvir uma queda d´agua, de observar, tão somente, sem se entediar e ligar a porra de um celular. É uma maldita alma plugada em algum instrumento de vício.

Não se pode só falar sobre isso. Às 23 horas, terminei meu livro e me aprontei para a cama. Procurei um velho DVD para assistir (eu também sou escravo dessas coisas), optei por dar uma chance ao "congelado" televisor, ou LCD, ou seja lá como queiram chamar-Carnaval- Chegamos ao Carnaval. Havia me esquecido disso, talvez por não acompanhar com tanta assiduidade os meios de comunicação, por não ter visto a Mulata "Globeleza" requebrar-se como uma cobra eletrocutada como em outras oportunidades, ou por não ouvir alguns cretinos dizerem que irão para Salvador, sem razão alguma, para ser um "folião", ou um beijador no meio de outros cretinos, mijões, beberrões e farristas. No noticiário, claro, vemos que está chegando. Sempre há uma reportagem sobre as ruas de Olinda, os Trios Elétricos de Salvador, os blocos no Rio, Minas, São Paulo etc...Que falha tremenda a minha, não perceber a aproximação da festa mais sensual do ano. Lembrando-me daquelas vezes em sentava junto a meu pai para assisitir aquele festival de genitálias e seios expostos. Era muito bom. Pouco sabia sobre a evolução da bateria, sobre o enredo, ou se havia muitas plumas e paetês nos carros alegóricos. Eu me hipnotizava com aquelas Deusas de ébano das favelas locais, ou pseudoatrizes de merda da televisão requebrando seus maravilhosos corpos naquela tela de vinte polegadas da minha velha TV. Que ótimo, existe algo que me marcou nestes últimos quase trinta anos de carnaval: A beleza das passistas. Me faz até esquecer da grande babaquice e oportunidade de autopromoção que o carnaval se tornou nos últimos anos. Tem gente dando tudo que pode ao cirurgião plástico pra não fazer feio nas passarelas pelo Brasil. Tem que se respeitar muito essa gente. Para elas o Carnaval virou puro business, que exige investimento em troca de ensaios em revistas, entrevistas, papéis em folhetins de merda na televisão. É, pensei demais. Fui dormir.

Todavia, nem tudo é crítica. Temos um período para descansar, e se você for esperto o suficiente pode se afastar desta "Sodoma e Gomorra" moderna e estender seus pensamentos, colocando-os em dia. Afinal de contas, é um feriado, não? Ser solitário tem suas vantagens. Permitam-se o silêncio, dêem-se tempo para pensar, entenderem seu semelhante e seus defeitos, entender seus próprios defeitos. Só o silêncio dá esta oportunidade. Hoje em dia o silêncio é escasso, e toda a oportunidade de tê-lo é uma dádiva, e quem o busca não deve ser conotado de modo algum. Certa vez me disseram que levo jeito pra maluco. Não me senti ofendido, pois o maluco referido nada mais seria do que um introspectivo Ser, uma pessoa que não socializa mais por socializar. Alguém que busca refúgio em sua própria mente não pode ser um pária. Tenho amigos, tenho pessoas que de mim têm de tudo que possa dar. Afeto é a minha maior benesse a todos. A minha introspecção e paixão pelas minhas próprias idéias, préconcebidas ou não sobre o mundo, não são, em hipótese alguma, uma promessa de loucura futura, e sim de maior autoconhecimento que não será afetado pelos excessos do mundo e das pessoas de hoje.

O dia chegará em que todos nós teremos essa necessidade. Contudo, o mais cedo que isto ocorrer, melhor. Criaturas superficiais abundam na terra, e não é um Carnaval bem "pulado" que irá fazer seu resto de ano mais feliz. Na verdade ocorre o oposto, ao não se perguntar o por quê das coisas, pode-se facilmente cair na falácia da felicidade falsa, aquela que só ocorre após o homérico porre, após o sexo sem sentido, após a música alta e disforme em seus ouvidos. Ocorre o engano da mente, a supressão do Eu e a ascensão do Nós, o fim da personalidade própria e o início do ser carismático, já tratado em outro texto por aqui. É só uma escolha, nada mais. O pré-Maluco tinha de escrever isso. Bom Carnaval a todos!